Esquizofrenia: é uma doença sim!
Preconceitos
injustificados estigmatizam, mas a evolução dos medicamentos permite hoje tratamento
ambulatorial.
A esquizofrenia é hoje uma
doença incompreendida. O tratamento refere-se a um conjunto de transtornos que
abrange os mais complexos e assustadores sintomas encontrados na pratica clinica.
Calcula-se que cerca de um a dois por cento da população sofre desse mal e até
há bem pouco tempo o medo o medo e o receio eram exagerados , pelo fato de a
patologia ser considerada incurável, representando uma sentença de vida em desespero
e miséria em algum hospital psiquiátrico .Felizmente, hoje, muitos dos conceitos
mudaram e continuarão a evoluir, fazendo com que muitos dos receios deixem de
ter a importância que ainda pendura.
"Esquizofrenia", explica
o psiquiatra Mario Rodrigues Louzã Neto, coordenador do Projeto de Esquizofrenia
( Projesq ) do Hospital das Clinicas da Faculdade de Medicina, da Universidade
de São Paulo, USP, "é uma doença que se caracteriza por uma desorganização de
diversos processos mentais, levando o portador a apresentar vários sintomas.
Ela se manifesta em crises agudas, quando os sintomas são mais intensos, intercaladas
com períodos de remissão. Sua causa causa ainda é desconhecida .Fatores hereditários
e ambientais parecem contribuir para o seu aparecimento".
A psiquiatra Ana Cristina
Chaves , coordenadora do grupo de esquizofrenia do Hospital São Paulo,da universidade
Federal de São Paulo ( Unifesp ), assegura que o diagnóstico e feito apenas
por meio do quadro clínico. Exames como o eletroencefalograma não detectam,com
precisão , alterações no cérebro do paciente ,e não existe nenhum tipo de exame
laboratorial que permita confirmar a doença .
No fim da adolescência
A herança genética, embora
tenha seu papel importante no surgimento, não pode ser considerada a única causa.
Fatores ambientais na gestação ou nos primeiros dias de vida da criança podem
relacionar-se com o problema Sua manifestação começa geralmente, no fim da adolescência,
entre os 20 e os 29 anos, havendo uma ligeira prevalência para os homens. A
cada ano há cerca de 50 novos casos para cada 100 mil pessoas, o que significa
que poderemos ter 80 mil brasileiros, numa população de 160 milhões de pessoas,
manifestando a doença pela primeira vez.
Antipsicóticos: imprescindíveis para controlar os sintomas:
"Ela pode começar de duas
maneiras", Diz o professor Mário Louzâ. "De modo abrupto, a pessoa muda de comportamento
e hábitos em pouco menos de um mês. Torna-se agitada, não dorme e começa a falar
coisas sem sentido. Quando o início da doença é gradual, as modificações do
comportamento são mais lentas ao longo de meses ou anos e, por isso, a doença
passa despercebida. A pessoa isola-se , não tem mais interesses , deixa o trabalho
ou o estudo . As pessoas próxima do doente acham que essa mudança se deve a
algum fato ocorrido ou a maneirismo, comuns na adolescência , e não percebem
que é uma doença. Somente
quando esses sintomas se acentuam é que ela é levada a um médico."
Há alguns biotipos:
Estudos demonstram que,
com os tratamentos precoces da esquizofrenia, aumentam-se as chances de recuperação.
Segundo a professora Ana Cristina, para fazer o diagnóstico da esquizofrenia,
o psiquiatra depende fundamentalmente da história relatada pelo paciente ou
por uma das pessoas com quem convive. A partir daí se faz o diagnóstico. Não
há, até o momento , nenhum tipo de exame laboratorial ou de raio X que possa
auxiliar . O médico pode solicitar exames laboratoriais para excluir outras
doenças que tenham manifestações semelhantes às da esquizofrenia. Diz Mário
Louzã que há alguns subtipos conhecidos da doença que são classificados conforme
os sintomas predominantes . Entre eles, a paranóide, hebefrênico, catatônico
e simples.
Em alguns momentos de crise, a internação pode ser útil.
Principais causas
Desde o inicio do século
as causas da esquizofrenia vêm sendo pesquisadas. Até meados dos anos 40 os
pesquisadores achavam que não se tratava de uma doença, mas de um problema de
ordem emocional e social. Da década de 70 em diante, com o surgimento das novas
tecnologias para estudar o cérebro humano foram feitas descobertas que permitem
afirmar que a esquizofrenia eé uma doença do cérebro com manifestações psíquicas
. "Sabe-se hoje' , diz Louzã , " que a esquizofrenia tem uma base hereditária
. Parentes de esquisofrênicos têm uma chance maior de ter a doença. Estudos
com gêmeos univitelinos mostram que se um dos gêmeos tem a doença, há uma chance
de 50% de que a doença também se manifesta no outro".
Fatores ambientais também
foram considerados e estudados . Esses fatores são relacionados ao período do
desenvolvimento embrionário do cérebro durante a gestação, ao parto e aos primeiros
dias de vida da criança. É durante esse período que ocorre uma sequência enorme
de modificações no cérebro , que levam ao seu amadurecimento. Se acontece algo
de errado nessa sequência de eventos muito bem - ordenados , o cérebro fica
mais vulnerável para o desenvolvimento da doença.
Alterações bioquímicas
Estão sendo objeto de pesquisas
as alterações no cérebro dos esquizofrênicos , que podem ser visualizadas por
exames especiais como a tomografia computadorizada e a ressonância magnética
. Mas como essas alterações não são especificas, não servem para os diagnósticos.
Estão bem estudadas as alterações bioquímicas no cérebro dos portadores de esquizofrenia
uma vez que, no caso, há alterações de neurotransmissores, principalmente o
dopamina e a serotomina. Esses desequilíbrios dos dois neurotransmissores seria
responsável pelas suas manifestações.
Até os anos 50 não havia
remédio para a esquizofrenia. Muitos pacientes precisavam ser internados em
consequência da sua gravidade e a dificuldade em controlar os sintomas. Em 1952
foi observado que o clorpromazina diminuía os delírios e alucinações e tranquilizava
os pacientes agitados. Esse medicamento foi o primeiro de uma serie de neurolépticos
, conhecido hoje como antipsicóticos , que têm a capacidade de aliviar vários
sintomas , como os delírios , alucinações e o pensamento desorganizado, mas
têm pouco efeito sobre os sintomas do pensamento empobrecido , a apatia e diminuição
da afetividade. Além disso, provocam efeitos colaterais neurológicos, caracterizados
por tremores, rigidez muscular e dificuldade para andar.
Novas esperanças
Nos últimos anos apareceu
um novo grupo de medicação que diminuem os sintomas positivos, atuam sobre os
negativos e produzem efeitos colaterais neurológicos menos intensos . Os antipsicóticos
são imprescindíveis para controlar os sintomas, mais intensos nos surtos da
doença e para evitar seus surtos psicóticos na fase de remissão. O tratamento
e feito em doses baixas de medicação que vão sendo reduzidas conforme a melhora
do paciente. Os antipsicóticos demoram de seis a oito semanas para fazer efeito
e suas doses variam de paciente para paciente , por isso é necessário acompanhamento
intensivo , especialmente no começo do tratamento.
Tratamento demorado
Muitas vezes, não se obtém
o resultado esperado com determinado medicamento e deve-se substitui-lo com
outro até que se encontre um mais eficaz para aquele caso. Para diminuir a angustia,
e a agitação e melhorar o sono administram-se tranquilizantes.
Após algumas semanas os
sintomas diminuem, mas deve-se continuar o tratamento medicamentoso para não
haver uma recaída. Depois de alguns meses, a medicação poderá ser reduzida para
um mínimo necessário visando impedir uma nova crise. Esse é o tratamento de
manutenção, que deve ser feito por um tempo muito prolongado. Preconiza-se um
período de dois anos para tratar a primeira crise e cinco anos após a segunda
crise. Se não aparecer sintomas adversos, pode-se reduzir ou suspender o tratamento.
Para muitos doentes, entretanto, a medicação antipsicótica tem de ser mantida
por toda a vida ou por um prazo indeterminado.
Suporte e apoio
A esquizofrenia é uma doença
heterogênica que necessita dos cuidados de uma equipe multiprofissional. As
abordagens psicossociais visam minimizar ou diminuir as recaídas e promover
o ajustamento social dos portadores da doença; as principais abordagens são:
a psicoterapia, terapia ocupacional, acompanhamento terapêutico, grupos de auto
ajuda, abordagens psicossociais em instituições, orientação familiar, oficinas
de trabalho e pensões protegidas.
A psicoterapia pode ser
individual ou em grupo. A individual deve priorizar o apoio, pois os paciente
têm dificuldades específicas que necessitam de suporte para obter a melhora
em sua qualidade de vida.
A psicoterapia de grupo
monitora e ativa o ambiente do grupo, buscando temas, estimulando e organizando
a conversação, e oferece suporte e proteção para favorecer a coesão do grupo.
A
terapia central é focada
em atividades que não devem ser meramente recreativas. Sua finalidade é recuperar
a capacidade do paciente fazer com que a pessoa se organize, assuma seu auto-controle
e combata a falta de vontade. Já no acompanhamento terapêutico, um profissional
de saúde vai ajudar o portador a recuperar as habilidades perdidas acompanhando-o
no dia a dia.
Hospital-dia
Toda doença crônica dificulta
a vida do doente e sua relação com a família. Deve-se trabalhar a conscientização
do portador da doença para que se possa combate-la e se a família não for também
conscientizada, os choques serão inevitáveis. Estudos internacionais demonstram
que as recaídas são mais freqüentes quando o ambiente familiar é estressante.
Os hospitais-dia, bastante comuns no tratamento da esquizofrenia, estão organizados
para atividades de reabilitação.
A evolução dos medicamentos
antipsicóticos transformou o tratamento da esquizofrenia de hospitalar para
ambulatorial. No entanto, em determinados momentos de crise, a internação ainda
pode ser útil. Caso seja necessária, deve ser por curto prazo. Vinte a quarenta
dias
Sintomas variam de pessoa para pessoa
São vários os sintomas de
esquizofrenia que são considerados para avaliação diagnóstica e para a conduta
do tratamento. Eles variam de pessoa para pessoa e também conforme a evolução
da doença. Isso significa que nem todos os portadores apresentam todos os sintomas.
Segundo os critérios, eles devem estar presentes por, pelo menos um mês, para
que possa diagnosticar a esquizofrenia.
Os principais são os seguintes:
Delírios-crenças, idéias ou pensamentos falsos que não correspondem à realidade.
O portador acredita neles e não se convence do contrário. Os temas são variados
e implausíveis. Alguns doentes acham que estão sendo vigiados ou perseguidos
por pessoas, pela polícia, máfia ou outra organização secreta; outros acham
que os vizinhos estão vigiando por meio de câmeras escondidas ou telefones "grampeados
". Suspeitas relacionadas a TV, rádios ou computadores são experiências muito
comuns.
Alucinações
- variam de pessoa para pessoa; as auditivas são mais comuns . O doente diz
que está "ouvindo vozes " de pessoas quando não há ninguém por perto. As vozes
dão ordem ou falam que estão fazendo.
Alterações
de pensamento - perda da sequência lógica do pensamento, levando uma desorganização
que provoca uma conversa sem nexo. Os doentes acreditam que o pensamento é roubado
de sua mente ou que foi colocado por outra pessoa em sua cabeça.
Alterações
de afetividade - registra-se uma diminuição na capacidade de expressar emoções;
sua mímica fica empobrecida e a afetividade pueril.
Diminuição
da motivação - ocorre uma diminuição da vontade , havendo
apatia , desânimo ou desinteresse . O portador torna-se isolado e retraído socialmente.
Sintomas motores
- movimentos lentos e sem espontaneidades. Alguns doentes permanecem longo tempo
em posturas estranhas, sem andar ou falar.
Mutismo - a pessoa
passa a viver dentro de um mundo próprio , fantasioso; torna-se "desligada "
.
Ambivalência -
paciente mostra-se dividido entre dois sentimentos ou vontades opostas,
que acontecem simultaneamente.
Auto-referência
- o portador está sempre desconfiado ou suspeito dos que rodeiam achando que
o estão observando ou prejudicando.
Alterações
da cognição - os portadores apresentam dificuldade para concentrar.
Isso pode ocorrer em diferentes situações como, por exemplo, ao assistir um
programa de televisão quando perdem o fio da meada e não conseguem acompanhar
o que está acontecendo. Demonstram também dificuldades para ficar atentos e
memorizar o que estão observando.
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