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Não é só coisa de maluco

Quando se fala em doença mental, a primeira imagem que vem à cabeça é a do louco de carteirinha - o esquizofrênico ou psicótico que rasga dinheiro, vive num mundo à parte, não fala coisa com coisa e costuma ter acessos de fúria só controláveis por camisa-de-força ou calmantes potentíssimos. É uma visão parcial e marcada pelo preconceito. O universo desse tipo de enfermidade é bem mais amplo. Abarca das neuroses à ansiedade, da depressão a pânico e fobias. Milhões de homens e mulheres ao redor do mundo são afetados por esses problemas, mas pouquíssimos procuram ajuda. Por dois motivos: boa parte prefere esconder seu sofrimento, com medo de ser estigmatizada, e a maioria nem sequer desconfia de que seus sintomas são de uma doença mental. Com isso, distúrbios leves, de cura relativamente fácil, podem transformar-se em problemas crônicos e incapacitantes.

A enfermidade mental mais comum é a depressão. A Organização Mundial de Saúde estima que ela atinja uma em cada quinze pessoas, não importa a latitude. A doença caracteriza-se por melancolia intensa (que é bem diferente de uma tristeza circunstancial) e por um desânimo avassalador. Um deprimido padece de falta de energia para executar as tarefas mais comezinhas e não vê graça em nada. Sua auto-estima despenca para níveis abissais e um inexplicável sentimento de culpa passa a atormentá-lo. Ele tem crises de choro repentinas e é tomado por dores sem causa orgânica definida. Seu padrão de apetite e sono oscila além do razoável. Nos casos mais graves, são recorrentes os pensamentos sobre a própria morte - cerca de 15% das vítimas cometem suicídio. É um tormento do qual é difícil enxergar a saída.

Os quadros de depressão dividem-se em leves, moderados ou severos. A doença tem um forte componente hereditário, mas ninguém está livre de ser atingido. Pode ser detonada por um acontecimento objetivo, como a perda de uma pessoa querida ou dificuldades profissionais, ou por razões subjetivas subterrâneas. Da mesma forma que ocorre em outras afecções mentais, a depressão provoca um desarranjo na química cerebral, ao diminuir os níveis de serotonina e noradrenalina, neurotransmissores responsáveis pela modulação do humor e do prazer. Os remédios antidepressivos promovem o equilíbrio dessas substâncias e, em geral, demoram um mês para começar a fazer algum efeito. O tratamento mais eficaz combina medicamentos e terapia, não importa a linha seguida pelo psiquiatra ou psicólogo. Quanto ao tempo de duração, depende de cada paciente. Dificilmente, no entanto, alguém consegue sair de um estado de depressão em menos de meio ano.

Outra doença mental que não pode ser subestimada é o medo patológico. Sua taxa de incidência na população brasileira gira em torno de 10%. Ele se apresenta como fobia específica (pavor de animais, de dirigir, de andar de avião etc.), fobia social (enorme dificuldade de interagir com as pessoas) ou sob a forma de ataques de pânico. Não raro, esse último é decorrência de um estado depressivo. Existem terapias psicológicas de choque que se ocupam do medo patológico em suas diferentes manifestações. Elas são indicadas para quem não tem disposição - existencial e financeira - de enfrentar um tratamento mais profundo como a psicanálise. Fobias específicas, garantem os profissionais adeptos dessas linhas terapêuticas, são controladas em dois meses. Fobia social e transtornos de pânico exigem um pouco mais de tempo para que o paciente apresente melhora: de seis meses a um ano. Dependendo do grau de intensidade do distúrbio, há a necessidade de associar o uso de antidepressivos. Se você acha que sofre de uma desordem mental como as descritas aqui, não hesite em marcar uma consulta com um especialista. Louco é quem não procura ajuda.

Revista Especial Veja Sua Saúde - 28 de março de 2001 págs. 74 e 76


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