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Tabagismo e câncer bucal

Prof. Dr. Jayro Guimarães Jr.
Da Disciplina de Semiologia do Departamento de Estomatologia da
Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo.
Cirurgião-dentista crendenciado.


Leucoplasia (manchas brancas) e estomatite nicotínica (inflamação provocada pelo tabaco)

O consumo de cigarros é a mais devastadora causa de doenças e mortes prematuras da história da humanidade. O mais trágico é que é uma causa perfeitamente evitável. O consumo do tabaco é uma epidemia global, provocando, a cada ano, a morte de quatro milhões de pessoas em todo o mundo A Organização Mundial da Saúde - OMS coletou mais de 60 mil pesquisas publicadas em diversos lugares do mundo, comprovando a relação causal entre o consumo do cigarro e doenças graves como câncer de pulmão (90% dos casos), enfisema pulmonar (80%), infarto do miocárdio (25%), bronquite crônica e derrame cerebral (40%). Calcula-se que cada cigarro fumado diminua sete minutos de vida.

Segundo a American Cancer Society, 400 mil americanos morrem de câncer de pulmão a cada ano, o que provoca enormes repercussões políticas e econômicas, como a perda de dias de trabalho e diminuição da produtividade, e deveria causar maiores preocupações que as provocadas pelos recentes atos de bioterrorismo com a bactéria do antrax. A indústria tabaqueira conseguiu se livrar de processos judiciais movidos por pacientes ou parentes das vítimas porque a relação entre tabaco e câncer esteve sempre baseada em dados estatísticos, isto é, observava-se que a doença ocorria em maior número em pessoas que fumavam, e não por dados bioquímicos, ou seja, a prova cabal que o tabaco alterava a constituição da célula. Isto mudou em 1996, quando se demonstrou que uma substância presente na fumaça do tabaco, o epóxido de benzoapireno diol, causa modificações genéticas típicas em um gene, conhecido como p-53, o principal responsável pela eliminação de tumores no nosso organismo. Estas alterações genéticas estão presentes na grande maioria dos cânceres produzidos no nosso organismo. Outras centenas de substâncias produzidas pelo tabaco estão sendo estudadas para compreender os malefícios do vício sobre a saúde humana.

Os não-fumantes expostos à fumaça do cigarro (fumantes passivos) absorvem nicotina, monóxido de carbono e outras centenas de substâncias da mesma forma que os fumantes, embora em menor quantidade. A quantidade de tóxicos absorvidos depende da extensão e da intensidade da exposição, além da qualidade da ventilação do ambiente onde se encontra a pessoa.

Fumar durante a gravidez é muito arriscado. Quando a mulher grávida fuma, abortos espontâneos, nascimentos prematuros, bebês de baixo peso, mortes fetais e de recém-nascidos, complicações com a placenta e episódios de hemorragia (sangramento) ocorrem mais freqüentemente. A gestante que fuma apresenta mais complicações durante o parto e têm o dobro de chances de ter um bebê de menor peso e menor comprimento, comparando-se com a grávida que não fuma.Tais efeitos são devidos, principalmente, aos efeitos do monóxido de carbono e da nicotina exercidos sobre o feto, após a absorção pelo organismo materno.

Todas as apresentações de cigarros têm uma composição nociva, não importando se são lights, extra-lights, baixos teores, ou o que mais inventem. O fumante costuma compensar fumando mais.


Carcinoma epidermóide: câncer bucal mais comum

Apesar dos avisos encontrados nas embalagens e da intensa propaganda sobre os malefícios do cigarro, a quantidade de fumantes é apreciável. O consumo vem diminuindo entre as pessoas de meia-idade, mas aumentando entre os escolares, particularmente entre os do sexo feminino. São vítimas da publicidade direta feita em jornais, revistas, competições esportivas, cartazes e outros meios; e da publicidade indireta, como, por exemplo, observamos numa mini-série televisiva recente onde todos fumavam desbragadamente em todos os capítulos.

Além dos jovens, as mulheres vêm sendo claramente identificadas como um importante grupo-alvo das duas formas de publicidade, tanto em países desenvolvidos como naqueles em desenvolvimento. O maior número de consumidores está nas classes de menor poder aquisitivo, o que é uma perversidade ainda maior. Os ambientes mais confinados, onde as classes mais pobres vivem, favorecem os males causados nos fumantes passivos.

Embora a indústria do tabaco argumente que a elevação dos impostos que incidem sobre os produtos do tabaco é discriminatória porque atinge com maior intensidade as camadas mais desfavorecidas da população, são exatamente estas camadas as que têm menos acesso às campanhas educativas para saúde e, portanto, as mais suscetíveis à publicidade enganosa dos produtos do fumo.

As primeiras suspeitas sobre a relação do tabaco e o câncer bucal datam do século 18. Esta relação foi estabelecida firmemente por estudos populacionais que mostraram que o câncer bucal ocorre, pelo menos, duas vezes mais em fumantes do que em não fumantes. Os estudos mostram que os que tiveram câncer bucal, e foram curados, têm uma enorme possibilidade de apresentar tumores malignos em outros locais, principalmente se forem fumantes. Um em cada quatro pacientes desenvolve outro câncer na boca ou faringe num tempo médio de cinco anos, se não deixar de fumar.

Os fumantes de cachimbo podem apresentar câncer de lábio com maior probabilidade que os não-fumantes. Como este hábito vem decrescendo, a incidência de câncer de lábio vem também caindo, mas, ligeiramente, pois este câncer é causado também por outros fatores como o excesso de radiação solar.

O câncer bucal pode ser precedido por uma mancha ou placa branco-leitosa que não é removida por uma fricção com gaze ou algodão e que, no exame microscópico de uma biopsia, não podemos classificar como outra doença conhecida, que chamamos de leucoplasia. Esta é uma lesão benigna, mas que em cerca de 5% pode vir a se tornar maligna, devendo ser diagnosticada, se possível, removida e, se não, acompanhada através de exames periódicos por profissional experimentado. Menos freqüentemente o câncer bucal pode ser precedido por uma mancha avermelhada. O câncer bucal manifesta-se em mais de 90% dos casos como uma ferida que vai aumentando progressivamente de tamanho e profundidade, sendo que as suas bordas costumam ficar mais altas que o centro da ferida. Na periferia podemos ou não observar algumas manchas brancas como descrito para as leucoplasias. A dor está freqüentemente presente, mas pode não estar. Pode ou não haver ínguas na região do pescoço. Os locais em que aparecem mais freqüentemente, em ordem de importância, são língua, faringe, lábios (principalmente o inferior), assoalho da boca, gengiva, mucosa da bochecha, e palato.

Enfatizamos que posturas individuais alarmistas não são necessárias. As doenças mais comuns na boca são as infecciosas e as manchas brancas e as feridas podem ser causadas por outras doenças de natureza inteiramente diferente. O que aconselhamos é que, ao se notar algumas destas alterações, o melhor a fazer é procurar serenamente o diagnóstico. O que não se pode é ignorá-las.

Quanto ao tabaco, o melhor é abandonar o hábito imediatamente. Reconhecem-se as dificuldades, mas não há necessidade de tentar sem ajuda. Uma abordagem multiprofissional certamente será o melhor a ser adotado. Falaremos sobre isto em outros artigos. Até lá, aconselhamos aos fumantes a começar a preparar o espírito. Já temos problemas inevitáveis em demasia para continuarmos a manter os evitáveis.

Meu endereço eletrônico jgjunior@uol.com.br está à disposição para o esclarecimento de eventuais dúvidas.


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