O
ronco é um dos mais prevalentes hábitos humanos
desde priscas eras. Na realidade, é um termo leigo
utilizado para exprimir determinado grau de obstrução
respiratória que ocorre durante o sono, surgindo
em diversos distúrbios clínicos. Alguns ditos
antigos relatam que o "homem primitivo defendia suas
mulheres, mesmo durante a noite, fazendo ruídos terríveis
que mantinham afastadas as bestas". Também antiga
era a idéia de se colocar um bloco de mármore
sob as costas do roncador para forçá-lo a
dormir de lado, já que o ronco é frequentemente
pior quando a pessoa dorme em posição supina.
O interessante é que a maioria dos animais não
ronca, talvez porque não durma sobre suas costas.
Recentemente, houve maior interesse médico nos processos
que poderiam desencadear seu aparecimento e a sua consequência
mais grave, a apnéia do sono. Verificou-se, então,
que na população entre 30 e 35 anos acometia
20% dos homens e 5% das mulheres, enquanto por volta dos
60 anos, esta incidência atingia 60% dos homens e
40% das mulheres. O ronco é três vezes mais
comum em obesos do que em magros. Os sons do ronco se originam
na parte colabável da via aérea onde não
há suporte rígido, isto é, da epiglote
até a coana. As estruturas envolvidas são
o palato mole, úvula, as amígdalas palatinas,
os pilares amigdalianos, a base da língua, os músculos
faríngeos e toda a mucosa de revestimento. O estágio
mais avançado do ronco é a apnéia (apnéia
vem do grego e significa negação de respiração)
obstrutiva do sono, que causa problemas cardíacos,
pulmonares e comportamentais, graves.
Enquanto o
ronco expressa obstrução parcial da via aérea,
apnéia significa obstrução total. A
descrição de Charles Dickens do menino obeso,
sonolento, no livro The Pickwick Papers é um quadro
clássico. William Osler também notou a associação
de obesidade e hipersonolência quando descreveu, em
1918, a síndrome obesidade-hipoventilação
ou síndrome de Pickwick. Mas foi apenas em 1973 que
Guilleminault descreveu a Síndrome de Apnéia
obstrutiva do Sono (SAOS) e daí para cá mais
e mais estudos foram e estão sendo realizados.
O aparecimento
do ronco e da SAOS obedece a três tipos de comportamento
respiratório noturno, geralmente sequenciais e evolutivos:
respiração inadequada, ronco e SAOS. A SAOS
ocorre em 4% a 9% dos homens adultos e em 1% a 2% das mulheres.
Nos indivíduos com obesidade mórbida, estas
taxas aumentam em 12 a 30 vezes. A fisiopatologia do ronco
e da SAOS é complexa e não conhecida totalmente.
A síndrome inclui ronco, sonolência diurna,
fadiga matinal, cefaléia e sono não reparador.
As causas que levam ao ronco são numerosas e, muitas
vezes, entram em jogo vários fatores etiológicos,
tais como: (a) tônus muscular incompetente da musculatura
local (hipotireoidismo, distúrbios neuromusculares
degenerativos centrais, efeito de sedativos, tranquilizantes,
anti-histamínicos, antieméticos, álcool
e relaxamento pós-prandial; é a causa mais
comum do ronco iniciado na fase adulta; (b) colapso do tecido
mole sobre as vias aéreas (hiperplasia amigdalina,
dobras mucosas excessivas e acúmulo de gordura submucosa);
(c) comprimento excessivo do palato mole e da úvula
ou redundância da mucosa, com subsequente estreitamento
do orifício nasofaríngeo; (d) obstrução
nasal (desvios septais, rinites alérgicas, hipertrofia
adenóidea e outras causas): a respiração
oral altera a mecânica pulmonar, os gases sanguineos
e aumenta a resistência da via aérea superior
com subsequente limitação do fluxo de ar,
fazendo surgir o ronco. A análise acústica
do som do ronco mostra que ele é mais alto quando
a obstrução principal está na base
da língua, depois na laringe e, por fim, no palato
mole. Quanto à transição do ronco para
SAOS, pouco se conhece. O fato do ronco e da SAOS só
ocorrerem durante o sono significa que o funcionamento efetivo
neuromuscular da via aérea superior é vital
para a manutenção de uma respiração
livre.
A história
característica é a da esposa que leva seu
marido ao médico porque já não suporta
seus roncos e, durante a anamnese, constata-se, geralmente,
sonolência diurna e episódios apnéicos
durante o sono. Muitas vezes, há um histórico
de vários acidentes automobilísticos, provavelmente
provocados pela hipersonolência. A velhice é
acompanhada de notável perda do tônus da via
aérea superior, daí a alta incidência
de roncos nos idosos. Os roncadores pesados são mais
propensos a serem hipertensos e a desenvolverem angina do
peito do que os não roncadores de idade e peso similares.
No exame físico,
verifica-se que grande número dos pacientes está
acima de seu peso ideal e uma quantidade significativa deles
tem pescoço curto e grosso, com tecido cervical em
excesso. Além disso, a hipertensão arterial
essencial está presente em 30% a 50% dos casos. Todos
os pacientes devem ser submetidos ao exame otorrinolaringológico
completo. Na orofaringe, os achados clássicos incluem
redundância (excesso) da mucosa local e do palato,
mucosa esta que se apresenta espessada e avermelhada, coexistindo
com um reflexo nauseoso exacerbado. Um artifício
usado para se ter uma idéia do nível sonoro
do ronco e da existência ou não de episódios
apnéicos é registrá-lo por meio de
um gravador portátil, colocado junto à cama
do paciente. Uma vez que se suspeite da existência
de apnéia, deve-se realizar um estudo polissonográfico.
A polissonografia registra simultaneamente o eletroencefalograma
com movimentos oculares (para determinar o estágio
do sono), os movimentos respiratórios do nariz e
boca, movimentos respiratórios torácicos e
abdominais, o eletromiograma da musculatura do queixo, oximetria
para determinar o nível de saturação
sanguínea de oxigênio (oximetria de pulso),
o eletrocardiograma para a detecção de alterações
do ritmo cardíaco (V2 modificada) e outros par6ametros
que se façam necessários (movimentos dos pés
para a verificação da exist6encia de mioclonia
noturna, tumescência peniana no estudo da impotência
e o som do ronco). Este exame permite fazer a diferenciação
entre a apnéia dos tipos central, obstrutiva ou mista.
Define-se, atualmente, o episódio apnéico
"como a cessação do fluxo aéreo
pelas narinas e boca põe pelo menos dez segundos.
A "hipopnéia" seria a redução
do fluxo áereo nasoral e do esforço respiratório
toracoabdominal a menos de um terço do nível
de volume nasal. A apnéia obstrutiva seria a ausência
de fluxo aéreo no nariz e na boca, apesar da presença
de esforços respiratórios evidentes. É
causada por estreitamento estrutural da via aérea
superior, que se torna manifesto quando o tônus muscular
diminui durante o sono. No caso de apnéia central,
a via aérea do paciente é normal, mas o fluxo
aéreo está ausente pela inexistência
de esforço respiratório. É causada
por um distúrbio neurológico no controle da
respiração, como na poliomielite bulbar, doenças
neurológicas degenerativas, neoplasias intracranianas,
infartos do tronco cerebral ou superdosagens de narcóticos
ou sedativos. A apnéia mista seria uma combinação
de ambos os tipos, iniciando-se com uma apnéia central
seguida pelo início de esforço inspiratório
sem fluxo aéreo.
Como abordagem
terapêutica inicial, a redução dos fatores
de risco é extremamente importante. No caso de indivíduos
obesos, a redução do peso é essencial,
pois o aumento do volume pulmonar pode ter um efeito favorável
no tamanho da luz faríngea. A consequente redução
na resistência faríngea minimiza a geração
de pressão negativa intraluminal e, portanto, diminui
a tendência para colapso da via aérea. A dessaturação
noturna de oxigênio pode, então, melhorar.
A maioria dos pacientes tem dificuldades em manter seus
resultados a médio prazo apenas com medidas dietéticas,
mas, para o paciente motivado e dedicado isto pode curar
seu distúrbio. A posição de dormir
também é importante, já que a postura
supina facilita a queda da língua contra a parede
posterior da orofaringe pela ação da gravidade.
Alguns autores preconizam a utilização de
um bolso nas costas do pijama, na altura da gola, nele contendo
uma pequena bola. A sua função seria a de
provocar desconforto toda a vez que o indivíduo adotasse
a posição supina durante o sono, mudando,
com isso, de postura. As refeições copiosas,
bem como o álcool e a cafeína, devem ser evitados
antes de dormir. Trabalhos experimentais sugerem que o álcool
precipita e agrava a respiração desordenada
do sono, deprimindo a atividade do nervo hipoglosso, que
enerva os músculos dilatadores da via respiratória
superior, estabilizando a faringe. Os benzodiazepínicos,
bem como outros sedativos e hipnóticos têm
uma atividade semelhante, além de deprimirem o aparecimento
de resposta à hipoxia e hipercapnia durante o sono.
Com relação ainda à ação
de drogas, nos casos de roncos acompanhados de apnéia
leve, pode-se utilizar a protriptilina, antidepressivo tricíclico
não sedante, que encurta o tempo de sono REM, período
no qual o tônus faríngeo é menor, com
maior tendência ao colabamento. Os resultados são
variáveis, mas parece haver alguma melhora. Muitos
pacientes têm dificuldade em manter a medicação
devido a seus efeitos colaterais anticolinérgicos:
secura da boca, dificuldade de micção, constipação,
diminuição da libido, rash cutâneo,
confusão, ataxia e perda de cabelo. De caráter
anedótico é relatada a prescrição
de altas doses de cafeína à noite para o paciente,
de tal forma que seu cônjugue possa dormir primeiro,
não sentindo, portanto, os efeitos deletérios
dos roncos do parceiro.
Outra solução
encontrada são os retratores da língua, aparelhos
feitos por dentistas cuja função é
aumentar a permeabilidade faríngea puxando a língua
para a frente, longe da parede posterior da faringe. Alguns
pacientes resolvem o problema com este método, mas
a maioria acha extremamente incômoda a utilização
da prótese durante o sono e a abandonam.
Nos casos mais
graves está indicada a utilização do
chamado CPAP, abreviatura para continuous positive airway
pressure, ou seja, um aparelho que estabelece um fluxo aéreo
contínuo numa determinada pressão; esta pressão
age como um dilatador pneumático abrindo passivamente
a via aérea para evitar os episódios obstrutivos.
Normalmente, a pressão da via aérea varia
entre 7 e 15cm H2O e se determina a pressão de ajuste
do aparelho necessária para cada paciente quando
se realiza a polissonografia. Como o CPAP requer a aplicação
de uma máscara sobre o nariz conectada ao aparelho,
muitos também se queixam de grande desconforto, porém
podem ser condicionados a seu uso com treinamento.
O tratamento
cirúrgico visa principalmente o benefício
do ronco. Pouca ou nenhuma melhora proporciona sobre a apnéia.
Ressalta-se que a cirurgia só deve ser pensada após
fracasso de todas as formas clínicas de tratamento.
É imperioso que se estabeleça o sítio
principal do ronco, sem o que não poderá haver
qualquer indicação cirúrgica. A forma
mais comum é a cirurgia da obstrução
nasal, para corrigir desvios septais e alterações
estruturais das conchas nasais. Como exemplo, é possível
citar a criança com hipertrofia adenóidea,
cuja sintomatologia desaparece após a adenoidectomia.
A uvulopalatofaringoplastia, também conhecida como
uvulopalatoplastia e cirurgia do ronco, está indicada
quando houver excessivo tecido mole redundante no palato,
úvula e orofaringe, podendo incluir ou não
a exérese das amígdalas palatinas, mormente
quando hipertrofiadas. Na média, apenas 5% dos pacientes
adultos roncadores têm indicação cirúrgica.
Na previsão do sucesso da intervenção
são levados em consideração idade,
sexo, ronco, aspecto faríngeo, manobra de Müller,
episódios apnéicos e o peso do indivíduo.
Ás vezes, é necessário mais de um tempo
cirúrgico, pois é difícil precisar
quanto tirar de tecido redundante para se obter um bom resultado.
A indicação ótima desta operação
são os pacientes que apresentam obstrução
retropalatal. De qualquer forma, todos eles sempre têm
alguma melhora, sendo fatores de melhor prognóstico
a existência simultânea de hipertrofia adenoamigdaliana
ou de lesão obstrutiva intranasal com indicação
cirúrgica. Observa-se pior prognóstico quando
existe obesidade, ronco e SAOS antigos, obstrução
hipofaríngea e doenças neuro-musculares concomitantes.
A traqueotomia definitiva é a única que garante
resultado permanente, gerando, porém, problemas sociais
e físicos, estando somente indicada em casos extremos
e com doenças cardiovasculares associadas, com a
não aceitação do CPAP e na ausência
de condições para a realização
de outras operações.
A avaliação
da eficácia dos tratamentos cirúrgicos é
bastante difícil, porque geralmente são operações
combinadas em pacientes diferentes. O tempo de seguimento
é fundamental. A evolução natural do
paciente com o ronco e SAOS sem tratamento torna-o mais
vulnerável a desenvolver complicações
graves como hipertensão arterial, hipertrofia ventricular
direita e esquerda, possibilidade maior de ataque cardíaco
súbito e aumento do risco de infarto cerebral. O
tema, de alta incidência na população,
vem sendo estudado, cada vez mais, com um número
crescente de publicações. Certos hábitos
tradicionais em algumas regiões como a "siesta",
estão sendo sofrendo mudanças. Questiona-se
quantos teriam problemas de ronco e SAOS e parece que há
maior incidência de doenças cardiovasculares
nestes indivíduos. A SAOS é considerada como
problema de saúde pública em diversos países
devido às graves consequências físicas
e sociais e ao grau de morbidade bastante significativo.
Ocorrem casos de separação conjugal pelo fato
de um membro do casal roncar muito alto e não querer
se submeter a tratamento. Nas condições atuais
do conhecimento, consegue sempre melhora no ronco, o que
já é significativo. O maior problema, hoje
em dia, consiste na melhor compreensão da fisiopatologia
e na escolha correta do tratamento, pois quando este último
é conseguido, melhores resultados são obtidos.
A vida sedentária, a obesidade e a poluição,
males do nosso tempo, são fatores que influenciam
sobremaneira a tendência ao aumento da incidência
do ronco e, por conseguinte, das SAOS. Ao mesmo tempo, verifica-se
que estamos passando por um período de transição
no que concerne ao tratamento. Quando fazemos uma análise
das condutas clínicas e operatórias que atualmente
praticamos, verificamos o quanto ainda necessitamos descobrir
para que tenhamos tratamentos verdadeiramente eficazes a
médio e a longo prazos.