As especulações sobre a
possibilidade de o gado brasileiro ter a doença da vaca louca geraram inquietação
entre os consumidores. Na tentativa de tranqüilizar os brasileiros, muita gente
partiu para o contra-ataque, sustentando a posição de que, pelo menos desse
mal, o País estaria livre. O argumento é o de que, por aqui, não existiriam
animais infectados. "Não há chance de o nosso rebanho estar contaminado", garante
Pedro de Camargo Neto, presidente do Fundo de Desenvolvimento da Pecuária, de
São Paulo. Na quarta-feira 7, foi a vez de o ministro José Serra ir a público
para tentar dissipar temores. Ele assegurou não haver registros de vítimas humanas
por aqui.Mas ainda é cedo para chegar a conclusões tão categóricas. Nem mesmo
a ciência conseguiu elucidar alguns mistérios a respeito da natureza do mal.
Ele continua intrigando os pesquisadores.
O que se sabe sobre sua
origem é que a doença foi transmitida às vacas por meio de ração feita de partes
de carneiros. Esses animais, por sua vez, estavam infectados por uma versão
modificada de uma proteína chamada príon. Presente no corpo dos carneiros e
nos seres humanos, por enquanto ela ainda não teve a sua função desvendada.
Porém, quando está alterada - por motivos também não totalmente esclarecidos
-, ela atinge o cérebro, causando degeneração das células locais. Nesse ataque,
forma buracos no órgão parecidos com os de uma esponja. Por isso, a doença recebe
o nome científico de encefalopatia espongiforme. O resultado é que as funções
cerebrais são comprometidas. Entre outros problemas, o gado perde o equilíbrio
e fica enfurecido.
Os sintomas demoram cerca
de um ano para aparecer. Depois das primeiras manifestações, no entanto, os
animais morrem em pouco tempo. Transmissão - O caminho pelo qual a doença chegou
ao ser humano, entretanto, ainda gera dúvidas. Há quem suspeite que o mal não
tenha sido transmitido por meio da ingestão de carne bovina contaminada pela
proteína. A alegação é a de que, se isso fosse verdade, haveria muito mais gente
doente, já que o consumo de carne no mundo é gigantesco. Mas a maioria dos especialistas
acredita na passagem da vaca para o homem porque tem certeza de que o mal é
transmissível.
Uma das referências é o
fato de que, na década de 50, foram registrados casos de aborígenes de uma região
da África que contraíram a doença por meio de rituais canibais. Como a proteína
modificada foi parar lá, contudo, ninguém sabe. Na década de 80, percebeu-se
que o mal era transmitido entre espécies diferentes, como no caso da ração de
carneiro para a vaca. No homem, o mecanismo de ação da proteína transmitida
pela vaca é idêntico ao dos animais. "Como o corpo não elimina essa substância
estranha, ela se acumula nas células, principalmente nos locais com terminações
nervosas, como os ossos, até atingir o cérebro e danificá-lo", define Cícero
Coimbra, neurologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). A doença
se manifesta através de distúrbios psiquiátricos em que predominam idéias delirantes,
agitação e agressividade. Seu desenvolvimento é lento. É mais freqüente em pessoas
com idade em torno de 30 anos e o tempo de incubação pode variar entre 5 e 35
anos.
Texto retirado da revista ISTO É - 14/02/2001 página 71.