A Internet
é instrumento necessário para a implantação
e continuidade da sociedade globalizada. A globalização
é uma proposta sócio-política-econômica
para dar continuidade às organizações
das diferentes sociedades, uma vez que os antigos modelos
esgotaram-se. Traz a idéia de podermos pertencer
a uma comunidade global, com um aparente congraçamento
entre as diferentes sociedades, etnias, culturas, religiões
e economias, tentando esvaecer as diferenças. Para
que isso possa ocorrer, é imperativo haver uma forma
de comunicação eficaz e instantânea
de comunicação entre o mundo todo. No Pentágono
americano havia uma forma de comunicação entre
seus membros através de uma rede de computadores
interligados. Esta rede foi ampliada, nascendo assim a Internet,
rede mundial de comunicação eletrônica.
A Internet
possibilita comunicação rápida e fácil,
o intercâmbio entre diferentes culturas e acesso quase
ilimitado à informações. Neste sentido,
é formada por máquinas - computadores - que
se comunicam e um vasto banco de dados. Uma tecnologia que
também aumenta a possibilidade de nos aproximar de
pessoas que, de outra forma, provavelmente, seriam inatingíveis,
podendo ampliar nosso mundo relacional real; permite um
desenvolvimento cada vez mais aprimorado das pesquisas científicas,
trazendo conhecimento e aplicações inestimáveis
para as diferentes áreas de saúde, além
de estimular recursos pessoais antes não explorados.
Neste encontro, vou tentar aprofundar uma maneira especial
de utilizar este arranjo tecnológico: usá-lo
como se fosse um mundo relacional entre pessoas, vivido
como se ocorresse na realidade real.
Todos nós,
em maior ou menor grau, em diferentes momentos de vida,
já imaginamos habitar um lugar onde não houvesse
exigências e responsabilidades, o amor fosse incondicional,
todas as pessoas seriam ilimitadas, bonitas, sem defeitos
e perfeitas e, principalmente, todos os desejos seriam prontamente
atendidos e satisfeitos. Este lugar idealizado e almejado
denomina-se paraíso. Muitas doutrinas sociais, econômicas
e religiosas já foram formuladas com o objetivo de
atingi-lo, seja neste mundo ou em uma existência futura.
Segundo esta linha de raciocínio, a vida terrena,
a vida humana conforme a conhecemos e vivemos quotidianamente,
seria o inferno. O que será que acontece para a vida
ser assim sentida?
O desenvolvimento
psíquico ocorre através da elaboração
de experiências emocionais desde o nosso nascimento.
Essas experiências acontecem primeiramente no contato
interpessoal mãe - bebê, estendendo-se para
o meio familiar e o de grupo. O ser humano busca o crescimento
e desenvolvimento para se sentir autônomo, impulsionado
por seus desejos, seu próprio desenvolvimento e necessidades
biológicas e por exigências do mundo externo.
Na busca do amadurecimento emocional, o homem descobre e
trava uma luta sem trégua para atingir seu crescimento
e durante este processo almeja repousar um pouco.
Durante o seu
desenvolvimento, o ser humano tem de lidar com angústias
cruciais: a angústia da sua finitude, a morte; a
angústia por saber que precisa de outras pessoas,
para satisfazer suas necessidades, que são independentes
e autônomas dela, isto é a discriminação
eu - outro, e a angústia de que não será
satisfeito de acordo com seu desejo, ou seja a frustração.
A cada momento de sua vida, a pessoa vive e reatualiza situações
de conflitos onde estão presentes essas angústias.
Para lidar com elas, o ser humano pode utilizar-se de sua
mente que, operando sobre essas experiências, fornecerá
um sentido afetivo à elas e à sua vida, através
da simbolização. É desta maneira que
o ser humano pode pensar a respeito dessas experiências
e refletir sobre sobre si mesmo, o que o diferencia dentro
da escala animal. Uma outra maneira, aparentemente mais
fácil, de lidar com os sentimentos dolorosos inerentes
ao existir humano é imaginar encontrar o paraíso,
onde o pensar e refletir são desnecessários,
porque só existe o prazer.
Sabemos que
é próprio da pessoa tentar controlar aquilo
que é intrinsecamente característico do ser
humano, tentando livrar-se da percepção e
consciência do que acontece consigo, uma vez que imagina
que é devido à elas que sente dor mental.
A modernidade nos oferece a Internet, entre outros, como
instrumento possível de fuga da dor de existir e
assim encontrar o repouso desejado durante a vivência
das situações de conflito, isto é viver
no paraíso. Ou seja, a Internet pode ser vista como
o Éden moderno. Mas, como usar a Internet de tal
maneira a ocupar o espaço de resolução
dos conflitos emocionais?
Atualmente,
os jogos eletrônicos e a realidade virtual freqüentemente
substituem os espaços lúdicos interpessoais
que possibilitam a experiência e a elaboração
emocionais. Servem como substitutos da relação
pessoa a pessoa, necessária para o desenvolvimento
e enriquecimento psíquicos, tornando a vida humana
parecer um jogo com um objetivo a ser atingido, onde se
acerta ou erra, ganha ou perde, etc. As experiências
humanas passam a ser dicotomizadas: certa ou errada, boa
ou má, por exemplo, ficando, assim, mais fáceis
de serem controladas. O contato humano se dá entre
um ser humano e uma máquina tirando a riqueza emocional
da relação interpessoal, mas as dores do viver
e angústias são evitadas.
No mundo virtual
tudo pode: não existem limites, finitude. Uma pessoa
pode se apresentar a outra como gostaria de ser e de ser
vista, ou se mostrar como a pessoa com quem se comunica
quer que ela seja. São vistas e se mostram numa tela
de computador, através da visão de palavras.
A realidade virtual, assim, passa a ser a extensão
do eu, aonde estão projetados todos os desejos e
busca de satisfação e com a qual nos relacionamos
e nos identificamos, podendo muitas vezes substituir a própria
realidade. A discriminação eu - outro fica,
portanto, debilitada. A vida passa a ser vivida como um
jogo de videogame, ou num mundo de realidade virtual, onde
o outro não existe, a não ser como extensão
do eu, o outro que eu crio. Com a perda do sentido de separação
eu - outro, as vivências de ausência e de falta
podem ser dribladas. A realidade passa a ser substituída
pela realidade virtual, a vida sendo vivida como uma ficção.
No mundo virtual ficcional, a realidade vai se tornando
cada vez mais ambígua, para poder conter dentro de
si todas as diferenças como se fossem iguais. Ao
tentar igualar as diferenças, o mundo nos resulta
não problemático. A realidade virtual passa
a ocupar o espaço da reflexão crítica,
que antes era feita no relacionamento interpessoal. Evitando-se
os sentimentos de separação, ausência
e falta, o desenvolvimento psicoemocional do indivíduo
fica obstruído.
Com o desaparecimento
da discriminação eu - outro, ausência
do sentimento de falta e a tentativa de driblar a vivência
de limite, a mente funciona da mesma maneira que um músculo,
como disse Bion, um psicanalista inglês contemporâneo,
isto é, a mente passa a reagir aos intensos estímulos
pronta e rapidamente, sem possibilidade de repercussão
desses estímulos na esfera emocional. A mente perde
a função de operar sobre as experiências
emocionais e a vida psíquica passa a ser igualada
ao funcionamento cerebral. Assim, a química presente
no funcionamento cerebral comandaria o mundo emocional,
e não mais a linguagem. O relacionamento interpessoal
e a linguagem sendo ignoradas como estruturadoras do mundo
psíquico reduzem a capacidade simbólica do
ser humano, o que se contrapõe às concepções
psicanalíticas de que o pensar só é
possível na ausência do outro. Para isso, é
necessário que o ser humano tolere ser diferente
de todas as outras pessoas, reconheça suas características
humanas e necessidades emocionais e possa se adequar à
realidade para obter experiências prazerosas.
A Internet
usada como lugar de resolução dos conflitos
do viver serve para superficializar e banalizar o ser humano.
Imaginando poder viver no paraíso da realidade virtual
ficcional, a pessoa se empobrece enquanto ser humano, se
desumaniza para não enfrentar a verdadeira experiência
humana. Coloca-se num vazio, que se perpetua e se auto alimenta,
trazendo sentimentos de isolamento e solidão. Do
meu ponto de vista, apesar da dor psíquica, o interesse
em viver deveria estar ligado ao respeito pelas qualidades
constituintes do que é estar vivo, diferentemente
de uma máquina ou um objeto inanimado, enriquecendo
as pessoas, a sociedade e a cultura.