Uma grande
quantidade de filmes recentemente lançados no cinema
com sucesso abordam o tema "casamento". Alguns,
do ponto de vista tradição religiosa versus
escolha pessoal como "Casamento Indiano”; outros
apenas ressaltando costumes e tradições como
o "Casamento Grego". Casamento é tema recorrente
em qualquer novela que se preze, nos romances, nas revistas,
enfim, por mais que se fale sobre ele, sempre há
o que dizer. Vamos ao tema então.
Se durante muito
tempo o casamento foi norteado pelas religiões, hoje
vivemos numa sociedade onde as religiões tradicionais
vêm perdendo força como legisladoras. Isto
porque a maioria delas se baseia em preceitos não
revistos. O casamento, por exemplo, para a maioria das religiões
se baseia na procriação e para muitas na indissolubilidade.
É questionável, nos dias de hoje, em que as
pessoas vivem o dobro do que viviam na época em que
as leis foram criadas, em que mulheres e homens trabalham
e portanto são independente financeiramente, pensar
em indissolubilidade do casamento.
É questionável
nos dias em que alguns paises legalizam a união entre
pessoas do mesmo sexo e "produções independentes”
ou fertilização assistida fazem parte da rotina,
pensar em casamento só para fins de procriação.
Por outro lado a maioria das religiões fala em amor
mas não coloca o bem estar e o prazer na convivência
em evidencia, não discute estas questões.
E as pessoas vivem hoje em função de um imediatismo
fortemente sustentado pela mídia, principalmente
nas sociedades de consumo, em que o prazer e bem estar são
os grandes ícones.
É interessante
notar, no entanto, que a tradição do casamento
religioso, ou pelo menos da cerimônia do casamento
se mantém...E os filmes que tratam desses temas emocionam...
Algumas ruas de comércio mudam seus produtos pois
eles se tornam obsoletos, mas a famosa São Caetano,
a rua das noivas em São Paulo continua lá.
A recessão acontece, mas noivos guardam dinheiro
para uma cerimônia.Por que?
Casamento significa
mudança . As mudanças, tradicionalmente, são
ritualizadas para que fiquem bem marcadas. E mudança
significa esperança. Ninguém pensa em mudar
para pior e sim para melhor. O ritual de casamento encerra
em seu âmago a esperança de uma vida melhor,
de um relacionamento aperfeiçoado, planos para o
futuro.
O grande questionamento
no que se refere às tradições religiosas
está na questão da escolha. Se pais combinavam
casamentos para seus filhos baseados em valores importantes
para eles, como prática religiosa e valores econômicos,
hoje se pretende a escolha baseada em outros valores. O
grande problema está aí. Não se sabe
direito quais são estes valores...
Refletindo-se
um pouco sobre a essência humana de uma relação
a dois podemos dizer que ela se caracteriza pelo prazer
da troca. Como dissemos acima não se criam regras
sobre o prazer sob o risco de tirar do indivíduo
seu último reduto de liberdade íntima neste
mundo extremamente ditatorial.
A liberdade
de escolha é outro aspecto bastante importante dentro
de uma relação nos dias de hoje. Dentro do
âmbito familiar o cônjuge é o único
componente pelo qual se opta. Não se escolhem pai,
mãe, irmãos. Escolhe-se ter filhos mas não
se escolhe como eles serão como pessoas.
Não é
preciso ir muito longe para perceber que se os preceitos
religiosos já não são suficientes para
reger os casamentos, o casamento atual, por opção
e escolha pessoal ainda está longe de encontrar um
equilíbrio. Erra-se muito. Aquela esperança
de ser feliz, ter companhia e ter alguém com quem
trocar seu melhor lado transforma-se, muito cedo, em conflito
e falta de sintonia.Como diz a conhecida piadinha jurídica,
se na hora do casamento ouve-se " meu bem" na
hora da separação “ouve-se”meus
bens"... Se a noção de prazer rege as
escolhas ela ainda é erroneamente entendida e incorporada
como o prazer individual, imediato e não o prazer
compartilhado. A maioria das pessoas não leva em
conta as necessidades do outro em função do
individualismo que a sociedade moderna estimula.
Por outro lado
esta mesma sociedade incentiva a mudança compulsiva
para que o consumo se mantenha. As pessoas são levadas
a amar a mudança e odiar aquilo que se repete. E
quando um dos cônjuges não consegue ser suficientemente
criativo para mudar nesse ritmo tende a projetar no outro
a responsabilidade pelo seu tédio. Na sociedade moderna
o descartável impera. Não se pensa em reparar
os erros, troca-se de parceiro e pronto.. A dinâmica
diária de uma relação exige movimento
e principalmente participação. O prazer compartilhado
não é imediato e exige paciência, abnegação
e renúncia.
Quando entram
entra numa relação compartilhada é
importante que os envolvidos saibam quem são e o
que colocam dentro da relação.E isso leva
tempo.Não adianta tentar resumir a questão.
Sexo, respeito e companheirismo por si só não
sustentam um casamento. Assim como ciúme por si só
não o destrói.Mas as pessoas preferem fixar
uma imagem apreendida no passado ao invés de se olharem
dia a dia. Outro problema é que as pessoas conseguem
imaginar idealmente o prazer compartilhado desde que...
seja do seu jeito!!!
Bem, se o
casamento legislado pelas religiões não funciona
em algumas situações e as escolhas pessoais
também freqüentemente não dão
certo, será que não casar seria a solução?
Alguns estão
optando por esta alternativa. Aumenta vertiginosamente a
venda de apartamentos pequenos próprios para uma
só pessoa. Produtos de supermercado embalados em
porções individuais também são
cada vez mais freqüentes.Procura-se companhia eventual
e compartilham-se momentos.Opta-se por não procriar.
Alguns já conseguem viver bem assim.Principalmente
porque podem desenvolver, entender e exercitar melhor o
seu "eu".
Mas ficar
só, tem seus problemas. Estudos mostram que o casamento
influi, e muito na saúde das pessoas. Os casados
vivem mais. Ter alguém com quem compartilhar experiências,
ter alguém que cuide, critique positivamente, ter
alguém para chamar de "seu" aumenta a auto
estima do ponto de vista psicológico. Para a maioria,
ficar só ainda não é a solução..Talvez
não seja importante aprender a ser só"mas
sim aprender a "só ser", como diz a canção.
Ser, conhecer-se para poder optar.
O ser humano
com certeza continuará a buscar soluções
para um casamento melhor. Ainda não se tem a receita
ideal mas pode-se arriscar na que se segue:
1)
Leve ao fogo as tradições, o saber
ancestral, as regras de quem já pensou sobre a vida;
2) acrescente
aos poucos a noção de que uma escolha pessoal
é apenas o início de uma trilha a ser compartilhada
e construída no dia a dia;
3) misture
boas colheradas de respeito pelo seu prazer e uma xícara
cheia de respeito pelo prazer do outro;
4) Pronta a
massa, abra um espaço para conservar sua individualidade;
5) acrescente
temperos que ambos apreciem;
6) Saboreie.
Ah! "E que seja eterno enquanto dure".