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Fim de colégio, tempo de angústia

Às vésperas do vestibular, os jovens têm de lidar com o sentimento de perda dos colegas e da escola e com as incertezas do futuro. Tenho tido o privilégio de manter relações de amizades com psicopedagogas, psicólogas e coordenadoras de ensino, que têm comentado o surpreendente e até estranho comportamento dos alunos de terceiro colegial. Esse grupo de educadores tem observado que os jovens prestes a concluir os estudos ficam muito desanimados, impacientes, irritados e até hostis, não vendo a hora de se livrarem do colégio. Mostrando-se infelizes, depreciando o convívio que tiveram até então. Muitos estão apenas a 20 dias do encerramento do dia letivo.

Para alguns, esses 20 dias parecem significar dois anos, porque há um prejuízo na noção do tempo. Desinteressam-se pela festa de formatura e entrega de diplomas. Minha interpretação para este fato indica que a forte revelação com a vai se encerrar. Haverá uma ruptura da sólida aliança conseguida com diretores e professores. Muitos estão no colégio desde os seis anos de idade, no tempo em que as professoras eram chamadas de "tias". O grupo, geralmente coeso, é mantido por fortes laços de amizade. A mudança é significativa e creio que o comportamento apresentado é de natureza inconsciente, para negar o sofrimento da separação e perda. A grande perda do amor das pessoas e do colégio amados.

Enfim, para camuflar a tristeza e a depressão, já que tal situação implica na elaboração e superação de um verdadeiro luto. Trata-se portanto, de um caso de amor. O amor nos dá ilusão, carinho, prazer e alegria, mas nos traz também desilusão, decepção, rompimento, separação e perda. Os destinos profissionais são os mais variados e eles serão acolhidos em diferentes cursos, às vezes em outras cidades, o que aumenta a dificuldade para contatos e reencontros. Logo, o outro lado da moeda está na angustiante e tensa expectativa do terrível vestibular, na tentativa de iniciar o aprendizado da carreira escolhida. Além do mais, as escolhas são feitas de forma insegura e com muitas dúvidas.

Todos estão cientes da batalha dos processos de seleção e alguns não conseguem ver uma luzinha no fim do túnel. Mesmo os preparados em conhecimentos sentem-se despreparados emocionalmente. Muitos se idealizam e idealizam as faculdades que pretendem disputar. A concorrência e competição com estudantes de outros colégios são duras, difíceis, desconhecidas e de resultado incerto, como se estivessem numa nave sem rumo. Enfim, quando os jovens deixam o colegial, para concorrer nos vestibulares, trocam uma situação segura e protegida pela incerteza de resultados e de futuro.

Para agravar a situação, eles ouvem dizer das características do trabalho de hoje em dia, que exigem conhecimentos versáteis e amplos, o que torna ainda mais indispensável a vocação e talento para se recrutarem pelo mercado de trabalho. Penso que, neste período que estou tentando descrever, existem dois tipos de angústia e sofrimento: o da separação e perda do colégio e a de indecisão e incerteza do vestibular, quando eles se sentem completamente sós, na busca do próprio caminho na vida. Dr. Antônio Luiz Pessanha. Médico psicanalista formado pela Escola Paulista de Medicina e com formação analítica na Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Jornal da Tarde - 19/dez/2000


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