O desenvolvimento
psíquico ocorre através da elaboração
de experiências emocionais desde o nosso nascimento.
Essas experiências emocionais acontecem primeiramente
no contato interpessoal mãe - bebê, estendendo-se
para o meio familiar e de grupo. O ser humano busca o crescimento
e desenvolvimento para se sentir autônomo, impulsionado
por seus desejos, seu próprio desenvolvimento e necessidades
biológicas e por exigência do mundo externo.
Na busca do amadurecimento emocional, o homem descobre uma
luta sem trégua para atingir seu crescimento e durante
este processo almeja repousar um pouco. Neste repouso, imagina
poder existir um mundo de gratificação rápida
e pronta, um lugar aonde não haja espera, onde exista
plenitude total, o mundo do prazer nirvânico.
A globalização
nos apresentou um mundo menos estranho, mais interessante
e mais próximo a todos nós. Trouxe a idéia
de podermos pertencer a uma comunidade global, com um aparente
congraçamento entre as diferentes sociedades, etnias,
culturas, religiões e economias. Porém, a
busca desta união parece-me estar sendo utilizada
também para fugir da luta que todo ser humano enfrenta
durante sua existência.
Para se alcançar
a sociedade globalizada, é necessária a onipresença
dos meios de comunicação de massa. Com esses
meios, a aldeia global torna-se possível através
do desaparecimento das diferenças, tentando criar
realidades substitutivas àquela que efetivamente
existe. Por exemplo, atualmente, os jogos eletrônicos
e a realidade virtual substituem os espaços lúdicos
interpessoais, que possibilitam a experiência e a
elaboração emocionais. A aculturação
pelos meios de comunicação como substitutos
da aculturação "pessoa a pessoa"
na família nuclear é um fator importante na
psicopatologia da cultura atual.
No mundo virtual
cada um são todos e todos são iguais entre
si. Ele contém todas as informações
possíveis, porém cada um só seleciona
aquilo que deseja. Esses dados remetem a outros dados, que
remetem a novos dados e assim infinitamente. Qualquer pessoa
pode se apresentar a outra, em qualquer lugar do mundo e
estarão se vendo pela tela do computador, isto é,
as pessoas estarão se comunicando através
de palavras imagéticas, que podem ou não corresponder
a realidade efetiva. Ainda mais, a pessoa pode se apresentar
ao outro como ela quiser, assim como o outro pode ser visto
como se deseja que ele seja.
No mundo virtual
tudo pode: não existem limites, finutude. A realidade
virtual passa a ser literalmente a extensão do eu,
aonde estão projetados todos os desejos e busca de
satisfação e com a qual nos relacionamos e
nos identificamos, podendo muitas vezes substituir a própria
realidade. A discriminação eu - outro fica
debilitada. A utilização de videogames permite
jogar as brincadeiras mais perigosas sem nenhuma conseqüência
na prática. Penso que um dos motivos, entre outros,
para o aumento da violência que observamos hoje em
dia seja a indiscriminação eu - outro. A vida
pode ser vivida como um jogo de videogame, ou num mundo
de realidade virtual, aonde o outro não existe, a
não ser como extensão do eu, o outro que eu
crio.
Com a perda
do sentido de separação eu - outro, as vivências
de ausência e de falta podem ser dribladas. Neste
caminho de negar o contato com o conflito emocional, as
realidades substitutivas contribuem para o que atualmente
chamamos de adolescência tardia e um aumento nas psicopatogias
narcísicas que observamos hoje em nossos consultórios.
Evitando-se os sentimentos de separação, ausência
e falta o desenvolvimento psicoemocional do indivíduo
fica obstruído.
Numa sociedade
que busca equalizar identidade com igualdade, a identidade
e autonomia individual estão baseadas num funcionamento
imitativo, mágico e onipotente. Dos fenômenos
miméticos resulta a relativização de
valores bom - mau, certo - errado, etc. Os fenômenos
de mimeses grupais não são novos. Eles foram
potencializados com o surgimento da televisão e em
escala exponencial com a nova tecnologia da realidade virtual.
O funcionamento
imitativo, mágico e onipotente de mimeses grupais
é possível através da intensa estimulação
visual advinda dos meios de comunicação. A
globalização pode ser mitificada no sentido
de ser um modo de compreender o mundo: ao tentar igualar
as diferenças o mundo nos resulta não problemático.
A televisão busca a diversão e a informação
passa a ser um entretenimento ao invés de conduzir
para um aprofundamento ou reflexão dos fatos. A imprensa
escrita passa de reflexiva para apresentar flashes de notícias
já deglutidas. O brasão da sociedade globalizada
passa a ser o aniquilamento da reflexão, quando não
elemento de propaganda, tentando assim igualar as diferenças.
A realidade sócio cultural vai se tornando cada vez
mais ambígua, para poder conter dentro de si todas
as diferenças como se fossem iguais, todas as possibilidades
podem ser concretizadas como se fossem esperadas, perdendo-se
a capacidade de julgamento. Os meios de comunicação
de massa passam a ocupar o espaço da reflexão
crítica, que antes era feita no relacionamento interpessoal.
Com a evitação
dos sentimentos de separação, ausência
e falta e com a intensa estimulação visual
dos meios de comunicação, a mente funciona
como um músculo, como disse Bion, isto é,
a mente passa a reagir aos intensos estímulos pronta
e rapidamente, sem possibilidade de repercussão desses
estímulos na esfera emocional. A mente perde a função
de operar sobre as experiências emocionais, fornecendo
a elas uma representação simbólica.
A vida psíquica passa a ser igualada ao funcionamento
cerebral. Assim, a química presente no funcionamento
cerebral comandaria o mundo emocional, e não mais
a linguagem. Talvez seja essa razão, entre outras,
da grande propaganda da farmacologia feita atualmente na
mídia, como a solução mágica
para a resolução de nossos conflitos emocionais.
As palavras
sendo utilizadas como meios de estimulação
visual e a linguagem sendo ignorada como estruturadora do
mundo psíquico reduzem a capacidade simbólica
do ser humano. Equipara-se quantidade de informação
com crescimento mental, o que se contrapõe às
concepções psicanalíticas do pensar
como só sendo possível na ausência do
outro e como tolerância a frustração.
Todas as possibilidades
do existir humano buscam respostas nas pesquisas científicas
da psiconeurobiologia. Por exemplo, a descoberta de um gene
que determinaria a homossexualidade é alardeada nos
meios de comunicação. Esquece-se que a homossexualidade
é também uma maneira de vivenciar e estruturar
o prazer, o que determinará ao indivíduo uma
forma de elaborar suas experiências, determinará
uma estruturação de seu mundo mental diferente
do de outras pessoas e irá moldar seu mundo simbólico
e expressivo de forma peculiar. Isto a Biologia não
abrange. Porém, parece que também não
cabe no espaço da sociedade globalizada o peculiar.
O peculiar, o diferente, os conflitos afetivos na sociedade
global são banalizados, quando não vulgarizados.
Neste trabalho,
procurei salientar o que considero os pontos críticos
da globalização. A idéia da globalização
é fascinante e penso que devemos tomar cuidado para
não caírmos na paixão desta fascinação,
tentando utilizá-la como uma maneira de tentar evadir
de nossa condição humana. A globalização
já está em expansão e não tem
retorno. As observações que fiz tem o objetivo
de mostrar o cuidado que devemos ter para não perdemos
o que de bom a globalização acarreta: a possibilidade
de trocas rápidas de informação e conhecimento,
a facilidade com que isso pode ser feito, um desenvolvimento
técnico e científico cada vez mais aprimorado,
uma estimulação de aspectos não desenvolvidos
e um aperfeiçoamento de recursos já explorados,
um intercâmbio entre as diferentes culturas e sociedades
para suprir suas necessidades, desde que respeitadas as
suas diferenças.