Cólera
Aspectos
Epidemiológicos
Até
1991, o Brasil era uma área indene para cólera. A epidemia
que atingiu o País, a partir daquela data, faz parte da
progressão da sétima pandemia iniciada em 1961, com um foco
epidêmico em Sulawesi, ex-Célebes (Indonésia), que se espalhou
por países da Ásia, Oriente Médio, África e regiões da Europa,
com eventuais achados nos Estados Unidos desde a década
de 1970. O biotipo El Tor, isolado por Gotschlich, em 1906,
de peregrinos provenientes de Meca, examinados na estação
de quarentena de El Tor, no Egito, é o responsável pela
atual pandemia de cólera. Essa pandemia atingiu o continente
sul-americano pelo litoral do Peru, em janeiro de 1991,
estendendo-se, logo em seguida, por todo aquele país, para
o Brasil, e atingindo finalmente 14 países da América do
Sul. A introdução da cólera em nosso país aconteceu pela
selva amazônica, no Alto Solimões. A partir daí, alastrou-se
progressivamente pela região Norte, seguindo o curso do
Rio Solimões/Amazonas e seus afluentes, principal via de
deslocamento de pessoas na região, e no ano seguinte para
as regiões Nordeste e Sudeste através dos principais eixos
rodoviários. A chegada da cólera em áreas indenes e com
precárias condições de vida, teve quase sempre características
explosivas. Desde então, observou-se a alternância de períodos
de silêncio epidemiológico e de recrudescimento da epidemia.
Atualmente o comportamento da cólera sugere um padrão endêmico,
definido pela ocorrência regular de casos e flutuações cíclicas
de maior ou menor gravidade, na dependência de condições
locais que favoreçam a circulação do Vibrio cholerae.
Agente
Etiológico: Vibrio cholerae
O,
grupo1, biotipo clássico ou El Tor e sorotipos Inaba, Ogawa
ou Hikojima e Vibrio cholerae O 139, também conhecido
como Bengal. Trata-se de um bacilo gram-negativo com flagelo
polar, aeróbio ou anaeróbio facultativo. Até pouco tempo,
acreditava-se que entre todos os sorogrupos conhecidos,
apenas o O1 era patogênico, mas, em março de 1993, foi identificado
como responsável por uma epidemia no sul da Ásia o Vibrio
cholerae O 139. Sorogrupos não O1 do Vibrio cholerae
já foram identificados em todo mundo, sabendo-se que os
mesmos podem ocasionar patologias extra-intestinais, diarréias
com desidratação severa semelhante à cólera. Até aquele
momento, no entanto, esses sorogrupos só estavam associados
a casos isolados ou surtos muito limitados. O Vibrio
cholerae O 139 foi o primeiro Vibrio cholerae
não O1 identificado como responsável por grande epidemia
com considerável mortalidade. As enterotoxinas elaboradas
são similares para o grupo e ocasionam quadros clínicos
muito semelhantes. A resistência do biotipo El Tor é maior,
o que lhe dá condições de sobreviver por mais tempo no meio
ambiente, crescer melhor e mais rápido em meios de cultura,
além de lhe conferir menor suscetibilidade aos agentes químicos
e maior tendência à endemização.
Reservatório
e Fonte de Infecção
O
reservatório é o homem. Após 1970, vários estudos têm sugerido
a possibilidade de existirem reservatórios ambientais, como
plantas aquáticas e frutos do mar. Nos Estados Unidos, Itália
e Austrália, alguns surtos isolados foram relacionados ao
consumo de frutos do mar crus ou mal cozidos, sugerindo
a existência de reservatórios ambientais.
Modo de Transmissão
A
fala, o espirro e, principalmente a tosse de um doente de
tuberculose pulmonar bacilífera lançam no ar gotículas contaminadas
de tamanhos variados. As gotículas mais pesadas se depositam
rapidamente e as mais leves permanecem em suspensão no ar.
Somente os núcleos secos das gotículas (Núcleo de Wells),
com diâmetro de até 5m e com 1 a 2 bacilos em suspensão,
podem atingir os bronquíolos e alvéolos e aí iniciar a multiplicação.
As gotículas médias são, na sua maioria, retidas pela mucosa
do trato respiratório superior e removidas dos brônquios
através do mecanismo muco-ciliar. Os bacilos assim removidos
são deglutidos, inativados pelo suco gástrico e eliminados
nas fezes. Os bacilos que se depositam nas roupas, lençóis,
copos e outros objetos dificilmente se dispersarão em aerosóis
e, por isso, não desempenham papel importante na transmissão.
Período de Incubação
De
algumas horas a 5 dias. Na maioria dos casos, 2 a 3 dias.
Período de Transmissibilidade
Perdura
enquanto há eliminação do vibrião nas fezes, o que ocorre,
geralmente, até poucos dias após a cura. O período aceito
como padrão é de 20 dias. Vale lembrar a existência de portadores
crônicos que eliminam o vibrião de forma intermitente por
meses e até anos.
Suscetibilidade e Imunidade
A
suscetibilidade é variável e aumenta com fatores que diminuem
a acidez gástrica (acloridria, gastrectomia, uso de alcalinizantes
e outros). A infecção produz aumento de anticorpos e confere
imunidade por tempo limitado - ao redor de 6 meses. Em áreas
endêmicas, as repetidas infecções tendem a incrementar a
resposta IgA secretora e produzir constantes estímulos à
resposta imunológica, que é capaz de manter a imunidade
local de longa duração. Esse mecanismo pode explicar a resistência
demonstrada pelos adultos naquelas áreas.
Distribuição, Morbidade, Mortalidade e Letalidade
O
número de casos é maior no período da seca, quando a baixa
do volume de água nos reservatórios e mananciais proporciona
a maior concentração de vibriões. Em algumas áreas, o conjunto
de condições sócio-econômicas ou ambientais favorecem a
instalação e rápida disseminação do Vibrio cholerae.
Nessas condições figuram entre outros: deficiência do abastecimento
de água tratada, destino inadequado dos dejetos, alta densidade
populacional, carências de habitação, higiene, alimentação,
educação, etc. Nas áreas epidêmicas, o grupo etário mais
atingido é o de maiores de 15 anos. Nas áreas endêmicas
a faixa mais jovem é a mais atingida. O sexo masculino é
o mais atingido, por sua maior exposição à contaminação.
Os indicadores de morbidade, mortalidade e letalidade são
diferenciados de acordo com as condições sócio-econômicas,
densidade populacional, meios de transporte, acesso aos
serviços de saúde e outras áreas de risco. Desde a sua introdução
no país, os coeficientes de incidência de cólera aumentaram
progressivamente até 1993. A partir de então, observou-se
uma sensível diminuição dos mesmos que se fez mais importante
em 1996, sugerindo a tendência de endemização da doença.
O coeficiente de letalidade em casos graves de cólera pode
atingir 50% quando não há tratamento adequado. Porém, quando
este é instituído correta e precocemente, este número cai
para menos de 2%. No Brasil, de 1991 a 1994, o coeficiente
de letalidade oscilou em torno de 1.3%, apresentando maiores
percentuais desde então. Este aumento observado, no entanto,
não parece estar ligado a uma deterioração do atendimento
ao paciente, mas a uma subnotificação importante de casos.
A precisão e a confiabilidade destes indicadores depende
fundamentalmente da sensibilidade, agilidade e organização
da Vigilância Epidemiológica.
Aspectos Clínicos
Descrição
Doença
infecciosa intestinal aguda, causada pela enterotoxina do
Vibrio cholerae. Manifesta-se de formas variadas,
desde infecções inaparentes até casos graves, com diarréia
profusa (menos freqüente). Além da diarréia, podem surgir
vômitos, dor abdominal e, nas formas graves, cãimbras, desidratação
e choque. A febre não é uma manifestação comum. Nos casos
graves mais típicos, embora menos freqüentes (menos de 10%
do total), o início é súbito, com diarréia aquosa, abundante
e incoercível, com inúmeras dejeções diárias. A diarréia
e os vômitos, nesses casos , determinam uma extraordinária
perda de líquidos, que pode ser da ordem de 1 a 2 litros
por hora.
Diagnóstico
Diferencial
O
diagnóstico diferencial é feito com todas as diarréias agudas.
Ver o capítulo de Doenças Diarréicas Agudas deste Guia.
Complicações
As
complicações na cólera decorrem fundamentalmente da depleção
hidro-salina imposta pela diarréia e pelos vômitos e ocorrem
mais freqüentemente nos indivíduos idosos, diabéticos ou
com patologia cardíaca prévia. A desidratação não corrigida
levará a uma deterioração progressiva da circulação, da
função renal e do balanço hidro-eletrolítico, produzindo
dano a todos os sistemas do organismo e, conseqüentemente,
acarretando choque hipovolêmico, necrose tubular renal,
íleo paralítico, hipocalemia (levando a arritmias), hipoglicemia
(com convulsão e coma em crianças). O aborto é comum no
3o trimestre de gestação, em casos de choque hipovolêmico.
As complicações podem ser evitadas com adequada hidratação
precoce.
Tratamento
-
Formas leves e moderadas: hidratação oral com
soro de reidratação oral-SRO.
- Formas
graves: hidratação venosa + antibioticoterapia.
- Drogas
de escolha e posologia no quadro abaixo:
Quadro
1
Antibioticoterapia Drogas de Escolha e Posologia
| Menores
de 8 anos |
Sulfametoxasol
(50 mg/kg/dia) + Trimetoprima (10 mg/kg/dia) |
12/12h
3 dias |
| Maiores
de 8 anos |
Tetraciclina
500 mg |
6/6h
3 dias |
| Gestantes
e Nutrizes |
Ampicilina
500mg |
6/6h
3 dias |
Diagnóstico Laboratorial
O Vibrio cholerae pode ser isolado a partir da cultura
de amostras de fezes de doentes ou portadores assintomáticos.
O método de coleta de amostras encontra-se na Quadro 2.
O diagnóstico laboratorial da cólera só deve ser utilizado
para investigação de todos os casos suspeitos quando a área
é considerada livre de circulação do Vibrio cholerae.
Em outra situação deverá ser utilizado em conjunto com o
critério clínico-epidemiológico.
Quadro 2
Cólera - Coleta de Amostras de Material Clínico
tório
deve ser previamente rotulada e acompanhada da Ficha de
Encaminhamento de Amostras para Análise, devidamente preenchida.
| Instrumento
|
Método
|
Transporte
e Viabilidade Da Amostra |
| SWAB
RETAL |
Introduzir
o swab na ampola retal comprimindo-o, em movimentos
rotatórios suaves, em toda a extensão da ampola.
Inocular no meio de
transporte Cary-Blair ou em 10-20 ml de água peptonada
alcalina (ph entre 8.4 - 8.6). |
Processar
as amostras acondicionadas em meio de Cary-Blair de
24 a 72 horas após a coleta, se mantida a temperatura
ambiente (no caso de temperatura ambiente acima de
30 graus, colocar o meio de Cary-Blair em recipiente
com água à temperatura natural) ou até 7 dias se mantido
sob refrigeração (entre 4-8 graus). |
| SWAB
FECAL |
Recolher
parte das fezes com auxílio de um swab.
Introduzir o swab
no meio de transporte Cary- Blair ou água peptonada
alcalina. |
Processar as amostras acondicionadas em tubos de
água peptonada alcalina até 12 horas após a coleta,
se mantidas a temperatura ambiente e por 7 dias
se mantidas sob refrigeração.
As amostras coletadas
por swab devem ser semeadas de imediato se não forem
acondicionadas em meio de transporte. |
| FEZES
IN NATURA |
Recolher
entre 3 a 5 gramas de fezes, diarréicas ou não,
em recipiente de boca larga, limpos e/ou esterilizados
(não utilizar substâncias químicas).
Evitar recolher amostras
fecais contidas nas roupas, superfícies de camas
ou chão. |
A
semeadura deve ser realizada imediatamente após a
coleta. |
| PAPEL
DE FILTRO |
Utilizar
tiras de papel de filtro, tipo xarope ou de mata-borrão
(2.5 cm de largura por 6.5 cm de comprimento).
Espalhar em fezes
diarréicas ou emulsionadas em água em 2/3 de uma
das superfícies do papel, com auxílio de um fragmento
de madeira ou outro material disponível.
Acondicionar as tiras
de papel de filtro em invólucros plásticos, perfeitamente
vedados. |
Colher
a amostra, tampar e observar a umidade (a amostra
só é válida enquanto o papel filtro se mantiver úmido).
|
Observações: As amostras devem ser colhidas
antes da administração de antibióticos ao paciente. Qualquer
amostra enviada ao laboratório.
Vigilância Epidemiológica
No caso específico da cólera, a experiência internacional
tem demonstrado que sua introdução em um país dificilmente
pode ser evitada. Entretanto, sua disseminação pode ser
controlada quando a infra-estrutura de saneamento básico
é adequada e existe um sistema de vigilância epidemiológica
das diarréias e de monitorização ambiental que permitam
sua detecção precoce. Como não é esse o caso do Brasil,
não se pode pensar na erradicação da doença a curto e médio
prazo. Assim, o objetivo das medidas de controle da cólera
são:
-
diminuir a incidência;
- diminuir
a letalidade; e
- impedir
ou dificultar a propagação da doença.
Para
se atingir esses objetivos, faz-se necessário que a vigilância
epidemiológica atue de forma conjunta e coordenada com a
vigilância sanitária, saneamento, educação em saúde, assistência
ao paciente e outras áreas afins, orientando as equipes
de trabalho para a utilização da metodologia epidemiológica
na adoção e aplicação das medidas pertinentes. Desde antes
da ocorrência do primeiro caso, a Vigilância Epidemiológica
deve estar atenta para o comportamento das diarréias na
comunidade - quando e onde estão ocorrendo os casos, se
estão aumentando em relação a períodos anteriores e qual
a faixa etária mais atingida. Uma elevação do número de
diarréias num determinado local e período, numa faixa etária
de maiores de 15 anos, é sugestivo de um surto de cólera.
Também é importante a realização da monitorização do meio
ambiente para a detecção precoce da circulação do Vibrio
cholerae numa comunidade. Esse procedimento consiste
na coleta periódica do material do meio ambiente e a realização
de exame laboratorial. É ainda importante a definição de
áreas de maior risco para a entrada e disseminação do vibrião.
Para isso chamam atenção localidades ao longo de eixos rodoviários,
ferroviários, rios, áreas portuárias; bem como populações
assentadas abaixo de pontos de despejos de esgotamento sanitário
ou às margens de coleções hídricas que recebem esgotos;
com ausência, deficiência ou intermitência de água, etc.
A definição de áreas de risco é importante para priorizar
o desenvolvimento das ações de controle. Estas áreas devem
ser redefinidas na medida em que novas áreas de circulação
sejam estabelecidas. O uso da vigilância epidemiológica
de forma correta e coordenada no nível local do sistema,
proporciona as informações necessárias para que se otimize
a utilização dos recursos necessários para prevenção e controle
da doença.
Notificação:
acólera é uma doença de notificação compulsória ao Ministério
da Saúde (Lei nº 6.259 de 30/10/75) e à Organização Mundial
de Saúde (Regulamento Sanitário Internacional).
Tipo
de Dados
- número
de casos e óbitos suspeitos de cólera; e
- dados
relativos aos casos confirmados: faixa etária, procedência,
data dos primeiros sintomas, município de atendimento,
tipo de atendimento, uso de antibiótico, critério de
confirmação e evolução. Estes dados são obtidos a partir
da ficha de investigação epidemiológica.
Fontes
de Informação de Casos e Óbitos
-
unidades de saúde, principalmente unidades de tratamento
de diarréia (UTD's), unidades de tratamento de cólera
(UTC's) e emergências;
- laboratórios
públicos e privados;
- cartórios
(declarações de óbitos);
- serviços
de controle sanitário de portos, aeroportos, fronteiras
e rodoviários; e
- outros.
Outros
Tipos de Informação:
- pesquisa
sistemática do V. cholerae nos sistemas de esgoto, medida
esta indicada principalmente na fase de alerta quando
deve ser realizada a monitorização dos efluentes;
-
monitorização dos mananciais;
- vigilância
da qualidade da água de abastecimento público; e
- vigilância
da qualidade de alimentos.
Fluxo:
a notificação deverá ter o fluxo estabelecido desde o nível
municipal até os níveis estadual e nacional, de forma a
ser ágil e eficiente. É importante ressaltar que, na evidência
de uma epidemia no país, mesmo que não ocorram casos suspeitos
e/ou confirmados, deve ser enviada a notificação negativa
semanal.
Investigação
Epidemiológica: o
passo seguinte à notificação do caso suspeito é a investigação
epidemiológica, que deve ocorrer o mais rápido possível
e visa responder às seguintes perguntas: Quem foi afetado?
Quando? Onde? De que maneira foi contaminado? A investigação
de todos os casos suspeitos e confirmados só é necessária
em áreas silenciosas ou por ocasião do início da epidemia.
Com a progressão do processo epidêmico e o aumento do número
de casos, a investigação epidemiológica completa deve ser
feita na medida em que os limites operacionais o permitam,
sendo imprescindível, contudo, a coleta dos dados clínicos
e epidemiológicos para caracterização do caso. O tempo decorrido
entre a notificação e a investigação deve ser medido para
se avaliar a agilidade do Sistema de Vigilância Epidemiológica.
Roteiro
de Investigação Epidemiológica de Casos no Nível Local:
a investigação acompanha-se do preenchimento da ficha epidemiológica
dos casos nas unidades de saúde ou por ocasião da visita
domiciliar. Para facilitar o trabalho do investigador, um
roteiro simples e objetivo é apresentado a seguir:
Caracterizar
clinicamente o caso:
-
evolução dos sintomas;
- características
da diarréia e vômito;
- grau
de desidratação (Quadro 3); e
- estimativa
do volume de líquido perdido.
Deverá
ser observado se já foi iniciada a reidratação oral com
líquidos habitualmente disponíveis no domicílio do paciente
(chás, cozimento de farinha de arroz, água de côco, e
outras mezinhas) ou com sais de reidratação oral (SRO).
Verificar,
quando indicado, se já foi coletado e encaminhado material
para diagnóstico. Caso contrário, realizar a coleta, que
pode ser feita de quatro formas diferentes: swab retal,
preferencialmente; "swab" fecal; fezes in natura e papel
de filtro (Quadro 2). Preencher a ficha de laboratório,
registrando com atenção se houve uso de antibiótico prévio
à coleta.
Verificar
se as medidas terapêuticas estão adequadas ao caso clínico
(antibiótico só para casos graves, contra-indicação de
antieméticos e antidiarréicos), conforme a padronização
(Quadro 1).
Verificar
se a notificação do caso/óbito foi feita.
Determinar
a fonte de infecção por ocasião da introdução da epidemia
em área indene ou em área de circulação com casos autóctones
esporádicos:
- reconstituindo
as atividades do paciente nos 10 dias que precederam
o início dos sintomas: história de deslocamentos (dentro
da própria área de ocorrência, rural ou urbana; de
área urbana para rural e vice-versa; de um município
para outro; de um estado para outro; de um país para
outro); tempo de permanência; alimentos consumidos;
- investigando
história de contato com caso compatível com cólera;
- procedendo
à verificação das fontes de abastecimento de água,
dos procedimentos de disposição dos dejetos e destino
do lixo; e
- verificando
as condições de preparo e utilização de alimentos,
bem como sua procedência.
Proceder
a coleta de material da(s) provável(eis) fonte(s) de infecção,
identificando, se possível, a provável fonte de contaminação.
Determinar
a extensão do problema levantando os casos de diarréia
no local de ocorrência e nas áreas de provável procedência
através de busca ativa.
Diagnóstico
Clínico-Epidemiológico
É
o critério utilizado na avaliação de um caso suspeito no
qual são correlacionadas variáveis clínicas e epidemiológicas
capazes de definir o diagnóstico sem investigação laboratorial.
Deve ser utilizado frente a pacientes com diarréia aquosa,
aguda, em maiores de 5 anos, em áreas onde há evidência
de circulação do Vibrio cholerae, ou seja, onde o
vibrião foi isolado em 5 ou mais amostras humanas ou ambientais.
O uso do critério clínico-epidemiológico possibilita maior
agilidade ao processo de diagnóstico, aumenta a sensibilidade
do sistema de detecção de casos, diminui os custos operacionais
do laboratório, liberando-o para o desempenho de outras
atividades. Em áreas onde há evidência de circulação do
V.cholerae, não se faz necessária a coleta de material para
exame de laboratório de todos os casos suspeitos. Esses
exames são feitos por amostragem (de acordo com a situação
epidemiológica local). Nessa situação, a função do laboratório
é a monitorização da circulação do vibrião, avaliação da
resistência aos antibióticos e detecção da introdução de
novos sorotipos em casos autóctones ou importados.
Definição
de Caso
Suspeito
Em
áreas sem evidência de circulação do V.cholerae patogênico
(sorogrupos O1 e O139):
-
qualquer indivíduo, independente de faixa etária,
proveniente de áreas onde estejam ocorrendo casos
de cólera, que apresente diarréia aquosa aguda até
o décimo dia de sua chegada (tempo correspondente
a 2 vezes o período máximo de incubação de cólera,
a fim de garantir maior segurança da vigilância);
- os
comunicantes domiciliares de caso suspeito, de acordo
com o item anterior, que apresentem diarréia;
-
qualquer indivíduo com diarréia, independente de
faixa etária, que cohabite com pessoas que retornaram
de áreas endêmicas ou epidêmicas, há menos de 30
dias (tempo correspondente ao período de transmissibilidade
do portador somado ao dobro do período de incubação
da doença); e
- todo
indivíduo com mais de 10 anos de idade, que apresente
diarréia súbita, líquida e abundante.
A
presença de desidratação rápida, acidose e colapso circulatório
reforça a suspeita. Em locais onde a sensibilidade e a
capacidade operacional do Sistema de Vigilância Epidemiológica
permitam, esse limite deverá ser modificado para maiores
de 05 anos (especificamente áreas de risco ainda sem casos).
Em
áreas com evidência de circulação do V.cholerae patogênico
(onde o V.cholerae O1 já foi isolado em pelo menos 5 amostras
de casos autóctones ou no meio ambiente):
-
qualquer indivíduo que apresente diarréia aguda, independente
de faixa etária.
Confirmado
por Laboratório: qualquer
indivíduo com diarréia, que apresente isolamento de Vibrio
cholerae nas fezes ou vômitos.
Confirmado
pelo Critério Clínico-Epidemiológico: esse critério
de confirmação correlaciona variáveis clínicas e epidemiológicas.
Nessa situação, um exame laboratorial com resultado negativo
para cólera não descarta o caso, a menos que tenha sido
identificado outro agente etiológico.
Em
áreas sem evidência de circulação do Vibrio cholerae:
-
qualquer indivíduo, com 5 ou mais anos de idade, proveniente
de área com circulação de Vibrio cholerae,
que apresente diarréia aquosa aguda até o décimo dia
de sua chegada. Esse caso será considerado caso importado
para a região onde foi atendido desde que tenha sido
afastado laboratorialmente outra etiologia e será
considerado autóctone para a região da qual procedeu.
Em
áreas com circulação do Vibrio cholerae:
-
qualquer indivíduo, com 5 ou mais anos de idade, que
apresente diarréia aguda, desde que não haja diagnóstico
clínico e/ou laboratorial de outra etiologia; e
- menores
de 5 anos de idade que apresentem diarréia aguda e
história de contato com caso de cólera, num prazo
de dez dias, desde que não haja diagnóstico clínico
e/ou laboratorial de outra patologia.
Observação:
no caso de paciente adulto proveniente de área de circulação
do Vibrio cholerae, um exame laboratorial com resultado
negativo para Vibrio cholerae, sem isolamento de
outro agente etiológico, não descarta o caso, pois deve-se
levar em consideração a intermitência na eliminação do
vibrião e a possibilidade de ocorrer coleta e/ou transporte
inadequado da amostra.
Importado:
é o caso em que se pode identificar que a infecção
ocorreu em área diferente daquela onde foi diagnosticado
ou tratado, ou onde teve a sua evolução. Do ponto de vista
da vigilância epidemiológica, o caso importado somente
merece ser especificado como tal em áreas de risco silenciosa
ou de baixa incidência, pela pouca probabilidade de se
contrair a doença nesse local, ou por se tratar de caso
índice, que exige uma investigação especial para a adoção
das medidas de controle. Nessa situação particular, muda
o fluxo da notificação e essa deve ser feita para o local
de procedência, acompanhada de ficha de investigação epidemiológica
já iniciada, para ser completada no que se refere à(s)
fonte(s) de infecção(ões) e de outras informações epidemiológicas
relevantes.
Descartado:
serão considerados descartados todos os casos que não
se enquadrem nas definições de casos confirmados.
Portador:
indivíduos que, sem enfermidade clínica ou com enfermidade
sub-clínica, eliminam o vibrião por determinado período.
São de particular importância para a vigilância epidemiológica
porque, muitas vezes, são os responsáveis pela introdução
da epidemia em área indene e pela manutenção da endemia.
Busca
Ativa de Casos:
é a maneira de se tomar conhecimento de casos suspeitos
que não foram detectados e/ou notificados pelas unidades
de saúde. A busca ativa deve ser realizada nos domicílios
(contatos), na comunidade, nos serviços de saúde, farmácias,
etc.
Busca
Ativa em Áreas Silenciosas: a inexistência de casos
numa determinada área nem sempre significa que a doença
não esteja ocorrendo. A falta de conhecimento sobre a doença,
a ocorrência de oligossintomáticos e o difícil acesso da
população aos serviços de saúde contribuem para a existência
de áreas silenciosas. Nesse sentido, em áreas de risco,
deve ser feita a busca ativa com a finalidade da detecção
precoce dos casos e tomada das medidas cabíveis.
Monitorização
do Meio Ambiente
Uma
maneira de se tomar conhecimento da circulação do Vibrio
cholerae em uma área, antes mesmo de serem detectados
os casos clínicos, é através da monitorização do meio ambiente.
Essa atividade reveste-se de grande importância em áreas
indenes, sobretudo naquelas consideradas de risco para a
cólera, com vistas à detecção precoce da circulação do vibrião
(Quadro 4).
Análise
dos Dados
Os
dados deverão ser analisados de modo a permitir o acompanhamento
da tendência da doença. Essa análise compreende os seguintes
aspectos principais:
-
distribuição semanal dos casos e óbitos, por procedência;
- distribuição
dos casos e óbitos por faixa etária e sexo;
- coeficientes
de incidência e mortalidade;
-
taxas de letalidade;
- distribuição
dos casos segundo a evolução;
- distribuição
dos casos segundo o critério de confirmação;
- distribuição
dos casos segundo o tipo de atendimento, etc.
Medidas de controle
As principais medidas de controle da cólera compreendem:
-
oferta de água de boa qualidade e em quantidade suficiente;
- destino
e tratamento adequado dos dejetos;
- destino
adequado do lixo;
- educação
em saúde;
- controle
de portos, aeroportos e rodoviárias;
- higiene
dos alimentos;
- disposição
e manejo adequado de cadáveres.
O
controle do movimento de pessoas e do comércio entre os
países não é justificável uma vez que não impede a introdução
da cólera num país ou área, a não ser quando especificamente
indicado em bases epidemiológicas. Esse tipo de imposição
somente dificulta a informação e impede a colaboração bilateral
e internacional e a preparação de esforços no controle da
cólera. É importante ressaltar que as medidas coletivas
(cloração da água, melhorias sanitárias, vigilância de transportes,
educação em saúde etc.) devem ser realizadas sistematicamente,
independente da existência ou não de casos, particularmente
em áreas de risco e em áreas onde já existe circulação do
Vibrio cholerae. Nesses casos, o órgão de vigilância
epidemiológica indica as áreas onde essas medidas devem
ser fortalecidas ou demandam ações diferenciadas. Em áreas
onde não existe circulação de Vibrio cholerae, a
introdução de casos importados ou a chegada de transportes
oriundos de áreas contaminadas funciona como alerta para
o desencadeamento de ações de controle, de educação em saúde
e monitoramento de mananciais.
Quimioprofilaxia
Não
é mais indicada a quimioprofilaxia de contatos domiciliares,
porque a mesma se mostrou ineficaz para conter a propagação
da epidemia pelas seguintes razões: dificuldade de realizar
o tratamento supervisionado de todos os contatos e mantê-los
isolados da fonte de infecção; e pela curta duração do efeito
do antibiótico. Além disso, a administração de antibióticos
pode trazer sérias conseqüências, tais como a alteração
da flora intestinal, que modifica a suscetibilidade à infecção
colérica nos indivíduos sãos e pode provocar o aparecimento
de cepas resistentes de vibriões e outras bactérias. É também
importante ressaltar que a quimioprofilaxia desvia atenção
e recursos que deveriam estar voltados para outras medidas
de vigilância e controle, realmente eficazes.
Vacinação
Não
é indicada como medida preventiva porque as vacinas disponíveis
apresentam baixa eficácia (menor de 50%) e curta duração
da imunidade (em torno de 3 meses). A vacina também não
altera a severidade da doença nem reduz a taxa de infecções
assintomáticas. Além disso, dá a falsa impressão de segurança
às pessoas vacinadas e sentimento de realização e satisfação
às autoridades de saúde, que conseqüentemente podem negligenciar
as precauções mais efetivas.
Isolamento e Desinfecção
Hospitalização
com as precauções para casos entéricos, lavagem rigorosa
das mãos e procedimentos básicos de higiene. Importante
pôr em prática medidas de controle das moscas.
Desinfecção
concorrente de fezes, vômitos, vestuário e roupa de cama
dos pacientes, por meio de desinfetantes (solução clorada).
Onde
houver comissão local de controle de Infecção Hospitalar
(CCIH), esta deve ser comunicada.
Quadro
3
Como Avaliar o Estado de Hidratação do Paciente
| 1.
CONDIÇÃO |
Bem
alerta |
Irritado
Intranqüilo |
Comatoso
Hipotônico* |
| OLHOS |
normais |
fundos |
muito
fundos |
| LÁGRIMAS |
presentes |
ausentes |
ausentes |
| BOCA
E LÍNGUA |
úmidas
|
secas
|
muito
secas |
| SEDE |
bebe
normalmente |
sedento,
bebe rápido e avidamente |
bebe
com dificuldade ou é incapaz de beber* |
| 2.
EXPLORE |
|
|
|
| SINAL
DE PREGA |
desaparece
rapidamente |
desaparece
lentamente |
muito
lentamente (mais de 2 segundos) |
| PULSO |
cheio
|
rápido,
débil |
muito
débil ou ausente* |
| ENCHIMENTO
CAPILAR (1) |
normal
(até 3 seg.) |
prejudicado
(de 3-5 seg.) |
muito
prejudicado* (mais de 5 seg.) |
| 3.
DECIDA |
se
não tem sinais de desidratação s |
e
apresentou dois ou mais sinais acima tem desidratação
|
se
apresenta com 2 ou mais sinais incluindo pelo menos
1 sinal * tem desidratação grave. |
1. O examinador comprime com a própria mão, a mão fechada
da criança durante 15 segundos. O examinador retira sua
mão e observa o tempo para a volta da coloração normal da
palma da mão da criança.
A
avaliação periférica é muito importante para as crianças,
principalmente as desnutridas, nas quais os outros sinais
de desidratação (elasticidade da pele, olhos etc.) são de
difícil apreciação.
Quadro
4
Cólera - Monitorização do Meio Ambiente
Roteiro para Coleta de Material do Ambiente
| Instrumento
|
Método
da Coleta |
Procedimento |
| MECHA
- SWAB DE MOORE |
Resíduos
líquidos:
Manter a mecha submersa no local por 48 horas.
Retirar
com cuidado e introduzir em frasco com boca larga,
estéril, com tampa e contendo 300 ml de APA 3 vezes
concentrada |
Enviar
logo ao laboratório (o ideal é entre 2 a 6 horas).
Resiste no máximo até 24 horas sob refrigeração. |
| OBS.:
Os pontos de coleta são definidos pelo nível local,
enquanto o número de amostras e a periodicidade dependem
da capacidade operacional do laboratório. |
Situação atual da doença
A
cólera experimentou seu pico epidêmico em 1993, com 60.340
casos. Os esforços do sistema de saúde conseguiram reduzir
esses valores em mais de 13 vezes (92%), apesar da insatisfatória
condição sanitária de parte da população, que cria um ambiente
favorável para a disseminação e persistência dessa doença.
Em
1998 e 1999, a seca que ocorreu na região Nordeste, onde
se instalou uma severa crise de abastecimento de água, inclusive
nas capitais, favoreceu a possibilidade de recrudescimento
da doença, com o Ministério da Saúde reforçando as ações
de prevenção e de vigilância epidemiológica nessa região,
tendo o Ministro José Serra lançado uma campanha de educação
sanitária e distribuição de hipoclorito de sódio, por intermédio
do Programa de Agentes Comunitários de Saúde, no município
de Major Isidoro, Alagoas. A FUNASA também aplicou cerca
de R$ 2,3 milhões em convênios com as secretarias estaduais
de saúde para fortalecer o monitoramento das bacias hidrográficas
da região Nordeste, além de R$ 5,2 milhões em ações de abastecimento
de água na região atingida pela seca.
A
cólera atualmente manifesta-se sob a forma de surtos, principalmente
nas pequenas localidades do Nordeste, onde há dificuldade
de acesso à água tratada e deficiência de esgotamento sanitário.
Ocorreu um surto no porto de Paranaguá, em 1999, provavelmente
ocasionado por caminhoneiros originários do Nordeste, que
foi controlado em poucas semanas, demonstrando a capacidade
de resposta do setor saúde no rápido controle e eliminação
dessa doença onde as condições sanitárias são favoráveis.
No
ano de 2000 a cólera apresentou uma redução importante,
tanto no número de casos, como na área geográfica em que
se manifesta. Foram registrados apenas 753 casos, atingindo
principalmente dois estados da região Nordeste, Pernambuco
e Alagoas, o que determinou uma redução significativa em
relação a 1999 (-83,7%).
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