Vacinas
em clínicas privadas
Antes de entrarmos
no assunto propriamente dito, devemos lembrar que o capítulo
das imunizações é um dos mais magníficos
na história da medicina. Se, como afirmado, o século
XX foi o "século das imunizações"
este nos reserva progressos inimagináveis neste campo.
Em meados do
século passado (século XX) se imaginava que
o combate às infecções estava ganho
com o uso dos antibióticos e das vacinas. O que se
viu foi que os antibióticos , entre muitos fatores,
mas principalmente pelo mau uso, estão perdendo esta
luta contra as bactérias numa velocidade cada vez
maior. Por outro lado, o maior inimigo das vacinas é
o seu próprio sucesso, pois se deve manter o estímulo
das vacinações contra doenças já
controladas ou erradicadas há alguns anos. Cabe a
nós, médicos, de adulto e de crianças
manter a motivação de nossos pacientes e não
entregar este papel às (epidemias) causadas por baixas
na cobertura vacinal de doenças pensadas como já
controladas.
Os esquemas
de vacinação são feitos na rede pública
e também na rede privada. Nos Estados Unidos 50%
das vacinas são aplicadas na rede privada. Em alguns
países desenvolvidos uma porcentagem ainda maior
é feita na rede privada.
Como em muitos
ramos da medicina as inovações, os progressos,
são primeiro assimilados pela rede privada, para
só depois, por pressão da comunidade, serem
implementados na rede governamental.
Porém,
a instalação de um serviço de imunização
é muito mais complexa, ou deveria ser, do que a simples
instituição de uma área para aplicação
de vacinas. O serviço de imunização
para ter suas doses de imunobiológicos aplicadas,
reconhecidas como válidas, deve obedecer regulamentos
legais nas esferas federal, estadual e municipal, além
de atender às disposições dos conselhos
estaduais de medicina e enfermagem.
Como serviço
de imunização é, portanto, obrigado
a cumprir as normas e regulamentos existentes, entende-se
que qualquer consultório, clínica ou hospital
aplique vacinas com regularidade.
Todas as informações
e orientações necessárias, tanto legais,
quanto técnicas, podem ser consultadas no capitulo
9 da ultima edição (4 ª) do livro "Imunizações.
Fundamentos e Prática" do Dr. Calil K. Farhat.
Dentre os inúmeros
procedimentos técnicos que devem ser seguidos para
o funcionamento adequado de um serviço de imunização,
tanto público como privado, um merece destaque especial:
a conservação dos imunobiológicos.
A perda de potência ou a inativação
de um imunobiológico, nem sempre é constatada
pela simples verificação visual. A perda de
eficácia dos imunobiológicos por falhas no
armazenamento é muito mais comum do que se imagina.
No Canadá,
em estudo realizado em 20 serviços, escolhidos ao
acaso, foi verificado que em 60% deles as vacinas estavam
sendo armazenadas em temperatura acima de 8 ºC.
Nos Estados
Unidos, uma pesquisa realizada em 50 consultórios
e clínicas constatou que em somente 16% as pessoas
responsáveis tinham conhecimento da temperatura correta
de armazenamento de imunobiológicos. Na Grã-Bretanha
o resultado foi pior, em 40 serviços pesquisados,
somente 20% usavam termômetros em seus refrigeradores!
É um
campo fértil para debates se, na esfera das imunizações,
o interesse coletivo está peremptoriamente acima
do individual. Uma única razão, a meu ver,
impede que todas, ou ao menos a grande maioria das vacinas
disponíveis, não sejam oferecidas na rede
pública; o seu custo. Principalmente em países
pobres, onde os responsáveis pela saúde pública
tem que gerir os poucos recursos disponíveis sempre
pensando nas prioridades imediata. Temos o direito de omitir
a existência de vacinas preventivas ao grande público?
Devemos omitir os riscos, raros mais importantes, de determinadas
vacinas e os meios de evita-las? Isto ficara muito claro,
ao falarmos agora das vacinas disponíveis exclusivamente
nos serviços privados.
Estas vacinas,
são basicamente, as vacinas novas, ou registradas
a pouco tempo no país e as vacinas combinadas.
Com o grande
aumento no arsenal de vacinas disponíveis a grande
tendência é a combinação de várias
vacinas numa só aplicação, evitando
que se transforme as crianças numa "almofada
de alfinetes".
Poliomielite
A vacina Sabin,
uma magnífica vacina que erradicou a pólio
da maior parte do mundo, apesar de suas grandes qualidades,
carrega consigo a ameaça da poliomielite vacinal.
A pólio vacinal pode deixar seqüelas idênticas
as da doença pelo vírus selvagem.
O risco de
"acidente" vacinal é extremamente baixo,
mas numa situação de quase erradicação
em nível global (existem focos somente na Índia,
países Africanos e alguns casos na Turquia) faz com
que estes raros casos de pólio vacinal adquiram um
caráter catastrófico.
A alternativa,
já adotada nos EEUU, é o uso exclusivo da
vacina inativada (Salk) com o risco zero de pólio
vacinal. Uma das desvantagens da vacina Salk é o
desenvolvimento de uma baixa imunidade em nível intestinal
o que, mesmo protegendo contra infecção, não
evitaria a disseminação do vírus selvagem
nas fezes do paciente em caso de contato (e contagio) com
uma pessoa infectada. A desvantagem da vacina Salk ser de
aplicação intramuscular é agora anulada,
pela liberação de vacinas combinado-a com
a vacina tríplice bacteriana e a vacina anto-Hemophilus
influenzae do tipo B.
Vacina Dupla Infantil
(DT)
Nos raros casos
de contra-indicação absoluta da vacina DPT
(leia-se pertussis) pode-se usar a vacina dupla infantil
que contém os toxóides tetânico e diftérico,
em crianças com menos de 7 anos de idade. As contra-indicações
absolutas da vacina DPT são:
- Idade > 7 anos;
- Doença neurológica
em evolução;
- Aparecimento de encefalopatia
nos primeiros 7 dias pós-vacinação;
- Reação anafilática
após dose prévia.
BCG Percutânea
Desenvolvida
no Japão pela alta incidência de cicatrizes
hipertróficas e quelóides naquela população
após aplicação de BCG intradérmica.
Usada a mais de 40 anos neste país. É o único
método licenciado para aplicação desta
vacina nos Estados Unidos.
Vacina Monovalente contra
Caxumba
Usada em raras
ocasiões quando existe certeza da ocorrência
de sarampo e rubéola no passado. Deve ser aplicada
naquelas crianças que receberam a vacina bivalente
contra sarampo e rubéola. Não esquecer que
a caxumba é a principal causa de surdez neurossensorial
na infância.
DPT acelular
Vacina desenvolvida
no Japão onde foi licenciada em 1981. sua eficácia
é igual a DPT de células inteiras, porém
a ocorrência de reações adversas diminui
em até 70% com o seu uso. As
contra-indicações da DPT de células
inteiras também o são para a DPT acelular.
Sempre que possível a DPT acelular deve ser usada
como alternativa à DPT, principalmente naquelas crianças
que apresentaram reações sérias no
passado. A DPT acelular
pode ser usada para completar o esquema vacinal de crianças
que o iniciaram com a DPT convencional. Já
está para ser liberada a PDT acelular para uso em
adolescentes e adultos, visto que a DPT acelular para uso
infantil não pode ser usada nesta faixa etária
pelo seu alto teor antígeno diftérico.
Hepatite A
A hepatite
A, principalmente em crianças, é uma doença
benigna e que não leva à cronicidade. No entretanto,
a gravidade vai aumentando proporcionalmente a idade do
paciente. A hepatite A que cursa na forma fulminante, leva
rapidamente ao óbito a menos que seja realizado um
transplante hepático. A incidência da forma
fulminante varia de 0,3% em crianças pequenas até
2% em adultos com mais de 40 anos. Deve-se citar que quanto
melhor o perfil socioeconômico de uma população
maior a porcentagem de adolescentes e adultos jovens que
serão suscetíveis a hepatite A, faixa etária
está mais relacionadas com as formas graves e prolongadas
da doença.
Vacina anti-rábica
A vacina normalmente
utilizada na rede pública é a Fuenzalida e
Palácios que é produzida com vírus
cultivados em meios de cultura originados de cérebro
de camundongo recém-nascidos. Pela presença
de mielina esta vacina pode causar reações
neurológicas graves tipo Guillain-Barré. A
incidência relatada é de 1 caso para 8 mil
pacientes tratados. Vacinas produzidas em cultivos isentos
de tecido nervoso são disponíveis na rede
privada, com a vantagem de um número menor de doses
e uma taxa de reações neurológicas
muito menor (1:500.000 tratamentos). O esquema iniciado
com a Fuenzalida pode ser completado com a vacina isenta
de tecido nervoso.
Meningocócica
As vacinas
antimeningocócicas A-C e B-C, ainda que disponíveis
na rede privada, só devem ser aplicadas em situações
de epidemia ou sob prescrição médica.
A ética médica deve prevalecer ao se lidar
com a doença meningocócica, pois esta sempre
acompanhada de um alto grau de ansiedade dos pais, deixando-os
extremamente vulneráveis a indicações
de vacinação, baseadas em interesses outros
que não o da boa conduta médica.
Varicela
A varicela
é uma doença de mortalidade, baixa mais de
morbidade alta. Além de trazer grandes prejuízos
econômicos pela falta ao trabalho dos pais, ela pode
acarretar complicações sérias (septicemia
pelo Estreptococo Beta-hemolítico).
Estas complicações
podem acometer pacientes aparentemente saudáveis,
mas principalmente os imunodeficientes, portadores de doenças
malignas, gestantes e como é característico
das doenças infantis, ela é mais grave em
adolescentes e adultos. O Herpes-Zoster é uma reativação
do vírus da varicela. Uma característica importante
desta vacina é que ela pode, se usada até
5 dias após o contato com pessoa infectada, evitar
ou ao menos atenuar a doença. Pacientes imunocomprometidos
(inclusive HIV+) podem e devem receber a vacina, seguindo-se
alguns cuidados básicos.
Vacinas combinadas
Apesar de alguns
relatos iniciais de diminuição de anticorpogênese
com o uso de certas combinações estas se mostraram
ter diminuído a eficácia das vacinas na prevenção
das doenças. Estas combinações deverão
ser implementadas, pois o grande número de vacinas
disponíveis a serem disponibilizadas num futuro próximo,
inviabilizarão qualquer calendário vacinal,
se o número de "picadas" não for
racionalizado. São eles:
- DPT acelular
- DPT + Hemofilus tipo B
- DPT + Hepatite B
- Hepatite B + Hepatite A
- DT: Difteria + Tétano
tipo infantil
- Salk + DPT acelular + Hemofilus
tipo B
- Salk + DPT + Hemofilus B
Estas são combinações
existentes no nosso meio. Inúmeras outras já
existem em outros países ou estão para serem
liberadas como:
- Salk + DPT
- MMR + Varicela
- Salk + DPT + Hepatite B +
Hemofilus tipo B
Imunoglobulinas
Neste caso
não se trata de vacinação e sim de
imunização, pois os anticorpos já são
administrados "prontos". São elas: Gamaglobulina
Standart: usada em profilaxia pós-exposição
de hepatite A, seu uso provavelmente será substituído
pelo uso precoce da hepatite A (14 dias). O período
de incubação logo da doença permite
o uso profilático da vacina que, além de evitar
a doença, promoverá imunidade duradoura e
evitará o uso de um produto biológico de origem
humana.
Gamaglobulina Hiper-imune
Anti-Hepatite B (HbiG)
Usada na profilaxia
pós-exposição ao vírus da hepatite
B em acidentes punctórios, de mucosas ou contato
sexual com o portador (eficácia 75%). Profilaxia
de recém-nascidos de mães portadoras do vírus
da hepatite B (eficácia 95%). Tem sido usada, em
relatos esporádicos, para "tratamento"
de portadores crônicos do vírus da hepatite
B, juntamente com a vacina (uso ainda sem conclusões
definitivas). A HbiG
também pode ser usada para proteção
de pacientes com infecção severa e recorrente
pelo vírus da hepatite B após transplante
de fígado ou terapia imunossupressora.
Imunoglobulina Anti-RH
Licenciada
em 1968 para profilaxia de isoimunização Rh.
A freqüência de mulheres Rh negativas varia de
população para população:
Caucasianas ..........................................................
15%
Negras ...................................................................
8%
Espanhóis bascos ..................................................
34%
Asiáticos e índios norte-americanos .........................
quase 100% são Rh positivos.
O risco de
isoimunização de mulheres Rh negativas após
a primeira gestação de um feto Rh positivo
é de 8%. Na segunda gestação este risco
aumenta para 16%. Este risco aumenta com o número
de grstações de fetos Rh+, podendo chegar
a 80%. Quase 30% das
mulheres apresentam hemácias fetais na sua circulação
no terceiro trimestre da gravidez.
A amniocentese
feita com ultra-som diminui de 11% para 2,5% o risco de
hemorragia transplacentária durante o procedimento.
O antígeno Rh
tem sido demonstrado na circulação fetal,
tão cedo quanto 6 semanas pós-concepção,
por causa disto um aborto pode levar à isomunização,
variando esta chance entre 2% e 5,5%.
A dose-padrão
de imunoglobulina anti-Rh é 300mcg nas primeiras
72 horas pós parto de uma mãe Rh- e recém-nascido
Rh+. Outras indicações são pós-amniocentese,
pós-aborto. A
incidência de isomunização Rh em mães
que receberam a imunoglobulina adequadamente no pós-parto
gira em torno de 2%. O uso de 300mcg da imunoglobulina em
mães Rh- na 28 ª semana de gestação
diminui este risco para 0,2% (10x menos!).
Para finalizar,
a que salientar que todas estas vacinas e imunoglobulinas
encontradas exclusivamente na rede privada são disponíveis
gratuitamente nos Centros de Referência de imunobiológicos
especiais, para casos selecionados e mediante prescrição
médica.
Ref: Revista
Jovem Médico - páginas 253, 254 e 255 de
04/00
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