Para os pais
, geralmente, o mais tarde possível. Por eles este
momento seria eternamente adiado. Este sentimento aparece
claramente na famosa canção dos Beatles "She's
Leaving Home" onde constatam ".. ela está
deixando a casa depois de tantos anos de convivência
"..., lamentam "....como ela faz uma coisa dessas
conosco!..." e se culpam "... onde nós
erramos?". É bem verdade que a filha da canção
dos Beatles sai de casa deixando apenas um bilhete, mas
mesmo em situações mais formais com festa
de casamento, bolo e champagne a situação,
para os pais não é fácil...
Já para
os filhos a fantasia de sair de casa se faz presente desde
muito cedo. Começa com a famosa chantagem "Vou
fugir de casa! Vou morar com a vovó!” E persiste
com maior ou menor intensidade daí para diante.
Sair de casa
depois de anos de convivência não é
fácil nem para quem vai nem para quem fica. Embora
o jovem sonhe desde cedo com este momento, sua concretização
significa um ritual de passagem difícil, amedrontador,
cheio de incertezas.
Até
bem pouco tempo atrás a única maneira aceita
socialmente para o jovem sair de casa era através
do casamento. Não é à toa que a maioria
deles faliu! O jovem casava-se para ter a liberdade que
julgava não ter em casa, mudar de posição
social, às vezes até por estar apaixonado...
Nos anos 70, houve algumas tentativas de se sair de casa
para viver em comunidade através dos hippies. Não
deu muito certo. Já houve tempos em que em nas classes
mais abastadas não se saia de casa: várias
gerações conviviam em mansões, castelos.
E sempre existiram gerações que conviveram
numa mesma casa não por nobreza, mas por falta de
recursos...
Hoje, pode
se sair de casa por opção. Ao jovem já
é permitido, quando tem recursos para isto, morar
sozinho, criar seu próprio espaço, ter seu
s discos, livros, pintar sua parede de vermelho com bolinhas
amarelas se assim o desejar. Isto até lhe confere
um certo status... E como é bom ter um espaço
só para ele!... será?
Nem todos
pensam assim. Alguns alegam não gostar da solidão,
ter medo dela. Muitos não se propõem a sair
por comodismo, afinal abrir mão de uma comidinha
bem feita, roupa passada e lavada ainda não parece
muito gratificante quando se leva em conta as vantagens
de um espaço só para si. E
quais são, afinal, essas vantagens?
Não
há dúvidas que morando sozinho o jovem se
conhece melhor. O que ele coloca em sua casa é opção
sua, não vale botar a culpa em ninguém! Sua
imagem fica explicitamente exposta através dos objetos
que escolhe, das cores, das formas, dos hábitos e
rituais que passa a estabelecer. Isso, com certeza ajuda-o
a amadurecer, assumir suas escolhas, experimentar mais seja
para o acerto ou para o erro. O jovem aprende também
a conviver consigo mesmo, aprender a agüentar-se, seja
nos bons momentos, seja nos maus. Fica mais fácil
entrar em contato com as suas vontades, saber o que quer
comer de verdade, o que quer ouvir, o que quer ver. Apesar
da solidão ser o grande fantasma de quem opta por
morar sozinho, dizem os jovens que morar sozinho obriga-os
a saírem em busca de companhia ampliando seus relacionamentos,
por mais paradoxal que isto possa parecer. Ter companhia
de família às vezes acomoda...
Houve um tempo
em que os jovens saiam de casa fugindo de um relacionamento
doentio entre os pais, quando a separação
ainda não era bem vista. Hoje, casais que não
se dão bem se separam. Os que ficam juntos o fazem
por opção, porque se gostam de fato. Nestas
famílias, como não existe o mal estar das
brigas e o ambiente é bom, o jovem tende a adiar
sua saída. Afinal, quem não gosta de paz?
De ser amado e conviver com pessoas que se amam? De um colinho
para apoiar a cabeça? Depois do fator econômico
este é o que mais segura o jovem em casa . Atualmente
não é mais obrigatório sair de casa
para namorar. É comum pais permitirem aos jovens
namorar e dormir juntos dentro de casa para fugir da violência
das ruas. Atitude aliás, bastante polemica. Para
uns conseqüência natural dos tempos modernos,
para outros superproteção que infantiliza
o jovem na medida em que acaba tirando dele a responsabilidade
de luta por um espaço próprio.
Mas, afinal,
qual é, atualmente, se é que existe, o momento
exato para o jovem sair de casa? Com certeza não
é a idade. Existem pessoas que saem aos 12 anos e
se dão muito bem na vida, outros que convivem com
os pais aos 40 sem serem necessariamente frustrados. Como
casar não é mais parâmetro, viver em
comunidade não deu certo e fugir não resolve,
conclui-se que hoje em dia sair de casa requer uma reflexão
complexa e individualizada.Cada um tem seu momento.
Ou abre mão
dele. Com certeza quem sai vai ao encontro de si mesmo,
de um novo modelo que inclua ou não terceiros. Sente-se
com algo a dizer, a mostrar para o mundo. Quer ter um campo
para experimentar novas formas de agir, de pensar, de ser.
E nada melhor do que um espaço próprio para
concretizar essa necessidade. Por enquanto. Porque costumes
são apenas costumes. Eles vão mudando. Como
o ser humano tende a viver cada vez mais é possível
que num futuro próximo a pessoa passe a "sair
de casa" várias vezes durante seu ciclo vital.
Ou que o conceito de "casa" passe a ser mera recordação
registrada em disquete...