O
Projeto Genoma encontra menos genes humanos do que se imaginava
e abre a corrida pelo estudo de proteínas relacionadas
a doenças.
"Trezentos
genes, num universo de 30 mil, separam o homem do camundongo".
Assim, dita de chofre, a informação dos cientistas
que decifraram a essência biológica do ser
humano é desconcertante. Os genes são tijolos
químicos dentro das células que contêm
instruções sobre as características
de cada indivíduo e o funcionamento do organismo.
O achado significa que a receita usada pela natureza para
criar o homem teria quase a mesma quantidade de ingredientes
necessários para construir o rato. No dia 12, os
especialistas apresentaram os resultados do Projeto Genoma
Humano, esforço internacional para determinar a seqüência
das letras químicas que regulam a vida. Surpreenderam
platéias em anúncios simultâneos realizados
em Washington, Londres, Paris, Berlim, Tóquio e Pequim.
A tarefa monumental
consumiu uma década de trabalho de milhares de pesquisadores.
O que eles fizeram equivale a pôr em ordem todas as
palavras de um livro defeituoso, cheio de páginas
embaralhadas. O projeto recebeu contribuições
específicas de cientistas de todo o mundo, inclusive
informações do Projeto Genoma Câncer,
desenvolvido em São Paulo. A conquista promete revolucionar
a medicina nas próximas décadas. A descoberta
de genes responsáveis por 800 enfermidades, como
o mal de Alzheimer, a doença de Parkinson, a esquizofrenia
e o glaucoma, permite o desenvolvimento de testes genéticos
de diagnóstico. Nos Estados Unidos, uma gota de sangue
já é capaz de indicar a propensão a
certas moléstias mesmo em pessoas saudáveis.
A produção de medicamentos terá um
novo paradigma. Atualmente, os remédios atacam cerca
de 500 alvos no organismo.
Com base no
Projeto Genoma Humano, os cientistas deverão identificar
milhares de novos destinatários para as drogas. O
estudo também abre novas perspectivas para terapias
genéticas - promessas de cura por meio da alteração
de genes defeituosos. A descoberta da seqüência
do DNA humano foi feita por dois grupos rivais. De um lado,
há a equipe do consórcio público internacional,
liderada pelo cientista americano Francis Collins. De outro,
o pesquisador Craig Venter, dissidente do núcleo
original e fundador da empresa Celera. As conclusões
golpeiam as teorias deterministas que atribuem todas as
mazelas humanas à herança dos genes. "Nossa
complexidade emergiu de outras fontes, de nossa rica interação
com o planeta", diz Collins. "O tamanho do código
genético em si é pouco importante", afirma
o bioquímico Marcelo Valle de Sousa, do Centro Brasileiro
de Serviços e Pesquisas em Proteínas, da Universidade
de Brasília.
O que faz
do homem um ser vivo capaz de chegar à Lua, apesar
dos poucos genes de vantagem em relação a
outros seres, é a riqueza de combinações
entre as proteínas que o organismo humano produz.
Os pesquisadores partem agora para o estudo dessas proteínas,
fabricadas por ordem dos genes. Querem descobrir suas funções
e as incontáveis combinações. "Os
últimos dez anos foram os do genoma; os próximos
100 serão os das proteínas", diz Sousa.
As palavras do livro da vida estão ordenadas, mas
ainda não é possível compreender o
sentido exato delas. "Temos de acabar com a idéia
de que falta pouco para entendermos o papel dos genes".

Nenhum dos
dois grupos conseguiu identificar todos os genes humanos,
como haviam planejado. Nos artigos publicados pelas duas
principais revistas científicas do mundo, a britânica
Nature e a americana Science, os pesquisadores saíram
pela tangente. Estimam que o homem possua entre 26 mil e
40 mil genes. É pouco, perto dos 100 mil que esperavam
encontrar. Para criar um verme, a natureza precisa de 19
mil genes. "Os artigos provam que os autores não
têm idéia de quantos genes compõem o
corpo humano; por enquanto, só lhes resta especular",
diz o bioquímico Andrew Simpson, do Instituto Ludwig
de Pesquisas sobre o Câncer, em São Paulo.
No meio do caminho, Venter e Collins perceberam que as ferramentas
não diferenciavam os genes de outras estruturas semelhantes.
Chegaram a
um mapa imperfeito numa área em que só havia
escuridão. O geneticista Sérgio Penna, da
Universidade Federal de Minas Gerais, usa uma metáfora
com os bandeirantes paulistas para explicar o significado
da descoberta: "Recebemos um mapa com a localização
de pedras preciosas, mas temos dificuldade para distinguir
esmeraldas de turmalinas". A análise das proteínas
levará à produção de medicamentos
mais eficientes e personalizados. As indústrias começam
a procurar moléculas capazes de acoplar-se exatamente
ao formato das proteínas e bloquear doenças.
A oferta de remédios poderá variar de pessoa
para pessoa, de acordo com o metabolismo de cada uma. O
Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos e
o Instituto Ludwig, de São Paulo, divisaram um atalho.
Em vez de
buscar a seqüência completa do DNA, estrutura
celular em forma de hélice que abriga o código
genético, analisam apenas o RNA mensageiro, elemento
que possui informações para a síntese
de proteínas. Quando encontram tais estruturas sabem
que há um gene por perto. Dessa forma, o Projeto
Genoma Câncer desenvolvido no Brasil localizou 1 milhão
de fragmentos de genes, um terço do trabalho realizado
no mundo sobre a doença. O esforço permite
criar testes para detectar a propensão ao câncer
hereditário. Atualmente, são conhecidas 50
alterações em genes relacionados à
doença. Ainda há muito o que fazer. Com 61
páginas, o principal artigo publicado pela equipe
de Francis Collins na Nature termina com uma frase do poeta
americano T.S. Eliot, morto em 1965: "O final de toda
nossa exploração será chegar aonde
começamos e conhecer esse lugar pela primeira vez".
Revela o espírito do trabalho sem fim que os aguarda.
1990
Tem início o Projeto Genoma Humano, financiado pelos
EUA em colaboração com cinco países
1992
O biólogo Craig Venter desliga-se do projeto internacional
e cria um centro paralelo de pesquisas
1993
O cientista Francis Collins, da Universidade de Michigan,
é nomeado diretor do consórcio internacional
1998
Venter funda a empresa Celera. Promete seqüenciar todo
o genoma humano antes do grupo oficial
2000
Venter e Collins apresentam um rascunho do genoma humano
2001
A primeira análise do código genético
humano é revelada pelos grupos rivais simultaneamente