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O maior culpado é o cigarro

O tabagismo está associado a 90% dos casos de câncer de pulmão. Abandonar o vício deve ser encarado como um ato de sobrevivência O câncer de pulmão é a neoplasia que mais mata os homens brasileiros. Entre as mulheres do país, só faz menos vítimas fatais do que o tumor de mama. Sua taxa de letalidade é altíssima: 85% dos pacientes morrem. O diagnóstico precoce é dificílimo de ser feito - só ocorre em 15% dos casos. Há três motivos para essa dificuldade. Antes de mais nada, o mal costuma evoluir até um estágio avançado sem fornecer pistas de sua existência. Como os pulmões são órgãos que funcionam bem sem utilizar sua capacidade plena, é preciso que haja um comprometimento muito grande para que eles dêem sinal de que algo está errado. Em segundo lugar, o câncer de pulmão cresce numa velocidade espantosa. Explica-se: rica em vasos sanguíneos, a região oferece ao tumor uma alimentação mais farta. Por último, existe a limitação tecnológica - radiografias e tomografias não conseguem captar nódulos com menos de 1 centímetro de diâmetro. Quando atinge esse tamanho, na maioria dos casos o câncer já é devastador.

Até a década de 30, a doença era rara. Nem sequer aparecia nas estatísticas de mortalidade de países como Estados Unidos e Inglaterra. O aumento no número de casos está diretamente relacionado à explosão do consumo de cigarros a partir da II Guerra. Não há como negar que o fumo é o principal fator para o surgimento desse tipo de câncer. Nove de cada dez vítimas foram ou são fumantes inveterados. A fumaça do cigarro contém cerca de 4.700 substâncias. Dessas, sessenta são consideradas cancerígenas. Depois de uma tragada, uma parte dos elementos tóxicos é absorvida pelas mucosas da boca e da garganta (o que eleva a probabilidade de tumores nesses locais), enquanto a outra é despejada nos pulmões. As substâncias perigosas do tabaco acumulam-se nos brônquios e nos alvéolos. Entre vários problemas, esse acúmulo causa mutações genéticas nas células pulmonares, o que pode levar ao câncer.

Quanto mais cigarros uma pessoa queima, maior a probabilidade de ela desenvolver o mal. Mas é um equívoco pensar que fumar pouco é um seguro-saúde. As estatísticas mostram que o consumo de uma a nove unidades por dia aumenta o risco de morte por câncer de pulmão em quatro vezes em relação ao não-fumante. As pesquisas apontam ainda que, quanto mais cedo se começa a tragar, pior. A ação danosa do cigarro sobre o organismo é prolongada. São necessários quinze anos para que um ex-fumante volte ao patamar de risco de doenças cardiovasculares de um não-fumante. Isso mesmo: quinze anos. Por essa razão, os médicos acreditam que largar o vício deve ser encarado pelos adeptos do fumacê como uma medida urgente de sobrevivência.

Não é fácil. Deixar de fumar traz sintomas quase tão angustiantes quanto os experimentados por quem tenta se livrar da dependência de álcool e drogas pesadas. Entre eles, estão irritabilidade, falta de concentração, nervosismo, dores de cabeça, náuseas e depressão. A certeza que se vai esculpindo é a de que abandonar o cigarro, na imensa maioria das vezes, é um ato de vontade que precisa de assistência médica. Um levantamento realizado pelo Hospital das Clínicas, em São Paulo, revela que apenas 2% das pessoas que largam o vício conseguem fazê-lo sem tratamento. A terapêutica padrão dura de oito a doze semanas, período em que os problemas acarretados pela abstinência são mais acentuados. O paciente recebe doses de nicotina administradas por meio de adesivos que introduzem a substância através da pele. As doses vão sendo diminuídas progressivamente até que o candidato a ex-fumante consiga ficar sem elas. Melhores resultados são obtidos quando a esse procedimento é associado o uso de um antidepressivo à base de bupropiona, substância que age nas regiões cerebrais afetadas pela nicotina. O remédio não causa dependência, mas pode apresentar efeitos colaterais, como insônia.

No plano das terapias alternativas, recorre-se com freqüência à acupuntura. Aplicadas em pontos específicos do corpo, as agulhas chinesas aliviariam a ansiedade causada pela falta do cigarro. O tratamento, em geral, dura de um a três meses, com duas a três sessões por semana. Existe também a auriculoterapia, uma técnica francesa praticada no Brasil há cerca de vinte anos. Um ponto cirúrgico é dado numa das orelhas do fumante, o que estimularia a produção de endorfinas e, conseqüentemente, reduziria os sintomas da abstinência. Com idêntico objetivo, muitos se submetem a aplicações de laser em pontos localizados na orelha, nos braços e no tórax. A literatura médica, no entanto, já provou que a acupuntura, a auriculoterapia e o laser têm o efeito de placebos. Ou seja, mais sugestionam psicologicamente do que atuam no metabolismo. Tudo bem, o que importa é lutar contra o vício. E ter sempre em mente outro número sinistro, divulgado pela Associação Médica Britânica: em média, o fumante que morre de câncer de pulmão poderia ter vivido mais 22 anos.


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