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O paraíso da internet

Atire a primeira pedra quem nunca pensou, ao menos uma vez, em estar em um lugar onde não houvesse exigências e responsabilidades, o amor fosse incondicional, todas as pessoas seriam ilimitadas, bonitas, sem defeitos e perfeitas e, principalmente, todos os desejos seriam prontamente atendidos e satisfeitos. Este lugar idealizado e almejado denomina-se paraíso. Muitas idéias sócio-políticas-econômicas e religiosas são propostas para o atingir, seja nesta vida terrena ou em outra vida. Segundo esta linha de raciocínio, a vida terrena, a vida humana conforme a conhecemos e vivemos quotidianamente, seria o inferno. O que será que acontece para a vida ser assim sentida?

O desenvolvimento psíquico ocorre através da elaboração de experiências emocionais desde o nosso nascimento. Essas experiências acontecem primeiramente no contato interpessoal mãe - bebê, estendendo-se para o meio familiar e o de grupo. O ser humano busca o crescimento e desenvolvimento para se sentir autônomo, impulsionado por seus desejos, seu próprio desenvolvimento e necessidades biológicas e por exigências do mundo externo. Na busca do amadurecimento emocional, o homem descobre e trava uma luta sem trégua para atingir seu crescimento e durante este processo almeja repousar um pouco.

Durante o seu desenvolvimento, o ser humano tem de lidar com algumas angústias cruciais: a angústia da sua finitude, a morte; a angústia por saber que precisa de outras pessoas, para satisfazer suas necessidades, que são independentes e autônomas dela, isto é a discriminação eu - outro, e a angústia de que não será satisfeito de acordo com seu desejo, ou seja a frustração. A cada momento de sua vida, a pessoa vive e reatualiza situações de conflitos onde estão presentes essas angústias. Para lidar com elas, o ser humano pode utilizar-se de sua mente que, operando sobre essas experiências, fornecerá um sentido afetivo à elas e à sua vida, através da simbolização. É desta maneira que o ser humano pode pensar a respeito dessas experiências e refletir sobre sobre si mesmo, o que o diferencia dentro da escala animal. Uma outra maneira, aparentemente mais fácil, de lidar com os sentimentos dolorosos inerentes ao existir humano é sonhar com o paraíso, onde o pensar e refletir são desnecessários.

Sabemos que é próprio da pessoa tentar controlar aquilo que é intrinsecamente característico do ser humano, tentando livrar-se da percepção e consciência do que acontece consigo, uma vez que imagina que é devido à elas que sente dor mental. A modernidade nos oferece a Internet, entre outros, como instrumento possível de fuga da dor de existir e assim encontrar o repouso desejado durante a vivência das situações de conflito, isto é viver no paraíso. É importante salientar que a Internet aparece com o desenvolvimento da tecnologia que tornou possível e necessária à implantação e continuidade de uma sociedade mundial globalizada. A rede mundial de computadores permite uma comunicação mais rápida e fácil com toda e qualquer pessoa, conhecida ou não, um intercâmbio entre diferentes culturas e sociedades, auxilia nos desenvolvimentos técnico e científico e oferece acesso irrestrito e ilimitado a toda e qualquer informação que se queira. A Internet utilizada como instrumento de comunicação estará se somando aos recursos das pessoas e da sociedade como um todo. Porém, se usada como possibilidade de encontrar o paraíso, lugar de resolução dos conflitos humanos, serve para superficializar e banalizar o ser humano. Como isso pode acontecer?

Atualmente, os jogos eletrônicos e a realidade virtual freqüentemente substituem os espaços lúdicos interpessoais que possibilitam a experiência e a elaboração emocionais. Servem como substitutos da relação pessoa a pessoa, necessária para o desenvolvimento e enriquecimento psíquicos, tornando a vida humana parecer um jogo com um objetivo a ser atingido, onde se acerta ou erra, ganha ou perde, etc. As experiências humanas passam a ser dicotomizadas: certa ou errada, boa ou má, por exemplo, ficando, assim, mais fáceis de serem controladas. O contato humano se dá entre um ser humano e uma máquina tirando a riqueza emocional da relação interpessoal, mas as dores do viver e angústias são evitadas.

No mundo virtual tudo pode: não existem limites, finitude. Uma pessoa pode se apresentar a outra como gostaria de ser e de ser vista, ou se mostrar como a pessoa com quem se comunica quer que ela seja. São vistas e se mostram numa tela de computador, através da visão de palavras. A realidade virtual, assim, pode passar a ser a extensão do eu, aonde estão projetados todos os desejos e busca de satisfação e com a qual nos relacionamos e nos identificamos, podendo muitas vezes substituir a própria realidade. A discriminação eu - outro fica, portanto, debilitada. A vida pode ser vivida como um jogo de videogame, ou num mundo de realidade virtual, onde o outro não existe, a não ser como extensão do eu, o outro que eu crio. Com a perda do sentido de separação eu - outro, as vivências de ausência e de falta podem ser dribladas. A realidade passa a ser substituída pela realidade virtual, a vida sendo vivida como uma ficção. No mundo virtual ficcional, a realidade sócio cultural vai se tornando cada vez mais ambígua, para poder conter dentro de si todas as diferenças como se fossem iguais. Ao tentar igualar as diferenças, o mundo nos resulta não problemático. A realidade virtual passa a ocupar o espaço da reflexão crítica, que antes era feita no relacionamento interpessoal. Evitando-se os sentimentos de separação, ausência e falta, o desenvolvimento psicoemocional do indivíduo fica obstruído.

Com o desaparecimento da discriminação eu - outro, ausência do sentimento de falta e a tentativa de driblar a vivência de limite, a mente funciona da mesma maneira que um músculo, como disse Bion, um psicanalista inglês contemporâneo, isto é, a mente passa a reagir aos intensos estímulos pronta e rapidamente, sem possibilidade de repercussão desses estímulos na esfera emocional. A mente perde a função de operar sobre as experiências emocionais e a vida psíquica passa a ser igualada ao funcionamento cerebral. Assim, a química presente no funcionamento cerebral comandaria o mundo emocional, e não mais a linguagem. O relacionamento interpessoal e a linguagem sendo ignoradas como estruturadoras do mundo psíquico reduzem a capacidade simbólica do ser humano, o que se contrapõe às concepções psicanalíticas de que o pensar só é possível na ausência do outro. Para isso, é necessário que o ser humano tolere ser diferente de todas as outras pessoas, reconheça suas características humanas e necessidades emocionais e possa se adequar à realidade para obter experiências prazerosas.

Imaginando que pode viver no paraíso da realidade virtual ficcional, a pessoa se empobrece enquanto ser humano, se desumaniza para não enfrentar a verdadeira experiência humana. Coloca-se num vazio, que se perpetua e se auto alimenta, trazendo sentimentos de isolamento e solidão. Do meu ponto de vista, apesar da dor psíquica, o interesse em viver deveria estar ligado ao respeito pelas qualidades constituintes do que é estar vivo, diferentemente de uma máquina ou um objeto inanimado, enriquecendo as pessoas, a sociedade e a cultura.

Fonte: Suely Gevertz - Psicóloga e psicanalista. Professora no Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. Membro efetivo do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo. Professora do Centro de estudos e pesquisa em psicanálise, no curso de pós-graduação Lato Sensu em Teoria psicanalítica, da Universidade São Marcos. Psicanalista pelo Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.


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