Hemoglobinopatia
Hemoglobinopatia
é a alteração da hemoglobina determinada geneticamente e
que pode causar anemia.
Sangue
O sangue circula por todo o organismo bombeado pelo coração,
transportando os elementos indispensáveis para a vida. O
sangue constitui-se de uma parte líquida chamada plasma
e de outra representada pelas células. As células são de
vários tipos:
-
Glóbulos brancos: responsáveis pelas nossas
defesas às infecções.
-
Plaquetas: células que atuam no estancamento
das hemorragias.
- Globulos
vermelhos: responsáveis pelo transporte de oxigênio
dos pulmões para todo o corpo.
Anemia
A anemia é definida como uma deficiência de oxigenação dos
tecidos do organismo, por diminuição da capacidade de transporte
de oxigênio pelo sangue. Esta diminuição de transporte ocorre
quando há redução do número de glóbulos vermelhos e conseqüentemente,
da quantidade de hemoglobina, ou quando há somente redução
total da hemoglobina com número normal de glóbulos vermelhos
contendo uma concentração menor de hemoglobina.
As
causas de anemia são muito numerosas sendo as mais freqüentes
a deficiência de ferro por problemas alimentares ou por
sangramentos crônicos. Nestes casos, como em algumas outras
formas de anemia, o tratamento adequado promove a cura.
Em
outras formas de anemia, como as que nos interessam, as
hemoglobinopatias, existe uma alteração da formação da hemoglobinopatias
por característica hereditária, não sendo possível obter
cura com os recursos atuais da medicina.
Hemoglobina
É uma substância complexa, formada por diversas partes.
Uma destas partes é constituída de proteínas que são formadas
no organismo de cada pessoa. Estas proteínas ligam-se ao
ferro presente nos alimentos, formando a hemoglobina. Esta
substância formada com ferro e proteínas tem a capacidade
de fixar o oxigênio, sendo por isso responsável pelo seu
transporte dos pulmões aos tecidos.
Nas hemoglobinopatias a proteína formada é defeituosa e
apresenta características anormais. Dependendo da anomalia
pode causar ou não, mau funcionamento da hemoglobina ou
dos glóbulos vermelhos.
No exame de laboratório chamado eletroferese de hemoglobina,
encontramos nas pessoas normais três tipos de hemoglobina:
A1, A2 e F (fetal).
Nos portadores de Hemoglobinopatias, podemos encontrar diversos
outros tipos, sendo as mais freqüentes as hemoglobinas S,
C, D, H e I.
É
importante a avaliação da quantidade encontrada de hemoglobina
anormal, pois esta quantidade define se o indivíduo é somente
portador ou se pode apresentar a anemia como doença. Assim,
por exemplo, se um indivíduo tem metade de hemoglobina A
e metade de hemoglobina S, ele é somente um portador e não
vai apresentar anemia importante tendo vida normal. Outra
alteração que pode ocorrer, é no que se refere às quantidades
das proteínas formadas para constituição da hemoglobina.
Nesta situação, as proporções do tipo A1 e A2 é que ficam
alteradas. Esta alteração é chamada de Talassemia ou Anemia
do Mediterrâneo.
Herança
As hemoglobinopatias são herdadas dos pais de acordo com
o esquema simplificado abaixo, para a hemoglobina S:
1.
Se um dos pais é portador
| Pai
/ mãe |
A |
A |
| A |
AA |
AA |
| S |
SA |
SA |
| AA |
-
Normal |
| SA |
- Portador |
2.
Se ambos são portadores
| Pai
/ mãe |
A |
S |
| A |
AA |
SA |
| S |
SA |
SS |
| AA |
-
Normal |
| SA |
- Portador |
| SS |
-
Doente |
Expressão Clínica
(Intensidade de Hemoglobinopatia)
A presença de doença (anemia) e outros sintomas, depende
da intensidade de hemoglobinopatia e também do tipo de alteração
da hemoglobina. Inicialmente, podemos classificar em dois
grupos de acordo com o resultado dos exames de laboratório
e pelo quadro clínico: doentes (homozigóticos) e portadores
(heterozigóticos).
Doentes:
São as pessoas que apresentam a hemoglobina anômala em concentrações
maiores do que 50% do total da hemoglobina. A característica
genética (gene) foi herdada do pai e da mãe, podendo neste
caso, serem o pai e a mãe portadores; um doente e outro
portador ou os dois doentes. Geralmente existe quadro clínico
importante e o diagnóstico costuma ser feito na infância.
Esta situação é relativamente rara, atingindo menos que
um em cada quinhentos nascimentos.
Portadores:
São pessoas que apresentam a hemoglobina anômala em concentrações
menores do que 50% do total de hemoglobina. A característica
genética foi herdada somente do pai ou da mãe, que neste
caso, podem ser pelo menos um deles doente ou portador.
As manifestações clínicas podem ser ausentes ou muito raras,
e o diagnóstico nem chegar a ser feito, pois não apresentam
sintomas que indiquem a realização de exames específicos.
Esta situação pode ser esclarecida muitas vezes, quando
um familiar apresenta a doença e aí está indicada a realização
dos exames nos demais membros da família, ou quando se fazem
os exames em toda a população. Atualmente tem sido indicada
a realização desse exame em doadores de sangue, o que permite
a identificação de numerosos portadores. Esta situação de
portador é muito freqüente, podendo atingir de 2 a 5% da
população. Estima-se que no Brasil, devam existir pelo menos
4 milhões de portadores.
Manifestações Clínicas
Além da grande diferença existente entre os portadores e
doentes, as manifestações clínicas variam com o tipo de
hemoglobinopatia. Vamos descrever sumariamente, o que é
encontrado em cada tipo, usando como identificação a sigla
da hemoglobinopatia e nome do quadro clínico quando houver.
Doentes:
SS - anemia falciforme ou anemia drepanocítica.
O paciente apresenta a partir do primeiro ano de idade,
anemia de intensidade significativa, icterícia que pode
ser confundida com hepatite, dores ósseas e articulares
que podem simular reumatismo, crises de dores abdominais,
às vezes tão intensas, que confundem com a apendicite e
também quadro pulmonares, similares aa broncopneumonia.
Os sintomas costumam aparecer em crises agudas relacionadas
à presença de infecções, esforço físico excessivo, desidratação,
etc. Pode ocorrer também hematúria (sangue na urina) provocada
pela Hemoglobina S. Estes pacientes apresentam algumas restrições
para atividade física, e devem sempre procurar orientação
médica. Com estes cuidados, podem ter na maioria das vezes
vida quase normal, inclusive em relação ao trabalho desde
que não exerçam atividades físicas intensas.
CC
- Anemia por Hemoglobina C. Neste tipo de hemoglobinopatia,
o paciente pode não ter manifestações clínicas ou apresentar
somente uma anemia leve a moderada e aumento do baço. É
totalmente compatível com vida normal, não sendo necessário
nenhum tratamento ou limitação de atividades.
SC - Anemia por associação SC. Ocorre quando
um dos pais é portador S e outro portador C. O quadro clínico
é similar à anemia falciforme porém com intensidade menor.
Como característica, esta associação pode levar com mais
freqüência a problemas na retina (olho) e, ao contrário
da anemia falciforme, é encontrado aumento do baço.
ST- S-talassemia, ou Anemia Micro-Drepanocítica
ou Síndrome de Silverstone Bianco. É o resultado da associação
da talassemia com portador da anemia falciforme. Os sintomas
são semelhantes à anemia falciforme, mas um pouco menos
intensos podendo também encontrar aumento do baço.
CT, DD, CD e numerosas outras associações e estados homozigóticos
podem ser encontrados, mas de forma muito mais rara e com
quadros clínicos inexpressivos ou de importância moderada
não cabendo aqui expo-los.
Portadores:
AS
- Portador de Traço Falciforme ou estigma falciforme. Nestes
casos, podem aparecer, raramente, sintomas similares à anemia
falciforme, só que de intensidade acentuadamente menor e
também sempre relacionados a situações desencadeantes intensas
como por exemplo, infecções graves principalmente pulmonares,
anestesia com baixa oxigenação, trabalho em condições de
baixa oxigenação, avião despressurizado, grandes altitudes
e raramente após exercício físico muito intenso. De maneira
geral, este tipo de portador pode permanecer assintomático
durante a vida e o diagnóstico só vir a ser feito com exames
de Laboratório.
AC,
AD, AE, etc. - São portadores totalmente assintomáticos,
não apresentando nenhuma anemia ou quadro clínico decorrente
da hemoglobinopatia. Esta situação só aparece quando feitos
exames de laboratório específicos para este fim e o diagnóstico
só importa para fins de orientação para o casamento e filhos.
AT - Talassemia minor, ou portador de Anemia
do Mediterrâneo ou de Cooley. Estes portadores apresentam
uma alteração no exame de sangue, caracterizada geralmente
por aumento dos glóbulos vermelhos e diminuição da hemoglobina
e como sinal clínico, encontramos freqüentemente palidez,
e às vezes aumento do baço.
Tratamento
Como
já foi citado, as hemoglobinopatias não podem ser curadas,
porém algumas complicações devem ser tratadas. Nos doentes
de anemia falciforme (SS) e da doença SC ou ST, é necessário
o uso de ácido fólico e vitaminas do Complexo B, pela necessidade
de produção maior número de glóbulos vermelhos. Como estes
pacientes podem apresentar diversas complicações que necessitam
tratamento específico, recomendamos sempre acompanhamento
médico para melhor orientação. Os portadores, na grande
maioria dos casos, não necessitam qualquer tratamento, exceto
se ocorrerem moléstias associadas.
Recomendações
Aos doentes ou portadores de Hemoglobinopatia, em especial
nos casos de Hemoglobina S (AS-SS), recomendamos:
1.
Orientar seus parentes a fim de identificar outros portadores.
2. Antes do casamento, o futuro parceiro deve fazer
exames para verificar se também não é portador de Hemoglobinopatia.
3. Comunicar ao seu médico que é portador de Hemoglobinopatia
nos seguintes casos:
a. Gravidez
b. Antes de qualquer
cirurgia com anestesia geral.
c. Se tiver sangue na urina
(hematúria)
d. Se tiver problemas pulmonares
(broncopneumonia)
e. Não esquecendo também,
do pediatra dos filhos
4. No caso de casais, em que ambos sejam portadores,
procurar orientação especializada antes de pensar em filhos.
Respostas às dúvidas mais freqüentes
1.
As Hemoglobinopatias são contagiosas ou vão se agravar
com o passar dos anos?
- Não.
2. São doenças que apareceram agora?
- Não, estas alterações surgem desde o nascimento e estão
presentes durante toda a vida.
3. Posso doar sangue?
- Sim, pois do sangue doado, obtém-se vários constituintes:
o plasma (administrado a quem tem distúrbios de coagulação),
o crioprecipitado (aos hemofílicos), as plaquetas (administradas
a quem tem distúrbios plaquetários). Somente os glóbulos
vermelhos é que não devem ser administrados, pois a hemoglobina
S pode causar agravamento do quadro clínico, a um paciente
em choque, ou em ex-sanguineo transfusão. Mas isto não é
mais problema, pois os bancos de sangue devem realizar a
eletroforese de hemoglobina.
4. Como detectar esta doença em pessoas de minha
família?
- Procure o seu médico particular; o serviço médico de seu
convênio, ou o posto de saúde mais próximo de sua residência.
Fonte:
Centro de Hematologia de São Paulo - 03/2001
|