Dores de cabeça em mulheres
Você
não precisa ser um especialista para perceber que as mulheres padecem mais de
dores de cabeça do que os homens: "Esta noite não meu bem, estou com dor de
cabeça", é uma brincadeira popular: O elo entre enxaqueca e menstruação foi
registrado pela primeira vez por Hipócrates no século quinto a.C.
Por muitos
séculos, os médicos acreditaram que o útero era a origem das dores de cabeça.
Eles agora sabem que o mecanismo das dores de cabeça hormonais é bem mais complexo.
Um órgão no cérebro, o hipotálamo, coordena um sistema de controle complexo
do ciclo menstrual, mandando mensagens para os ovários e o útero. Parece mais
razoável supor que as dores de cabeça hormonais tenham início dentro do cérebro
do que no útero ou nos ovários.
Dores de cabeça e hormônios
Poucos estudos
observam os efeitos dos hormônios nas dores de cabeça que não são do tipo da
enxaqueca. Porém, estudos com mulheres atendidas na Clínica de Enxaqueca da
Cidade de Londres mostraram que elas são mais propensas a ter dores de cabeça
- não do tipo da enxaqueca - próximo à sua menstruação, mesmo que elas também
tenham enxaqueca.
O sintoma "dor
de cabeça" também faz parte da síndrome pré-menstrual e da menopausa. Algumas
mulheres notam que têm mais dores de cabeça quando elas começam um anticoncepcional
oral. Essas dores normalmente melhoram após alguns meses mas, às vezes, é necessário
trocar o tipo de pílula. Com exceção desses eventos específicos, as mudanças
hormonais têm pouco efeito sobre as dores de cabeça que não são do tipo de enxaqueca.
Enxaquecas menstrual
Num outro
estudo realizado na Clínica de Enxaqueca da Cidade de Londres, 50% das mulheres
achavam que seus ataques de enxaqueca estavam ligados ao seu ciclo menstrual.
Das mulheres questionadas, 15% disseram que tiveram seu primeiro ataque de enxaqueca
no mesmo ano em que tiveram sua primeira menstruação. Mais estudos demonstraram
que, ao atingir seus 35 ou quase 40 anos, a mulher pode notar que os ataques
adotam um padrão mensal.
Às vezes, esse
padrão só se torna aparente quando o ciclo volta depois do nascimento de um
bebê. A partir das nossas pesquisas, descobrimos que cerca de 10% das mulheres
tiveram regularmente ataques de enxaqueca nos dois dias anteriores ao início
da sua menstruação e nos primeiros três dias da menstruação (dias -2 a 3+) e
em nenhum outro dia do mês. Nós definimos isso como a "enxaqueca menstrual".
A enxaqueca menstrual tem sido associada à queda no estrógeno que ocorre naturalmente
durante o ciclo menstrual. Não é preciso fazer um teste para avaliar os hormônios
nessas mulheres uma vez que não há nada de errado; parece que mulheres com enxaqueca
menstrual são apenas mais sensíveis às flutuações hormonais normais.
Embora seja
possível o uso da suplementação de estrógeno para prevenir a queda do mesmo,
estudos mostraram que tal tratamento não é eficaz para todas as mulheres com
enxaqueca menstrual. As pesquisas têm sido dirigidas para outras substâncias
que mudam com o ciclo menstrual, tais como prostaglandinas, que também podem
ter seu papel. Desencadeantes não hormonais da enxaqueca também são importantes
na enxaqueca menstrual. Estudos demonstraram que a mudança dos níveis hormonais
também afeta outros desencadeantes da enxaqueca; por exemplo, mulheres são mais
suscetíveis aos efeitos do álcool e de refeições perdidas próximas as suas menstruações.
Auto-ajuda para mulheres
Se você suspeita
de uma ligação entre sua menstruação e os ataques de enxaqueca, a primeira coisa
a fazer é um manter um diário. Isso ajuda a estabelecer a relação exata do aparecimento
dos ataques e as diferentes etapas do ciclo menstrual. Anote qualquer sintoma
pré-menstrual como fissura por doces, dor nos seios, etc., bem como registre
detalhadamente os ataques de enxaqueca e as menstruações.
Para cada
ataque, anote o horário de início, quanto tempo durou e quais os sintomas que
você teve. Anote também qual foi o tratamento usado, a que horas você o tomou
e quão efetivo ele foi. Mencione se a menstruação foi particularmente dolorosa
ou pesada. Mantenha também um registro de qualquer desencadeante não hormonal
que possa ter sido responsável. Após alguns meses, olhe outra vez para os registros
e veja se você consegue estabelecer algum padrão. Dê atenção aos desencadeantes
da enxaqueca que não são hormonais, uma vez que evitá-los antes da menstruação
pode ser suficiente para prevenir o que acontece com um ataque associado a hormônios,
i.e., tome cuidado para não ficar exausta e, se necessário, não beba álcool
e coma lanches pequenos e freqüentes para manter os níveis de açúcar no sangue
para cima pois perder refeições ou ficar muito tempo sem comida pode desencadear
ataques.
Tratar de
outros sintomas pré-menstruais também pode ajudar e talvez seja interessante
tentar suplementos de vitamina B6 ou óleo de prímula noturna, que estão disponíveis
na farmácia. Procure seu médico para aconselhamento se você tiver sintomas graves
ou se os ataques permanecerem iguais mesmo após você ter tentado esses métodos
simples por alguns meses.
Contraceptivos orais
A maioria
das mulheres com enxaqueca que tomam a pílula anticoncepcional combinada não
percebem nenhuma mudança nos seus ataques. Algumas poucas até notam uma melhora,
mas os ataques podem ficar mais graves ou freqüentes, tipicamente durante a
semana sem a pílula em que ocorre a menstruação.
Outras dores
de cabeça, além da enxaqueca, são mais comuns. Muitos desses problemas acabam
finalmente por se resolver logo, vale a pena continuar a pílula combinada por
mais alguns meses antes de parar. A maioria dos médicos acredita que seja mais
seguro que mulheres com enxaqueca tomem a pílula combinada a não ser que elas
tenham a enxaqueca clássica com aura. Algumas vezes, uma mulher com enxaqueca
comum passa a ter ataques com aura quando ela começa a pílula combinada. Nesses
casos, a pílula combinada deve ser interrompida e uma forma alternativa de contracepção
deve ser usada.
Essas orientações
são baseadas em estudos feitos no começo do uso da pílula combinada, quando
se temia que as mulheres com enxaqueca fossem mais suscetíveis a alguns de seus
efeitos indesejáveis. A pílula original continha altas doses de estrógeno e
o risco final de trombose é muito baixo em mulheres saudáveis abaixo dos 40
anos que não fumam. Desta maneira, parece improvável que a pílula combinada
tenha qualquer impacto importante na enxaqueca hoje em dia, mais é mais sensato
errar por excesso de zelo. Existem diferentes formas de contraceptivos à disposição,
algumas são mais eficientes que a pílula combinada. Fale com seu médico ou uma
clínica local de planejamento familiar.
Gravidez
Tem-se que
a enxaqueca melhora durante a gravidez mas, na realidade, não é sempre assim.
Um estudo mostrou que 64% das mulheres tiveram ataques em menor número ou mais
leves se a sua enxaqueca era previamente relacionada com a menstruação, apenas
48% das mulheres notaram uma melhora quando grávida.
Em geral,
a enxaqueca pode ser mais grave nas semanas iniciais da gravidez, mas após três
meses cerca de 70% das mulheres notam uma melhora. Nos restantes das mulheres,
a enxaqueca continua inalterada ou piora. Ocasionalmente, as mulheres podem
sofrer seu primeiro ataque de enxaqueca na gravidez ou começar a ter ataques
com aura que elas não tinham antes. Algumas mulheres têm um ataque poucas horas
após o parto. Após o nascimento, os ataques podem resultar de sono interrompido
ou aumento de outros desencadeantes da enxaqueca.
Não é incomum
que os ataques retornem quando os períodos recomeçam - ficando mais firmemente
associados ao ciclo menstrual - embora para a maioria das mulheres a enxaqueca
retorne ao seu tipo e freqüência anteriores. Tratar a enxaqueca durante a gravidez
pode ser difícil por causa das restrições medicamentosas. Coma refeições pequenas
e freqüentes para prevenir quedas do açúcar no sangue e garantir um descanso
adequado. Não faz sentido ficar resistindo contra a enxaqueca, particularmente
quando você está grávida, uma vez que isso só irá postergar o inevitável. Siga
as instruções de auto-ajuda e fale com seu clínico ou obstetra para maiores
orientações.
Histerectomia
Não há nenhuma
evidência que sugira que uma histerectomia é de algum beneficio no tratamento
das dores de cabeça hormonais. O ciclo menstrual normal é o resultado da interação
de vários órgãos diferentes do corpo. Estão incluídos órgãos no cérebro além
dos ovários e do útero. Remover o útero por si só tem pouco efeito sobre as
flutuações hormonais do ciclo menstrual mesmo havendo uma parada das menstruações.
A menopausa
A maior parte
das pessoas consultadas na Clínica de Enxaqueca da Cidade de Londres para aconselhamento
é das mulheres com pouco mais de 40 anos. Nos anos que antecedem a ultima menstruação,
a menopausa, os ovários produzem quantidades menores de estrógeno. Durante esse
período de desequilíbrio hormonal, não é incomum que os ataques de enxaqueca
se tornem mais freqüentes e graves.
A partir de
poucos estudos realizados, sugere-se que a menopausa agrave a enxaqueca em até
45% das mulheres; entre 30 e 45% não notam qualquer mudança e cerca de 15% notam
uma melhora. Ao menos parte do aumento das dores de cabeça ao redor da menopausa
não parece ser diretamente causada pelos hormônios; as mulheres que têm suores
noturnos freqüentes podem perder o sono - cansaço excessivo é, por si só, um
desencadeante de enxaqueca. Para a maioria das mulheres, a enxaqueca acalma
depois da menopausa. Possivelmente porque as flutuações hormonais param e as
concentrações de estrógeno estabilizam-se em níveis mais baixos.
Algumas poucas
mulheres continuam a ter ataques que podem algumas vezes seguir um padrão cíclico
anos depois da menopausa. Não está clara a razão disso. TRH A terapia de reposição
hormonal (TRH) foi introduzida com o intuito de substituir o estrógeno que os
ovários deixam de produzir depois da menopausa. No início, ela foi usada como
um tratamento para as ondas de calor, suores noturnos e outros sintomas da menopausa.
Os estrógenos naturais usados para a TRH têm efeitos bem diferentes dos estrógenos
sintéticos e potentes usados na pílula anticoncepcional. Eles protegem, mais
do que aumentam, o risco de trombose. Recentemente, estudos sugerem que a TRH
for feita por vários anos, ela pode reduzir o risco de doenças cardiovasculares,
derrames e fraturas. Mas, a TRH não é adequada e nem necessária para toda mulher
e ela não é isenta de problemas.
A não ser que
uma mulher tenha tido uma histerectomia, ela deve tomar doses regulares de progestágenos
que reproduzem uma menstruação mensal. Isso é semelhante ao hormônio progesterona
que a mulher produz naturalmente durante o ciclo menstrual. O progestágeno é
necessário porque ele previne a estimulação excessiva da parede do útero pelo
estrógeno, que pode levar a mudanças cancerígenas. Muitos pesquisadores têm
notado que as mulheres relatam mais dores de cabeça durante ou pouco depois
de um tratamento com progestágeno, além de outros sintomas que são muito semelhantes
àqueles presentes na tensão pré-menstrual - dor nas mamas, retenção de líquidos,
irritabilidade e depressão.
Muitos poucos
estudos avaliaram o efeito da TRH sobre a enxaqueca, um problema complexo dado
o vasto número de tipos e métodos diferentes de TRH disponíveis comprimidos
diários ou gel, adesivos transdérmicos trocados uma ou duas vezes por semana
ou implantes inseridos debaixo da pele a cada seis meses. Como em todas as situações
com hormônios, a TRH pode piorar a enxaqueca em algumas mulheres mas leva a
uma melhora em outras.
A única maneira
de descobrir se ela funciona é tentar. Qualquer que seja a TRH que você começar
é importante ela seja levada a sério; os primeiros três meses são um período
de desequilíbrio uma vez que o corpo vai se acostumar às mudanças nos hormônios.
Se você estiver descontente com o tipo de TRH, vale a pena mudar para um tipo
diferente ou tentar uma outra via de administração. Mantenha um registro de
todas as dores de cabeça, tanto as enxaquecas como as outras, antes e durante
o tratamento.
Pontos centrais
50% das mulheres num
estudo acharam que seus ataques de enxaqueca estavam associados a seus ciclos
menstruais.
Se você suspeita que
existe uma ligação entre suas menstruações e os ataques de enxaqueca, mantenha
um diário.
É pouco provável que
a pílula anticoncepcional tenha um grande impacto sobre a enxaqueca
A TRH pode agravar a
enxaqueca em algumas mulheres na pós-menopausa, mas levar a uma melhora em
outras. A única maneira de saber o que vai acontecer é tentar.
Fonte: ISTOÉ - GUIA DA SAÚDE FAMILIAR - volume 2 "ENXAQUECA
E DORES DE CABEÇA" paginas 46 a 54
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