Dores de cabeça em crianças
As
crianças, bem como os adultos, têm dores de cabeça. Essas muitas vezes são difíceis
de se diagnosticar naqueles menores de 5 anos mas, mesmo nessa idade, se a mãe
for uma boa observadora, o diagnóstico pode ser feito normalmente.
Como os adultos,
as crianças sofrem de todos os tipos de dores de cabeça mas, as mais comuns,
são aquelas associadas a uma doença infecciosa, enxaqueca ou dor de cabeça tensional.
Há outros tipos menos comuns, que incluem dores de cabeça após o traumatismo
craniano, dores de cabeça associadas a tontura, vertigem e, raramente, tumores
cerebrais. Esses grupos quase sempre têm outros sinais e sintomas que podem
facilitar sua diferenciação das dores de cabeça recorrentes e benignas como
a enxaqueca.
Enxaqueca
Semelhante
aos adultos, não há um exame diagnóstico ou marcador da enxaqueca nas crianças,
logo o diagnóstico depende exclusivamente da história e exame físico. Uma das
definições de enxaqueca na criança é que ela é um transtorno no qual há dores
de cabeça recorrentes e paradoxais com intervalos sem sintomas, ocorrendo numa
criança sadia e para o qual não se encontra outra causa. Isso é o melhor que
se pode fazer em termos de definição.
A enxaqueca
é mais comum em mulheres do que em homens mas, em crianças antes da puberdade,
a incidência é de aproximadamente 2,5 % tanto em meninos como em meninas. Contudo,
chegando aos 11 anos, há um predomínio crescente de meninas que se torna mais
acentuado no grupo que vai dos 13 aos 15 anos. A enxaqueca pode começar muito
cedo. Num grupo estudado que tinha enxaqueca aos 7 anos, a idade média do início
era de 4,8 anos.
Caracteristicas clínicas
A enxaqueca
nas crianças não é muito diferente daquele dos adultos, mas os ataques são muito
curtos, durando normalmente de 1 a 4 horas apenas. Os sintomas gastrointestinais,
tais como náusea, vômitos e dor abdominal são muito mais proeminentes em pessoas
jovens. As crianças que desenvolvem enxaqueca têm uma maior chance de ter sofrido
de dor abdominal recorrente e têm uma maior tendência de ter sentido enjôos
durante viagens do que crianças que não desenvolvem a enxaqueca.
Elas também
têm uma maior chance de dormir pior e podem ser mais medrosas, fisicamente mais
fracas e mais propensas à frustração. A dor de cabeça parece assumir um papel
menos importante na enxaqueca das crianças do que ela tem nos adultos. Algumas
crianças têm ataques de dor abdominal inexplicável, palidez, letargia, náuseas
e vômitos mas, ao se questionar a criança cuidadosamente, em geral descobre-se
a dor de cabeça. Essas crianças que, cedo na sua vida, não se queixam de dor
de cabeça, acabam por faze-lo em ataques semelhantes quando mais velhas. Algumas
crianças sofrem da enxaqueca clássica com uma aura porém, a sua incidência é
menor do que os adultos.
Outras
variedades de enxaqueca
Como no caso
dos adultos, variantes incomuns da enxaqueca como a enxaqueca hemiplégica, enxaqueca
oftalmológica e enxaqueca com tontura e vertigem ocorrem às vezes, mas são relativamente
raras.
Fatores desencadeantes
Os fatores
desencadeantes em crianças são, na sua maioria, estressores de uma forma ou
de outra. Incluem-se aí exercício, luzes brilhantes, barulho, falta de sono,
falta de comida - principalmente pular o café da manhã, frio e excitação, por
exemplo, uma desta de aniversário que se aproxima. Esses desencadeantes são
essencialmente os mesmos dos adultos.
Tratamento
Com as crianças,
como nos adultos, o melhor tratamento é evitar os ataques reduzindo os fatores
desencadeantes. As refeições devem ser regulares. Elas devem ter um café da
manhã adequado antes de ir para a escola e, se possível, um almoço apropriado
- não um lanche de batatinhas fritas e chocolate. Muitos pais temem que o fato
da criança ter dores de cabeça indique algo sério, como um tumor cerebral. Isso
raramente acontece, mas se há alguma dúvida a criança deve ser avaliada por
um neurologista que, se necessário, irá fazer uma investigação completa.
Quando se requer
tratamento medicamentoso, as drogas menos tóxicas devem ser usadas. Na prática,
isso significa paracetamol. Se o enjôo é um problema, seu médico pode prescrever
uma droga antiemética como a metoclopramida ou a domperidona. Se essas foram
dadas, o médico deve alertar os pais que a criança pode vir a ter movimentos
involuntários. Embora sem conseqüências a longo prazo, esses sintomas podem
incomodar ou seja, a droga não deve ser tomada outra vez. No Reino Unido, a
aspirina não é recomendada para crianças menores do que 12 anos por causa da
possibilidade delas desenvolverem uma doença chamada Síndrome de Reye, que acomete
o fígado e os rins.
Se o tratamento
adequado é usado no ataque, raramente é necessário dar medicações diárias para
preveni-lo, sendo que elas só devem ser dadas se as dores de cabeça forem realmente
incapacitantes. Muitos pais ficam preocupados que suas crianças desenvolvam
dores de cabeça durante a época das provas. É muito raro que isso aconteça,
uma vez que as dores de cabeça, se ocorrerem, quase sempre aparecem quando as
provas terminam.
Dores de cabeça tensionais
As dores de
cabeça tensionais e de contração muscular podem ocorrer em crianças e são relativamente
freqüentes em adolescentes. Essas dores de cabeça podem ocorrer quase todos
os dias. Elas não têm duração específica - podem durar menos do que uma hora
ou o dia todo. As dores de cabeça tensionais são diferentes da enxaqueca porque
não há sintomas prodrômicos ou aura e, embora a criança algumas vezes diga que
está doente, ela raramente vomita.
Assim como
na enxaqueca, não há sinais físicos de anormalidade e o diagnóstico pode ser
feito unicamente depois de se obter um relato cuidadoso. Se possível, deve-se
primeiro ver a criança sozinha e daí, seus pais. Finalmente, deve-se ver os
pais sem a criança. Isso porque é a criança que tem a dor de cabeça e ela é
a pessoa que sabe o quão ruim a dor de cabeça é e como ela é. Os pais podem
dizer o quanto ela atrapalha a vida da criança, qual a sua freqüência e quais
os fatores que tendem a precipitar a dor de cabeça.
Tratamento
Se o diagnóstico
é de dor de cabeça tensional deve-se lembrar que essas dores de cabeça provavelmente
não respondem às drogas usadas na enxaqueca embora, em alguns casos, o paracetamol
ou a aspirina possam ajudar. O importante é encontrar uma causa e, muito freqüentemente,
ela é um problema familiar de algum tipo. Pode ser que a criança esteja usando
a dor de cabeça para evitar alguma coisa que ela ache desagradável - o desejo
de não ir à escola é um exemplo bem simples. Se este é o motivo, a razão de
não gostar da escola deve ser buscada. A criança pode ser motivo de chacota
na escola e os pais devem discutir o problema com o professor.
Em outras
circunstâncias, a criança pode estar reagindo a problemas entre o casal e sua
dor de cabeça é usada para se aproveitar da situação ou como expressão de sua
tristeza. Existe ainda um outro grupo no qual a criança se queixa de dor de
cabeça quando o problema real é alguma coisa bem diferente. Quando isto ocorrer,
a criança e sua família podem estar precisando de ajuda médica ou psicológica
adicional.
Pontos centrais
A enxaqueca pode começar
muito cedo.
Os ataques são bem mais
curtos que nos adultos, mas a dor abdominal, náusea e vômitos são mais comuns.
Falta de comida é um
dos fatores desencadeantes da enxaqueca em crianças. Deve-se encoraja-las
a ter refeições regulares.
As dores de cabeça tensionais
na criança podem ser causadas por atritos familiares e medo da escola.
Fonte: ISTOÉ - GUIA DA SAÚDE FAMILIAR - volume 2 "ENXAQUECA
E DORES DE CABEÇA" paginas 55 a 60
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