Depressão x tristeza
A diferença entre a tristeza e depressão
Isso passa, é só uma fase.
É bom que passe mesmo. A tristeza é um sentimento momentâneo, considerado saudável
e até importante pelos médicos. Ajuda na elaboração das perdas, ou sofrimentos
ocasionais. As pessoas atingidas pela ocorrência de perdas, do emprego ou de
entes queridos, atravessam uma fase de sofrimento e angústia, que pode se prolongar
por um determinado período de tempo (cerca de 2 meses), mas esse quadro vai
se atenuando e paulatinamente a vida vai retomando o ritmo normal.
Agora, se a tristeza não
passa, e começam a surgir sentimentos de apatia, indiferença, desesperança,
falta de perspectivas ou prazer pela vida, saiba que esse é um sintoma claro
de depressão. Os sintomas podem aparecer ou desaparecer de maneira sutil e quase
imperceptível, mas é importante saber que eles podem voltar e depressão é doença
séria e assim deve ser tratada. A depressão é uma doença recorrente e crônica.
Pesquisas da OMS revelam
que os indivíduos que vivem um episódio depressivo, têm 50% de probabilidade
de Ter o segundo. Para os que passam por um segundo episódio, a probabilidade
de Ter um terceiro aumenta para 75%, e quem chegou ao terceiro, corre o risco
90% maior de sofrer uma Quarta crise depressiva. Calcula-se que cerca de 20%
da população mundial enfrentará esse problema em um dado momento da vida. A
doença atinge crianças, adolescentes e adultos, sendo verificada uma incidência
duas vezes maior em mulheres na faixa dos 20 aos 40 anos.
Pode ser leve, moderada ou grave
A depressão encontra-se
classificada no Grupo das Doenças Afetivas, ou seja, aquelas que
tem uma evolução cíclica, em que se alternam períodos depressivos com fases
de absoluta sanidade. Ao contrário do que se possa pensar, essa não é uma doença
moderna. Hipócrates, considerado o pai da Medicina, descreveu seis doenças mentais,
dentre elas a depressão, há aproximadamente 400 AC. Os sintomas podem se manifestar
de uma forma branda, e é comum o paciente procurar um clínico-geral, acreditando
estar com falta de vitaminas ou alguma doença mais grave.
Outros, simplesmente acreditam
ser apenas mais uma "fase ruis" e não procuram ajuda, agravando ainda mais o
problema. Indivíduos apresentando quadros leves, raramente procuram tratamento.
É comum o paciente ser
conduzido ao médico por familiares, contra a sua vontade. A pessoa alega estar
se sentindo bem, mas a família percebe que ela apresenta comportamentos estranhos
não compatíveis com os usuais. Para classificar a depressão, é importante, observar
a intensidade dos sintomas. A caracterização desse distúrbio psíquico se dá
pela ocorrência de pelo menos cinco deles num prazo mínimo de duas semanas:
ansiedade, diminuição da libido, dificuldade de concentração, fadiga constante,
sensação de desânimo, inquietação e irritabilidade, perda ou excesso de apetite,
insônia ou sonolência excessiva, tristeza persistente, perda de interesse por
atividades prazerosas, sentimentos de culpa, auto-desvalorização e pessimismo,
idéias de morte ou de suicídio e ainda dores de cabeça ou distúrbios digestivos
que não respondem a tratamento. Sintomas isolados, ou mesmo conjuntos de sintomas
devem ser examinados cuidadosamente para se evitar a realização de diagnósticos
imprecisos ou questionáveis. Existem casos de dores crônicas, em que o paciente,
após inúmeros exames que se mostram normais, melhora com o tratamento antidepressivo
adequado.
As várias causas da doença
Os vários fatores que podem
desencadear uma doença afetiva ainda são um mistério para a medicina. A tentativa
de descobrir o que desencadeia a depressão, cientistas se empenham em desvendar
as possíveis implicações genéticas, a estrutura cerebral, e a relação entre
os mecanismos químicos do cérebro com as alterações psíquicas decorrentes de
perdas. Na década de 60, os pesquisadores acreditavam que o problema estaria
na falta de neurotransmissores no cérebro de pessoas deprimidas. Sabe-se que
algumas substâncias químicas que permitem a comunicação celular no cérebro (neurotransmissores),
como a serotonina, a dopamina e a noradrenalina, são responsáveis por uma espécie
de regulagem das emoções.
Os antidepressivos foram
criados para repor a falta dessas substâncias, mas os cientistas perceberam
que mesmo que o medicamento aumente os níveis dessas substâncias pouco tempo
após ser ingerido, só começa a fazer efeito, na maioria dos casos, após duas
semanas de uso. A causa da depressão não seria então decorrente apenas da falta
de neurotransmissores, mas também de um desajuste na comunicação das células
nervosas e esse tempo de suas semanas seria necessário para um acerto no sistema
que envolve os neurotransmissores. Uma outra possibilidade seria a determinação
genética, através de transmissão hereditária e estaria ligada ao cromossomo
X. os homens possuem somente um desses cromossomos, já as mulheres tem dois,
portanto, teriam duas vezes mais chances de ficar deprimidas, o que justificaria
o alto índice da doença no meio feminino. Estudos mostram que se um dos pais
apresenta o distúrbio, há 27% de possibilidade de que algum de seus filhos venha
a apresentar a doença, esse numero sobe para entre 50% e 75%, quando ambos os
pais apresentam o problema. Doenças cardiovasculares, disfunções hormonais e
da tireóide, distúrbios neurológicos e principalmente o câncer, também podem
desencadear crises depressivas, mas tratada a doença de base, a depressão desaparece.
Cientistas pesquisam também a relação da doença com alterações metabólicas e
estruturais do cérebro. Os deprimidos apresentam uma discreta diminuição de
fluxo sangüíneo no cérebro e uma redução (4%) nos lobos frontais e nas estruturas
subcorticais. Por último, mas não menos importante, estão os fatores psicossociais
que não podem ser descartados. As perdas dos pais na infância, do cônjuge, ou
mesmo do emprego na idade adulta, as traições (perdas de confiança), provocam
alterações psíquicas que podem desencadear a doença.
As doenças afetivas
O conceito atual de doenças
afetivas, substituiu o antigo nome Psicose Maníaco-Depressiva (PMD), definida
por Kraepelin, o pai da moderna psiquiatria. O novo conceito define as Doenças
Afetivas como tendo uma evolução fásica, ou seja, alterna fases de doença com
fases de sanidade. As fases da doença foram definidas como Fade Maníaca e Fase
Depressiva. A principal divisão encontra-se entre Depressão e Distúrbio Afetivo
Bipolar. A Depressão (Sinônimo de Episódio Depressivo Maior) é a manifestação
de uma Fase Depressiva, presente tanto na Doença Afetiva Bipolar, como também
na Depressão Unipolar. A Depressão Unipolar é duas vezes mais frequente que
a Depressão Bipolar. "Na prática clínica cotidiana é frequente encontrarmos
pacientes que, além de apresentarem um quadro de Depressão, apresentam também
outros Distúrbios Psiquiátricos, como Distúrbios de Ansiedade, uso de drogas
ou álcool, Anorexia Nervosa, ou ainda Distúrbios Clínicos, como por exemplo
insuficiências glandulares, doenças neurológicas, doenças cardíacas e também
alguns medicamentos usados no combate à hipertensão ou antiinflamatórios ou
podem precipitar o aparecimento da depressão em indivíduos predipostos"comenta
o Dr. Táki Cordás, Mestre em Psiquiatria pela Faculdade de Medicina da USP.
Como durante a menopausa acontecem grandes transformações na vida da mulher,
algumas físicas como o desconforto (calor e sudorese) provocado pelas alterações
hormonais, outras sociais como a independência dos filhos, indefinição profissional
ou eventuais separações, é comum que ela procure seu clínico reclamando dessa
sensação de vazio, de estar deprimida. Pode acontecer, e é até comum uma superposição
de quadros (menopausa/depressão), neste período, mas isoladamente, a menopausa
não pode ser considerada sinônimo ou causa da depressão. A depressão pós-parto
é um período de transição e readaptação fisiológica, posto que o organismo,
bem como o funcionamento do cérebro, se modificam durante a gravidez principalmente
pelas alterações hormonais. O tipo mais comum de depressão pós-parto é chamado
de blues e costuma durar até 3 dias após o parto, então desaparece qyase que
imediatamente, não necessitando de tratamento específico. Na Depressão Puerperal
Grave, a mulher não consegue manter seus cuidados básicos de alimentação e higiene,
ou mesmo cuidar do bebê, mas na maioria das vezes a paciente e a família confundem
esse quadro de apatia incomum com uma adaptação psicológica normal à chegada
do filho. O tratamento que deveria ser instituído imediatamente, só começa tempos
depois, com a piora progressiva do quadro. Essa depressão não oferece riscos
ao recém-nascido, mas a amamentação deve ser suspensa quando a mãe passar a
receber a medicação adequada.
Tratamento
O tratamento da depressão
é estabelecido em função dos sintomas apresentados e da intensidade do quadro.
A depressão pode evoluir como uma doença única ou Ter várias fases. Algumas
pessoas têm vários episódios depressivos ao longo da vida. "Na realidade, os
limites entre a depressão leve, moderada ou grave, são arbitrários. Considera-se
depressão leve ou moderada, quando o paciente consegue executar algumas ou mesmo
todas as suas atividades pessoais, mas para isso precisa fazer um esforço muito
maior que o normal. Já nos quadros depressivos graves o indivíduo não consegue
se alimentar, manter seus cuidados pessoais, a deterioração é progressiva, podendo
levar à morte". Explica o Dr. Cordás. O tratamento ideal é inicialmente farmacológico,
mas de uma maneira geral, associado à medicação recomenda-se o acompanhamento
psiquiátrico que além de fazer com que o paciente se sinta mais forte, ameniza
a rejeição ao tratamento químico que pode durar anos.
Os antidepressivos se mostram
eficazes em 75% a 90% dos casos, e a eficiência de todos é muito parecida, o
que muda são os efeitos colaterais, quem escolhe a melhor opção para cada caso
é o especialista. Os gripos de antidepressivos mais conhecidos e mais utilizados
são os tricíclicos (imipramina), ininbidores seletivos da recaptação de serotonina
(paroxetina, fluoxetina, sertralina), inibidores de recaptação de noradrenalina
e serotonina (venlafaxina) e inibidores irreversíveis da monoamina-oxidase/IMAO
(tranilcipromina). Na maior parte das ocorrências, depois de encontrar o remédio
certo, os sintomas desaprecem em um ou dois meses, mas a medicação deve ser
mantida por pelo menos seis meses, isto num caso de primeiro episódio depressivo.
Essa frequência tende a aumentar com a ocorrência de novos episódios, alguns
critérios sugerem que a partir da ocorrência do terceiro episódio esta manutenção
se prolongue por toda a vida.
Recomendações
Medicamento antidepressivo
não é produto cosmético, a ilusão da pílula da felicidade foi criada pela mídia.
Isso é péssimo, pois alguns tomam o remédio sem necessidade, mas o pior são
aqueles que tomam o medicamento para mascarar graves problemas pessoais. Remédio
de depressão não vicia. Algumas pessoas abandonam o tratamento, assim que desaparecem
os sintomas, com medo de se tornarem dependentes do medicamento. Essa é uma
atitude altamente prejudicial ao próprio paciente.
Consultoria:
Dr. Táki Athanássios Cordás Diretor médico da Unidade, médico psiquiatra,
Assistente do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade
de Medicina da USP. Mestre em Psiquiatria pelo Depto. De Psiquiatria da Faculdade
de Medicina da USP.
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