A
gravidez é um momento tão sublime na vida da mulher que
a natureza lhe impôs um pedágio. No início da gestação o
pedágio é o enjôo freqüente e, no final, a futura mamãe
mal consegue andar ou dormir em função do tamanho da sua
barriga. Mas costuma ser só isso. Durante nove espetaculares
meses, a mulher experimenta uma explosão de emoções e sensações
como jamais sentiu. Num determinado dia, lá pelo terceiro
mês, a calça folgada que sempre usou vai ficar justa na
cintura e o incrível acontece. Em vez de pensar em fazer
dieta, a grávida fica feliz ao exibir a sua barriguinha
miúda que só a fita métrica consegue identificar. Sentindo-se
mais bonita quanto mais pronunciada seja sua barriga, vai
comprar roupas de gestante e exibir-se com orgulho na praia.
No quinto mês, a gestante costuma rir sozinha quando sente
os movimentos do seu bebê. Com apenas 20 centímetros de
comprimento e pesando não mais de 650 gramas, move-se de
um lado para outro como se fosse um peixinho e o útero,
um aquário. No oitavo mês, durante um jantar com amigos,
a mãe até conversa animadamente, mas o que lhe interessa
são as pontadas que acabou de receber. É um chute? Uma cotovelada?
Uma cabeçada? É assim, aos poucos, que a mãe vai se apaixonando
pelo filho que vai nascer. "A gravidez é um estado tão sublime
que muitas mães ficam com saudade do tempo em que tinham
um barrigão, do tempo em que havia um segundo coração batendo
dentro delas", conta Nelson Sass, professor de obstetrícia
da Universidade Federal de São Paulo.
Se
a gestação pudesse ser resumida numa só palavra, ela seria
velocidade. Para entender a associação, basta dizer que
o bebê tem o tamanho de um grão de arroz na fase inicial.
Quando a mulher começa a suspeitar que está grávida, lá
pela quarta semana, o embrião já terá as bases do que virão
a ser cérebro, pele, ouvidos, olhos, pulmão, intestino,
sangue, músculos e ossos. Até que toda a família seja avisada
da novidade, digamos em uma semana, o embrião já terá sistema
nervoso e veias. A partir de dois meses, o coração já estará
batendo e pode ser facilmente observado num exame de ultra-sonografia.
Com nove semanas, ele tem dois olhos, boca com língua, pés
e mãos, faltando apenas a divisão entre os dedos. Com três
meses, o embrião ganha um aspecto bem humano e passa a ser
chamado de feto - palavra latina que significa "novo ser".
Do terceiro ao sétimo mês de gestação, o feto espicha 1,5
milímetro todos os dias. "Uma coisa que deixa todos os cientistas
maravilhados é que a natureza quase não erra e cada célula
cumpre exatamente o seu papel", afirma o ginecologista e
obstetra Carlos Montenegro, do Rio de Janeiro.
As
informações disponíveis sobre o ritmo de desenvolvimento
do bebê no útero são resultado do avanço de um ramo da ciência,
a medicina fetal. Graças a ela, esperar um bebê hoje em
dia é praticamente tudo o que a mãe precisa fazer. Enquanto
o feto se desenvolve, a tecnologia permite ao obstetra que
cuide de praticamente tudo através de gráficos precisos
e imagens computadorizadas. Um dos maiores avanços ocorreu
num aparelho simples, o que faz a ultra-sonografia. O ultra-som
é um equipamento usado originalmente nas pescarias para
localizar cardumes em águas profundas e, mais tarde, foi
introduzido em submarinos para detectar obstáculos ou outros
submarinos. Adotado como exame rotineiro durante a gestação
na década de 70, tinha no princípio apenas doze tonalidades
diferentes de cinza e permitia a visualização do bebê com
grande dificuldade. Hoje em dia, são mais de 100 tons de
cinza. Com uma maior nitidez, o ultra-som tornou-se um grande
instrumento de trabalho. "Saímos do borrão e hoje conseguimos
identificar as estruturas com grande resolução. Isso torna
o nosso trabalho cada vez mais seguro e transparente", diz
Nelson Sass.
Graças
a uma descoberta dos ingleses, de 1992, o aparelho é usado
num exame de rotina com nome complicado, a translucência
nucal. Realizado entre a décima e 14ª semana de gestação,
o exame faz medições na nuca do feto e com isso consegue
identificar a propensão a doenças cromossômicas como a síndrome
de Down. Outro aliado decorrente da evolução do ultra-som
é o teste de doppler das artérias uterinas, que monitora
o fluxo sanguíneo do bebê. Em uma tela colorida, médico
e paciente podem conferir se os principais órgãos do feto
estão sendo bem irrigados. Além de detectar anormalidades,
o exame funciona como um cartão amarelo para as grávidas
fumantes. "Elas podem ver com seus próprios olhos quando
há alguma obstrução no cordão umbilical, em geral conseqüência
do cigarro", argumenta Marcos Mendonça, professor de medicina
da Universidade Federal de Minas Gerais.
O que as novas técnicas de exame e diagnóstico conseguiram
foi melhorar a qualidade de vida dos pais durante a gestação.
Com esse arsenal, a medicina hoje controla problemas que
poderiam ser fatais até cinco anos atrás, como um aumento
exagerado de pressão da mãe ou a arritmia cardíaca para
o feto. Para 95% das grávidas, felizmente, esses avanços
são apenas reforços tranqüilizadores nos inevitáveis momentos
de fantasia sobre possíveis complicações. Pesquisas internacionais
constatam que apenas 5% das gestações apresentam algum tipo
de anormalidade. "No passado, o médico sabia se o bebê estava
bem ou mal apenas quando ele mexia ou não mexia, crescia
ou deixava de crescer", lembra o obstetra Sang Cha, chefe
do serviço de medicina fetal do Laboratório Fleury, de São
Paulo. "O profissional dependia muito das informações da
mãe. Atualmente, podemos avaliar com precisão o crescimento
e o bem-estar fetal por meio de ultra-sonografia, cardiotocografia
computadorizada, doppler, entre outros exames sofisticados."
Sem contar a maior revelação antes guardada para a hora
do parto: o sexo da criança.
A
medicina fetal é uma das áreas científicas que mais avançaram
na última década. Os profissionais entendem cada vez mais
do feto, descobrindo e cuidando de aspectos importantes
para o seu bem-estar. Hoje em dia, algumas técnicas modernas
permitem o tratamento e a correção de uma eventual disfunção
da gravidez ainda dentro do útero. Num caso mais grave em
que se constate necessidade, pode-se até fazer uma operação
cardíaca no bebê sem removê-lo de onde está. Uma dessas
técnicas está sendo estudada em vários lugares do mundo,
inclusive no Brasil, no hospital e maternidade Santa Joana,
em São Paulo. Com tecnologia de ponta, uma fetoscopia visualiza
o bebê por um sistema ótico introduzido pela vagina, sem
incisões cirúrgicas. "Com essa técnica, podemos observar
malformações e fazer cirurgias a laser dentro do útero da
gestante ou dentro do abdome do próprio feto", revela Antônio
Fernandes Moron, fundador da Sociedade Brasileira de Medicina
Fetal.
Além do bebê, a vida das mães mudou radicalmente, tornando
a gravidez uma fase não apenas mais confortável, como também
mais segura. Mulheres que fizeram transplante de rins, diabéticas,
hipertensas ou portadoras de alguma cardiopatia hoje podem
ter uma gravidez quase nas mesmas condições de uma pessoa
saudável. A diferença não está em equipamentos sofisticados
como os que tratam do bebê, mas em ações preventivas. Um
dos principais problemas da gestação, o controle da hipertensão
ganhou uma grande diversidade de medicamentos menos prejudiciais
ao organismo da mãe e do feto. Entre eles, destaca-se um
aparelho, chamado Mapa, que fica pendurado na cintura das
grávidas por 24 horas. Os médicos também descobriram que
um procedimento simples, como a administração de ácido fólico
antes da gravidez e durante os nove meses, pode reduzir
em 62% a possibilidade de algumas malformações no sistema
nervoso do feto. Os resultados têm sido tão animadores que
nos Estados Unidos se discute a inclusão dessa substância
como componente obrigatório na fórmula de cereais matinais,
a exemplo do que se faz com o iodo no sal.
A última novidade para as mães, que se está tornando uma
coqueluche nos Estados Unidos, é uma cinta que registra
as contrações uterinas e envia sinais telefônicos para uma
central médica. Nessa central, a gestante é observada por
um serviço de atendimento a distância. Nos casos mais simples,
os médicos podem receitar medicamentos por telefone e só
solicitar a internação num hospital quando for realmente
necessário. Todas as novidades oferecem aos pais uma segurança
inimaginável há alguns anos. Junto com a felicidade de estar
"grávidos", os pais desenvolviam uma alta ansiedade que
só desaparecia com o nascimento e a constatação de que o
bebê era forte e saudável. Ao tornar a barriga da gestante
mais transparente, a ciência liberta os pais de uma herança
de medos oriunda de uma época em que o nascimento ou a morte
do feto era algo ligado ao destino.