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Freud está vivo!

Tenho a responsabilidade de inaugurar e coordenar editorialmente a louvável atitude da revista "Viver Psicologia" em abrir a seção "psicanálise " em suas edições. Em uma época onde predominam as pesquisas neurofisiológicas e a tecnologia, presente cada dia mais em nossas vidas, é fundamental perceber como a psicanálise é atual e pode ajudar as pessoas a viverem melhor, de maneira a se sentirem mais contentes, menos solitárias e mais satisfeitas. Daí o título de abertura desta seção.

Logicamente, Freud, como pessoa física, não está mais entre nós, infelizmente. Digo infelizmente porque ele seria um digno cientista da sociedade contemporânea, com seu espírito investigador, instigador, aberto à reformulações de sua teoria diante de novas descobertas e sua coragem. Porém, ele nos deixou um corpo teórico e um conjunto de conhecimentos que foram inseridos na cultura e no cabedal do saber humano. Quando afirmamos que Freud está vivo, dizemos que a psicanálise está cada vez mais viva. Freud, é o "pai" da psicologia e da psicanálise, representando-a. Seu legado foi ampliado por outros psicanalistas que aderiram e ampliaram o corpo teórico psicanalítico, como Melanie Klein, Bion e Winnicott, somente para citar alguns. A psicanálise está presente nos fundamentos de quase todas as teorias científicas atuais.

O desenvolvimento psíquico ocorre através da elaboração de experiências emocionais desde o nosso nascimento. Essas experiências emocionais acontecem primeiramente no contato interpessoal mãe - bebê, estendendo-se para o meio familiar e o de grupo. O ser humano busca o crescimento e desenvolvimento para se sentir autônomo, impulsionado por seus desejos, seu próprio desenvolvimento e necessidades biológicas e por exigências do mundo externo. Na busca do amadurecimento emocional, o homem descobre e trava uma luta sem trégua para atingir seu crescimento e durante este processo almeja repousar um pouco. Neste repouso, imagina poder existir um mundo de gratificação rápida e pronta, um lugar aonde não haja espera, onde exista plenitude total, o mundo do prazer nirvânico.

O ser humano, por ser um animal que reflete a seu próprio respeito e simboliza, durante o seu desenvolvimento tem de lidar com algumas angústias cruciais: a angústia da sua finitude, a morte; a angústia por saber que precisa de outras pessoas, para satisfazer suas necessidades, que são independentes e autônomas dela, isto é a discriminação eu - outro, e a angústia de que não será satisfeito de acordo com seu desejo, ou seja a frustração. É no momento da vivência dessas angústias que o ser humano deseja que exista um lugar aonde haja somente o prazer e seja desnecessário o pensar sobre suas emoções, tentando assim fugir do desprazer.

A psicanálise nos ensina que é próprio da pessoa tentar controlar aquilo que é intrinsecamente característico do ser humano, tentando livrar-se da percepção e consciência do que acontece consigo, uma vez que imagina que é devido à elas que sente dor mental. Atualmente, por exemplo, uma das maneiras de lidar com as emoções desagradáveis é trocar a realidade que efetivamente existe por uma realidade virtual. Neste caso, os jogos eletrônicos e a realidade virtual substituem a relação "pessoa a pessoa", isto é os espaços lúdicos interpessoais que possibilitam a experiência e a elaboração emocionais.

Outra maneira contemporânea de evitar o sentimento doloroso da experiência humana é confundir o funcionamento do cérebro com o da vida psíquica. Desta forma, a química presente no funcionamento cerebral, e não a linguagem, comandaria não somente o cérebro mas também a mente. Os resultados inestimáveis das atuais pesquisas neurofisiológicas podem ser usados, nos dias de hoje, para evitar os sentimentos de angústia frente ao viver. A farmacologia atual utilizada desta maneira propicia um alívio para a angústia, oferecendo uma forma de evitação das emoções desagradáveis. A psicanálise propõe-se a trabalhar com as pessoas buscando, expressando-me de maneira bem sumária, instrumentalizá-las para lidar com suas emoções. Trabalhamos com a formação de símbolos , isto é a maneira como cada pessoa incorpora suas experiências de vida e molda seu funcionamento psíquico, tentando ampliar seu mundo mental, oferecendo a ela possibilidades de transformar seus sentimentos, ajudando-a a enfrentar as vicissitudes do viver humano, participando da cultura a que pertence de forma criativa. Assim, a angústia impeditiva da atividade cotidiana diminuirá, buscando um tônus que poderá permitir a participação no viver de maneira mais livre.

Na sociedade contemporânea está em jogo um modelo de Homem que tenta se livrar daquilo que sente em contrapartida a um outro que pode elaborar as angústias de sua condição humana. O homem pode utilizar-se da tecnologia e suas descobertas a favor do próprio crescimento, ou ser uma máquina que produz e usa as descobertas para se livrar daquilo que é próprio do ser humano. Neste último caso, teremos como conseqüência uma cultura "computadorizada" e, no primeiro, a cultura estaria enriquecida com novas formas de expressão.

Através da psicanálise podemos conhecer como a mente é constituída e se organiza para elaborar as emoções que o ser humano experiencia desde seu nascimento até a maturidade. Deste ponto de vista, a psicanálise é um método de compreender os processos de funcionamento mental e dos estágios de desenvolvimento psíquico do ser humano, isto é um corpo teórico sobre o desenvolvimento e atividades mentais. Este conjunto teórico traz consigo uma técnica de investigação sobre a constituição e funcionamento da mente humana. Esta técnica possibilita um tratamento clínico para ajudar as pessoas a tomarem conhecimento de si mesmas, de seus mecanismos de lidar com as emoções e, assim, uma maneira de modificar seu sofrimento de forma propícia à utilização de todo seu ser.

O trabalho psicanalítico ocorre numa relação analista - analisando, em um ambiente de extrema intimidade e respeito ao analisando. Acontece numa relação viva, íntima e protegida entre 2 pessoas, com funções diferentes, favorecendo que o analisando perceba e entre em contato com seu funcionamento e sofrimento mentais e, assim, possa ampliar seus recursos emocionais. Isso é possível porque a relação psicanalítica está livre de outras funções presentes na atividade e convivência cotidianas. Nesta relação, o analisando, junto com seu analista, viverá toda a história de seu desenvolvimento psíquico e, aproximando-se do funcionamento de sua mente, poderá descobrir novas maneiras de lidar com o seu sofrimento mental. Mente, que só existe devido a existência do cérebro, concebida como um lugar aonde o impacto das experiências emocionais são "digeridos" pela pessoa, propiciando-lhe significado e compreensão para sua vida.

Saciado de explicações científicas advindas dos diferentes ramos das ciências, uma das grandes preocupações do homem da sociedade atual é lidar com a angústia que é gerada nele mesmo. A psicanálise oferece uma oportunidade única das pessoas conseguirem um desenvolvimento mental através do contato com a realidade, seja essa experiência mais ou menos dolorosa, interessando-se na busca pela verdadeira experiência humana. Assim, o interesse em viver estaria ligado ao respeito pelas qualidades constituintes do que é estar vivo, diferentemente de uma máquina ou um objeto inanimado, enriquecendo as pessoas, a sociedade e a cultura.

Gostaria de terminar pedindo aos leitores que enviem sugestões de temas que gostariam de ver aqui comentados, através de cartas para a redação ou meu endereço eletrônico gevertz@sbpsp.org.br ou gevertz@osite.com.br. Procurarei psicanalistas que se sintam em condições de escrever sobre os assuntos e, talvez por isso, haja uma certa demora na publicação. Mas, tanto quanto possível, é meu desejo que esta seção esteja muito próxima de seus leitores.

Fonte: Suely Gevertz - Psicóloga e psicanalista. Professora no Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. Membro efetivo do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. Professora do Centro de estudos e pesquisa em psicanálise, no curso de pós-graduação Lato Sensu em Teoria psicanalítica, da Universidade São Marcos. Psicanalista pelo Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


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