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Imunização dos trabalhadores

Devido ao contato freqüente com pacientes ou com material infectado, muitos trabalhadores em áreas de saúde (TAS), como médicos, enfermeiros, estudantes de medicina e enfermagem, dentistas e técnicos de laboratórios, estão expostos a riscos de adquirir doenças transmissíveis preveníveis através de vacinação. Programas de vacinação podem reduzir substancialmente o número de trabalhadores suscetíveis a riscos de adquirirem doenças transmissíveis preveníveis, bem como proteger os pacientes de adquirir tais doenças de trabalhadores infectados.

Os trabalhadores em áreas de saúde podem adquirir e transmitir hepatite B, gripe, sarampo, caxumba, rubéola, varicela; que são todas as doenças preveníveis com vacinas. Para que possamos otimizar um programa de prevenção e controle dessas doenças, podemos dividi-las em três grupos.

Grupo 1

Aquelas em que a imunização ativa é extremamente recomendada por causa do risco específico aos trabalhadores em áreas de saúde; hepatite por vírus B, vírus influenzae, sarampo, caxumba, rubéola, varicela e tuberculose.

Hepatite por vírus B

É a infecção de maior risco para o TAS, através de exposição a sangue e outros fluidos orgânicos. Cerca de 5% a 10% dos TAS infectados com HBV se tornam crônicos, podendo evoluir com hepatite crônica ativa, cirrose e maiores possibilidades de desenvolver hepatocarcinoma.

Qualquer TAS que execute tarefas envolvendo contato com sangue, fluidos corpóreos contaminados com sangue ou não, ou com maior risco de acidentes perfuro-cortantes deve ser vacinado. A vacina contra hepatite B deve sempre ser administrada por via intramuscular no músculo desltóide, num total de três doses, seguindo um intervalo mínimo de 30 dias entre a primeira e a segunda dose e de 5 meses entre a segunda e a terceira dose.

Uma avaliação sorológica pré-vacinação para identificar indivíduos que tenham tido contato prévio com HBV, não é indicado, a não ser para efeito de pesquisa, pois a relação custo/benefício não é favorável.

Entre 30 e 60 dias após a terceira dose, os TAS que desenvolvem atividades com maior risco de exposição ao HBV, devem ser testados para determinar os níveis séricos de anti-Hbs pós-vacinal. Os que apresentarem títulos superiores a 10 mil/ml, deverão ser submetidos a uma nova série vacinal de três doses, ou pesquisados quanto à possibilidade de serem HbsAg positivos. Os níveis de anticorpos induzidos pela vacina anti-HBV diminuem gradualmente com o tempo, e aproximadamente 60% das pessoas que inicialmente responderam a vacinação apresentarão níveis indetectáveis de anticorpos após 12 anos. A despeito disso, estudos entre adultos têm demonstrado que a imunidade induzida pela vacina continua a prevenir contra infecções pelo HBV. Por esse motivo, doses de reforço e monitorização sorológica periódica não são consideradas necessárias.

O uso de imunoglobulina-HBV (HBIG) deve ser considerada após exposição percutânea ou permucosa com sangue ou outros fluidos corpóreos vindos do paciente sabidamente ou suspeito de ser HbsSg positivo, em TAS não vacinados ou não soropositivos após vacinação, é administrada, de preferência, dentro de 24 horas após a exposição; e iniciada a série de vacinação aos previamente não vacinados. A efetividade do HBIG administrada após sete dias da exposição é desconhecida.

Influenzae (gripe)

A transmissão do vírus influenzae entre os TAS e entre estes e os pacientes, aumenta consideravelmente nos períodos de outono e inverno. Ocasionando aumento do absenteísmo e das complicações nos pacientes de alto risco com infecções por influenzae.

A vacinação contra influenzae deve ser feita no início do outono de cada ano (no Brasil entre os meses de março e abril) e indicada principalmente para:

pessoas que atendam pacientes de alto risco para complicações com influenzae;
pessoas com idade igual ou superior a 65 anos;
pessoas com certas doenças crônica como: doenças cardiovasculares, pulmonares, diabetes mellitus, disfunções renais, hemoglobinopatias e imunossuprimidos (incluindo infectados pelo HIV);
gestantes que estejam no segundo ou terceiro trimestre de gravidez.
Sarampo, caxumba e rubéola

A imunidade para essas doenças é altamente desejável entre os TAS, principalmente naqueles que trabalhem em unidades de proto-socorro ou em contato com crianças (enfermarias de pediatria, creches, etc..). Qualquer TAS que seja suscetível, se exposto, pode contrair e transmitir sarampo, caxumba e rubéola.

Pessoas com menos de 40 anos de idade podem ser consideradas imunes somente se tiverem:

a) diagnóstico médico de sarampo, caxumba e rubéola;
b) evidências laboratoriais de doença prévia;
c) carteira de vacinação comprovando imunização adequada. A avaliação sorológica antes da vacinação não é necessária.

A vacina trivalente (MMR) é a de escolha. Mulheres grávidas não devem ser vacinadas, pois o risco de comprometimento do feto pelo vírus vivo da vacina não pode ser excluído. Bem como, as mulheres vacinadas devem ser orientadas a evitar a gravidez por período de três meses após a vacinação. Portadores de HIV+ com severo comprometimento imunológico não devem ser vacinados.

Varicela

A imunização para varicela é particularmente recomendada para os TAS suscetíveis que tenham contato próximo com pacientes de alto risco para sérias complicações

a) crianças prematuras nascidas de mães suscetíveis
b) crianças nascidas com menos de 28 semanas de gestação ou com peso inferior a 1000g independente do estado imunológico materno
c) gestantes
d) imunocomprometidos a avaliação sorológica pré-vacinal não é necessária, bem como não é recomendado teste de controle pós-vacinal, visto que mais de 90% dos vacinados são soropositivos após a segunda dose da vacina.

Tuberculose

No Brasil se recomenda a criação de um programa específico para controle e prevenção de tuberculose nos TAS. Recomenda-se a vacinação com BCG dos TAS que sejam PPD não reatores e trabalhem:

a) em locais de alta prevalência de pacientes infectados com TBC pulmonar e laríngea
b) em locais com alta porcentagem de pacientes infectados com M.tuberculosis multirresistente.
Os trabalhadores com indicação com BCG devem ser orientados sobre as reações de vacina, assim como sobre a discutível eficácia da vacina sobre a forma pulmonar da doença. Os portadores de imunodeficiência (transplantados, Sida, etc.) não devem receber a vacina BCG.

Grupo 2

Aquelas para as quais a imunoprofilaxia é ou pode ser indicada em certas circunstâncias: hepatite por vírus A, meningococcemia e febre tifóide.

Hepatite por vírus A

A vacinação de rotina contra HAV em TAS não é indicada, sendo recomendada apenas nos casos de trabalhadores com menos de 40 anos de idade, que atuem em campo (p.e., agentes de saúde) e visitem pacientes em localidades de alta prevalência de hepatite A ou em casos de surtos.

A avaliação sorológica pré-vacinal não é necessária. O uso de imunoglobulina para HAV está indicado nos casos de exposição comprovada de trabalhadores possivelmente suscetíveis e deve ser administrada até duas semanas após exposição.

Doença miningocóccica e tifo

A vacinação contra estas doenças é recomendada apenas em caso de surtos epidêmicos. Nos casos de exposição do TAS ao meningococo se recomenda a profilaxia pós-exposição com rifampicina, ciprofloxacina ou ceftriaxona. A vacinação com febre tifóide pode ser recomendada para trabalhadores de laboratório de microbiologia que manipulem com muita freqüência culturas de Salmonella typhi.

Grupo 3

Aquelas em que a proteção é recomendada para todos os adultos; difteria, tétano e pneumococo.

Tétano e difteria

A vacinação de adultos não previamente vacinados consiste de três doses da dupla adulto (Td-tétano e difteria), com 4 a 6 semanas de intervalo entre a primeira e a segunda dose, e 6 a 12 meses para a terceira dose. Doses de reforço são recomendadas a todas as pessoas a cada 10 anos.

Doença pneumocócica

A vacina antipneumocócica é recomendada nas seguintes situações:

  • Pessoas com idade igual ou superior a 65 anos;
  • Pessoas com 2 a 64 anos portadoras de doenças crônicas que aumentem o risco de infecção pelos pneumococos e suas complicações; doenças cardiovasculares, doenças pulmonares crônicas, diabetes mellitus, alcoolismo, hepatopatia crônica;
  • Esplenectomizados (funcional ou anatomicamente);
  • Pessoas de 2 a 64 anos imunocomprometidos;
  • infectados com HIV, portadores de doenças hematológicas, transplantados, usuários de drogas imunossupressoras.

É importante ressaltar que um programa de vacinação de TAS não pode limitar-se apenas aos funcionários já em atividade, mas deve criar condições para a avaliação do estado de proteção imunológica dos funcionários recém-contratados, já no exame pré-admissional, através de análise de questionário sobre doenças prévias e agentes imunológicos já recebidos, e disponibilizar a estes recém-contratados as vacinas que se fizerem necessárias.

O Hospital Israelita Albert Einstein, desde 1997, oferece um programa de vacinação aos seus funcionários, realizando rotineiramente a aplicação das vacinas: MMR, contra hepatite B e antigripal (anualmente nos meses de março e abril). Está em fase de implantação o programa de controle e prevenção de tuberculose nos seus funcionários.

Ref: Revista Jovem Médico - páginas 242 e 243 abril/00


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