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As doenças da tireóide
e a gravidez
Se
você sofre de qualquer problema da tireóide, é importante
contar a seu médico que pretende engravidar. Ele vai manter
os seus hormônios tireoidianos sob controle rigoroso ao longo
da gravidez para impedir qualquer problema com o bebê.
A doença de Graves
O
hipertireoidismo na gravidez é quase sempre resultado da
doença de Graves. Este não é um evento comum, pois as doenças
auto-imunes, das quais a doença de Graves é um exemplo,
tendem a melhorar espontaneamente durante a gravidez. Além
disso, mulheres com uma tireóide hiperativa são relativamente
estéreis, pois tendem a não ovular na maioria dos ciclos
menstruais.
À
medida que o anticorpo estimulador da tireóide, que é o
responsável pelo hipertireoidismo na doença de Graves, atravessa
a placenta e passa do sangue da mãe para o sangue da criança,
esta também vai ter uma tireóide hiperativa como a mãe.
Felizmente, as medicações antitireóide também vão atravessar
a placenta e fazer com que um bom controle do hipertireoidismo
da mãe garanta que o feto não sofra nenhum prejuízo. O fracasso
na identificação ou no tratamento adequado do hipertireoidismo
de uma mulher grávida pode causar um aborto, enquanto o
tratamento excessivo com medicações antitireóide pode levar
ao desenvolvimento do bócio no feto.
É
importante, portanto, que a paciente receba a dose mais
baixa possível de metimazol para que os níveis de hormônios
tireoidianos no sangue voltem ao normal e que eles sejam
checados a cada quatro ou seis semanas, em um trabalho colaborativo
com o obstetra responsável. O metimazol é geralmente interrompido
quatro semanas antes da data estimada do parto para garantir
que não haja possibilidade do feto estar com hipotireoidismo
nesta etapa crucial do seu desenvolvimento.
Se
o hipertireoidismo reaparece na mãe depois do nascimento
do bebê, durante a amamentação, ela vai ser tratada com
propiltiouracil e não com metimazol, pois aquele é menos
excretado pelo leite e, portanto, não afeta o bebê.
Existem
relatos da América do Norte sobre a associação do metimazol
com uma doença rara do bebê recém-nascido conhecida como
aplasia cutis, que causa um defeito na pele que cobre uma
pequena parte do crânio. Na Inglaterra, considera-se que
este risco foi superestimado, se é que ele existe de fato.
A maioria dos especialistas ingleses prescreve metimazol
na gravidez com tranqüilidade. Alguns, contudo, podem preferir
usar o propiltiouracil e introduzi-lo no lugar do metimazol
antes da concepção, se possível. A dose do propiltiouracil
é dez vezes maior do que a do metimazol e ele está disponível
apenas em comprimidos de 100 mg.
O
tratamento com iodo radioativo nunca é utilizado durante
a gravidez. A cirurgia pode ser ocasionalmente recomendada
ao redor da 20ª semana de gravidez, para as pacientes
que desenvolvam efeitos colaterais das medicações ou que
façam um uso irregular destes, colocando o feto em perigo.
O hipertireoidismo no recém-nascido
Na
maioria das mulheres com a doença de Graves, o hormônio
tireóide-estimulante desaparece ou tem um nível baixo durante
a gravidez. Em algumas, entretanto, o nível permanece alto
e como o sangue da mãe está em contato com o do feto durante
toda a gravidez, estes altos níveis também vão estar presentes
no sangue do recém-nascido e podem causar o hipertireoidismo.
É possível prever quais bebês têm maior probabilidade de
desenvolver o hipertireoidismo pelo alto nível de anticorpos
no sangue da mãe ao final da gravidez. O hipertireoidismo
no recém-nascido, se detectado nesta fase, é tratado com
facilidade e dura apenas 2-3 semanas até que o anticorpo
da mãe seja inativado. Muito ocasionalmente, mães que foram
tratadas com sucesso da doença de Graves no passado continuam
a produzir o hormônio tireóide-estimulante e seus filhos
recém-nascidos correm risco de desenvolver hipertireoidismo.
História
do Caso 1: Concepção e gravidez
Rebecca e seu marido tentaram ter um segundo filho por três
anos sem sucesso. Rebecca havia concebido duas vezes, mas
infelizmente, nas duas ocasiões, teve abortos por volta
da décima semana. Ela se sentia bem e aparentava estar bem
e, embora tivesse perdido alguns quilos, ela atribuiu este
fato ao seu estilo de vida movimentado de cuidar da casa,
cuidar de um menino de cinco anos ativo e trabalhar meio-período
como secretária. Ela estava um pouco ansiosa, pois a sua
menstruação que sempre foi regular como um relógio, estava
menos abundante e, ocasionalmente, ela não menstruava.
Durante
o seu telefonema semanal para a sua mãe, ela soube que seu
primo na Austrália foi recentemente diagnosticado com hipertireoidismo.
Ela consultou o seu clínico e, apesar da ausência de sinais
evidentes (ela não tinha bócio nem olhos saltados), os exames
de sangue revelaram um hipertireoidismo leve, o que foi
confirmado pelo hospital local como sendo causado pela doença
de Graves. O tratamento foi iniciado com metimazol, inicialmente
com uma dose de 30 mg por dia e, depois de cinco meses de
tratamento, Rebecca estava grávida.
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Tirando sangue
No caso de Rebecca, os exames de sangue mostraram
que ela estava sofrendo de um hipotireoidismo leve,
o que aumentava a chance de ela ter um aborto. |
Ela
era avaliada pelo endocrinologista a cada quatro semanas
e na metade da gravidez ela precisou tomar apenas 5 mg de
metimazol por dia. A medicação foi interrompida quatro semanas
antes da data estimada para o parto e ela deu à luz a uma
menina saudável cujo teste do calcanhar no sétimo dia estava
normal, sem evidências de anormalidades da tireóide. Rebecca
amamentou a sua filha, mas após quatro meses desenvolveu
hipertireoidismo, mais uma vez como resultado da doença
de Graves, pois o anticorpo tireóide-estimulador estava
presente no seu sangue. Ela decidiu trocar para mamadeira
e o seu hipertireoidismo passou a ser tratado com metimazol
como antes. Se ela tivesse optado por continuar amamentando,
receberia uma prescrição de propiltiouracil em vez do metimazol.
Hipotireoidismo
A
maioria das pacientes com hipotireoidismo já está tomando
tiroxina quando engravida. Embora um hipotireoidismo leve
não diminua a fertilidade, as pacientes com uma deficiência
grave da tireóide, de duração prolongada, têm menor chance
de engravidar ou, quando concebem, de manter a gravidez.
Pode
ser necessário aumentar a dose de tiroxina durante a gravidez
para 50 mg por dia. Deve-se fazer exames de sangue a cada
três meses para verificar se a dose precisa ser aumentada.
Pode-se voltar a tomar a mesma dose de antes da gravidez
depois de quatro semanas do nascimento do bebê. A tireóide
do feto se desenvolve independentemente da glândula da mãe
e fabrica os próprios hormônios. O bebê não está em perigo,
portanto, se você esquecer de tomar uma dose ocasional da
tiroxina, mas o hábito de não tomá-la aumenta a chance de
aborto.
A tireóide do recém-nascido
Um
em cada 3.500 bebês recém-nascidos apresenta uma tireóide
pouco ativa como resultado de uma deficiência no desenvolvimento
da glândula. No passado, o problema não era identificado
até a criança ter várias semanas de idade, quando ela provavelmente
já teria desenvolvido uma deficiência física e mental permanente,
uma condição conhecida como cretinismo. Atualmente, contudo,
todos os bebês recém-nascidos passam por um exame de sangue
para o hipotireoidismo entre cinco a sete dias depois do
seu nascimento.
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Hipotireoidismo em
bebês
Um simples teste de picada no calcanhar ("teste
do pezinho") é realizado em todos os recém-nascidos.
Ele é usado como teste para o hipotireoidismo. |
Qualquer
criança afetada recebe tratamento imediato, o que garante
o seu desenvolvimento normal. O tratamento, geralmente,
deverá ser feito pelo resto da vida, mas em alguns bebês
o hipotireoidismo é temporário. O hipotireoidismo temporário
é um resultado de se ter uma mãe com uma tireóide pouco
ativa, que tem anticorpos bloqueadores que atravessam a
placenta e têm o efeito contrário dos anticorpos estimuladores
que produzem a doença de Graves e o hipertireoidismo neonatal.
Depois de dar à luz
Embora o hipertireoidismo da doença de Graves tenda a melhorar
espontaneamente durante a gravidez, ele freqüentemente retorna
de modo grave alguns meses depois do parto. Existe, contudo,
um outro tipo de hipertireoidismo que pode se desenvolver
no ano seguinte ao nascimento do bebê, quase sempre em pacientes
com uma doença auto-imune subjacente como a tireoidite de
Hashimoto, que pode não ter sido identificada previamente.
O hipertireoidismo é leve, dura apenas algumas semanas e
pode ser tratado com um betabloqueador se necessário. Esta
fase pode ser seguida de um episódio igualmente transitório
de um hipotireoidismo que não necessita de tratamento que
é, então, seguido de uma recuperação completa. Um padrão
similar pode ocorrer em gestações futuras e muitos pacientes
podem vir a desenvolver uma tireóide permanentemente pouco
ativa. É importante saber diferenciar o que é conhecido
como tireoidite pós-parto, que não requer tratamento, e
a doença de Graves, que precisa ser tratada. Para isso,
pode ser necessário medir a concentração dos anticorpos
tireóide-estimulantes no sangue, que estão geralmente presentes,
na doença de Graves, ou medir a habilidade da tireóide de
concentrar o iodo radioativo ou o tecnécio, a qual está
ausente na tireoidite pós-parto. A tireoidite pós-parto
afeta cerca de 5% das mulheres, mas a maioria das pacientes
não se queixa dos sintomas. Não parece haver nenhuma relação
entre anormalidades nos exames da tireóide e a depressão
pós-parto.
História
do Caso 2: Tireoidite pós-parto
Flora
Stewart tinha 25 anos e um bom casamento com o seu marido,
William, e eles tinham tido sua primeira filha, Jane, cinco
meses antes. O seu relacionamento começou a deteriorar quando
Flora se tornou chorosa e irritável, retrucando William
sem nenhum motivo. Flora também estava dormindo mal e William
notou que suas mãos tremiam. Contudo, os dois atribuíram
tudo isso às mudanças hormonais ligadas à gravidez e ao
nascimento do seu bebê e acreditaram que logo tudo estaria
de volta ao normal.
Entretanto,
quando Flora começou a reclamar de palpitações, William
a convenceu a consultar o seu clínico-geral. O médico achou
que Flora poderia ter uma tireóide hiperativa e suas suspeitas
foram confirmadas pelo exame de sangue. Ao saber da notícia,
Flora ficou preocupada porque sua mãe tinha tido a doença
de Graves com aproximadamente 30 anos e seus olhos ainda
eram proeminentes 20 anos depois, mesmo depois de o hipertireoidismo
já ter sido curado. Para aliviar os sintomas de Flora, o
médico prescreveu 80 mg de propranolol, para ser tomado
uma vez ao dia. Ele também encaminhou Flora para um especialista.
Na época da sua consulta, aproximadamente quatro semanas
mais tarde, Flora já se sentia muito melhor e o novo exame
de sangue mostrou que a glândula tireoidiana tinha se tornado
levemente hipoativa. O diagnóstico correto não era de doença
de Graves, mas, sim, de tireoidite pós-parto e Flora foi
assegurada de que não ficaria com os olhos saltados como
sua mãe. O propranolol foi interrompido e um novo exame
de sangue, feito dois meses depois, estava completamente
normal. Flora sabe que ela pode desenvolver os sintomas
de tireoidite pós-parto depois de outras gestações e que
ela tem um maior risco de desenvolver uma tireóide hipoativa
permanente em algum momento no futuro.
Contudo,
o seu clínico vai solicitar um exame de sangue anual para
garantir que o hipotireoidismo seja detectado antes de ela
apresentar sintomas graves.
Pontos centrais
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Informe o seu médico caso esteja planejando um bebê, pois
você talvez tenha que trocar de remédio.
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Seu
médico vai manter você em observação durante a gravidez,
mas o tratamento não vai afetar o seu bebê em desenvolvimento.
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Algumas
mulheres desenvolvem doença tireoidiana leve depois de
terem um bebê, mas ela é facilmente tratada. Se você está
experimentando sintomas semelhantes a estes descritos
na história de Flora na página 44, vale a pena perguntar
ao seu clínico se esta pode ser a causa.
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Embora
a sua criança possa nascer com hipotireoidismo, se você
tiver esta doença, ela receberá, como todos os recém-nascidos,
um teste de rotina logo após o nascimento e será tratada
se necessário.
Fonte:
Revista ISTOÉ - Guia da Saúde Familiar - Volume
15 - 02/2002
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