A
manifestação nos seres humanos recebe o nome esquisito de
variante da doença de Creutzfeldt Jakob (vCJD). É chamada
assim, de variante, porque é muito parecida com a doença
da qual empresta o nome. Parecida, mas não a mesma coisa.
O mal de Creutzfeldt Jakob, ou apenas CJD, como também é
chamado, foi diagnosticado pela primeira vez em 1920. A
causa da doença é, de novo, a príon. Mas a contaminação
pode ocorrer em centros cirúrgicos mal esterilizados ou
por meio de órgãos infectados usados em transplante. Outra
forma é a ocorrência de mutações na própria estrutura da
proteína por motivos não conhecidos. "Ainda não se sabe
o que causa as alterações", comenta Acary Oliveira, neurologista
da Unifesp. A doença também ataca o cérebro e degenera os
neurônios.
Sua
incidência é de um caso para um milhão de habitantes e costuma
aparecer por volta dos 60 anos. "Ao contrário do mal da
vaca louca, sua progressão é rápida, levando à morte em
menos de um ano", explica o neurologista paulista Ricardo
Nitrini.Como se vê, além de novo em se tratando de ciência,
o problema da vaca louca também é complexo. É a primeira
vez, por exemplo, que os cientistas se deparam com uma infecção
causada por proteína. "Isso torna difícil descobrir como
a doença atua", justifica Cícero Coimbra. A dificuldade,
é claro, complica ainda mais a tarefa de criar um tratamento.
Não existem nem mesmo testes para diagnosticar a doença
transmitida pela vaca (ao que parece, há apenas um sendo
desenvolvido na Alemanha).A notícia de que o País importou
produtos derivados do sangue contaminado pela proteína alterada
gerou polêmica. O Ministério da Saúde confirmou que o Brasil
comprou da Inglaterra, entre 1996 e 1997, 419 mil frascos
de produtos sanguíneos (19 mil de albumina - proteína para
tratar lesões com queimaduras - e 400 mil de imunoglobulina
- proteína do sistema de defesa do organismo). Entre os
doadores ingleses, três morreram vítimas da doença. No Brasil,
uma das empresas que compraram os produtos foi a Meizler.
A indústria encaminhou à Agência Nacional de Vigilância
Sanitária a lista de hospitais que receberam os lotes.
Na opinião dos médicos, não há motivos para pânico. De acordo
com os especialistas, nunca foi comprovada a transmissão
da vCJD pelo sangue humano. "Não há relato no mundo de transmissão
da forma humana da doença por meio de hemoderivados", afirma
Milberto Scaff, neurocirurgião de São Paulo. E, mesmo se
houvesse, não seria possível identificar os pacientes que
receberam os hemoderivados ingleses. "Nenhum hospital pode
dizer quem recebeu essas substâncias. É impossível", admitiu
Serra. Outra confusão a respeito da doença foi a suspeita
da possibilidade de contaminação pela vacina Sabin, usada
para combater a poliomielite. O temor surgiu com as notícias
de que vacinas também levariam na composição subprodutos,
inclusive sanguíneos, obtidos a partir de animais. De acordo
com Serra, porém, no Brasil não são utilizados hemoderivados
na fabricação da Sabin. Mas o temor é geral. O governo americano,
por exemplo, está solicitando às indústrias que evitem o
uso de qualquer ingrediente das vacinas que seja originado
de animais. Precaução nunca é demais.
veja
o ciclo da vaca louca