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Consultas terapêuticas conjuntas pais-filhos

Consultas Terapêuticas Conjuntas Pais-Filhos pretende nomear uma abordagem psicológica inspirada no modelo de Observação, método Esther Bick, aplicada em contexto clínico, com o intuito de avaliar, com a participação de todo o grupo familiar, “situações problema” que motivaram a procura do especialista, e então de promover comunicação e compreensão entre seus membros.

Entendemos, após 30 anos de clínica psicanalítica da infância e adolescência que a avaliação diagnóstica que inclua a observação do grupo familiar nos dá acesso a interações existentes e presentes entre os seus membros, que completam as narrativas dos pais, durante as entrevistas diagnósticas. Ao usar essa abordagem, pode-se promover participação e responsabilidade de todos os membros nas “situações problema”.

Nesta abordagem o foco para intervir é a interação dos pais em suas funções materna e paterna para com os filhos.

As interações que vão surgindo durante o encontro, (expressas em quaisquer formas de comunicação, palavra, gestos, olhares, etc) mostra a história do grupo familiar e o papel que cada um nele exerce, às vistas do terapeuta, forma imediata e verdadeira, propiciando excelentes oportunidades de diagnóstico e possibilitando, até em alguns casos, sua intervenção. História e lugar que falam de relações conflitivas que se repetem pela impossibilidade de encontrar soluções, pela impossibilidade de pensá-las.

O terapeuta, ao receber a família pela primeira vez, informará do propósito dos primeiros encontros que é o de avaliar as situações-problema, e o fará com a participação livre de todos.

Quando houver crianças no grupo, colocam-se alguns brinquedos e material de desenho para que elas possam se expressar de acordo com sua capacidade etária.

No início do trabalho o terapeuta procurará se manter o quanto possível, em atitude de observação: escutando e observando as interações dos participantes e procurando manter um clima suficientemente tolerável para que a comunicação aconteça. Irá intervir quando for necessário modular ansiedades, no decorrer do encontro, que possam ser disruptivas e impedir a continuidade da sessão.

A seguir uma vinheta de um caso atendido por Consultas Terapêuticas Conjuntas Pais-Filhos.

A Família A, está preocupada com o 2º filho (A) de 4 anos, e 8 meses.

Apresenta trejeitos femininos e escolhe coisas femininas: sapatos de salto, objetos cor de rosa, amarra panos na cabeça para serem cabelos longos etc. O irmão de 9 anos, nasceu após várias anos de casados e se seguiram abortos espontâneos, um dos quais era uma menina.
Enquanto os pais falam A pede ao pai para fazer um determinado bicho cor de rosa, o pai desenha mas A briga e chora porque a cabeça não ficou como ele queria, e vai até a mãe buscando colo. Esta se mostra incomodada pela invasão física do filho e para afastá-lo sugere que busque uns brinquedos que estão expostos na mesa ao lado.
O irmão faz um desenho e A o quer para ele mas o irmão não dá e A volta a choramingar. Busca um novo brinquedo pela sala enquanto os pais conversam até que ele se instala no colo da mãe como se estivesse sendo amamentado, para em seguida mordê-la. A mãe desculpa-se dizendo: “ele fez isto por estar aqui”, referindo-se ao horário de avaliação. Ao que informo que durante este horário há lugar para tais manifestações. Ao terminar a consulta A sai no colo do pai chorando.

Pareceu-nos ser A um menino infeliz, incapaz de brincar e buscando um lugar junto aos pais, à mãe principalmente, para ser acolhido em suas frustrações.

A mãe, após algumas consultas diz ter percebido ser bastante racional e rígida com os filhos. De fato considero que ao tentar aplacar os comportamentos indesejados (birra, choro, etc) distraindo, criando novo foco de atenção a criança sente-se desconsiderada em seus sentimentos, não compreendida e não acolhida.

Na consulta seguinte A vem arrastado pela mão do pai chorando porque quer chocolate. No colo do pai chora mais de 10 minutos, enquanto a mãe e o irmão se entretém jogando. Após 15 minutos a mãe resolve ir até A e levá-lo no colo para o divã coisa que A aceita satisfeito, parando de chorar. Mostro como a mãe conseguiu acalmar A dando-lhe acolhida e compreensão e que deve aumentar sua confiança em ser capaz de lidar com os sentimentos de seu filho.

Essas consultas terapêuticas conjuntas (foram 10 ao todo) ajudaram os pais a firmar sua função para com os filhos, e isto refletiu beneficamente na relação entre eles, criando um clima familiar mais propicio para o desenvolvimento emocional das crianças.

Porém A, apresentava um distúrbio de identidade que remontava às primeiras identificações com os modelos parentais.

Nesse sentido ele enfrentava suas ansiedades rompendo o contato com a realidade “vestindo” uma identidade sexual que não a sua.

Essa relação frágil com a realidade precisava ser reforçada e somente um trabalho analítico individual poderia ajudar. Foi sugerido então análise para A.

Fonte: Marisa Pelella Mélega
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