O que é a medicina
nuclear?
Por: Dr.
Marcelo Tatit Sapienza
A Medicina
Nuclear é uma especialidade médica que utiliza
materiais radioativos com fins diagnósticos e terapêuticos.
A maioria dos procedimentos diagnósticos consiste
na obtenção de imagens (chamadas de mapeamento
ou cintilografia), que mostram a concentração
de materiais radioativos nos órgãos do paciente.
O termo “cintilografia” provém do equipamento
que detecta o material radioativo, chamado de câmara
de cintilação. O aparelho tem este nome porque
emite uma pequena luminosidade (ou cintilação)
ao detectar a radiação proveniente do paciente,
e é esta cintilação que será
convertida no sinal que irá formar a imagem.
A cintilografia
é diferente de outros métodos de imagem, como
por exemplo a radiografia simples ou o ultra-som, porque
tem por objetivo avaliar a função dos órgãos
e não apenas sua morfologia. A avaliação
funcional é baseada na capacidade que os órgãos
e células do nosso organismo têm de concentrar
e metabolizar diferentes substâncias. Ao administrarmos
compostos radioativos semelhantes a estas substâncias
naturalmente concentradas ou metabolizadas, passamos a ser
capazes de “enxergar” como é que nossos
órgãos e células estão trabalhando.
Muitos compostos
radioativos ou radiofármacos diferentes podem ser
utilizados para estudar a função de diferentes
estruturas. Deste modo, um tecido doente que tenha perdido
a capacidade de concentrar alguma substância será
visto como uma área de menor captação
do radiofármaco na cintilografia. Também pode
acontecer de um tecido doente apresentar excessiva afinidade
por outros compostos, aparecendo em um outro exame de medicina
nuclear como uma área com aumento da captação
de radiofármacos.
Como exemplo
dos conceitos citados acima, podemos citar a cintilografia
da tireóide. A cintilografia da tireóide pode
ser feita com o iodo radioativo, um elemento quimicamente
idêntico ao iodo encontrado na alimentação
e que serve como base para a síntese dos hormônios
da tireóide. A cintilografia da tireóide irá
demonstrar quais as áreas da tireóide que
estão sintetizando muito hormônio (que irão
apresentar excessiva concentração do iodo
radioativo) e as áreas que estão sintetizando
pouco hormônio (com baixa concentração
do iodo).
O intervalo
entre a administração do material radioativo
por via intravenosa ou oral e a sua concentração
irá depender de qual o composto utilizado e qual
a velocidade do metabolismo no órgão estudado.
Por este motivo, o intervalo para iniciar a obtenção
das imagens e a duração do estudo é
diferente para cada tipo de cintilografia.
As doses de
radiação dos procedimentos diagnósticos
em Medicina Nuclear são baixas e não provocam
efeitos colaterais, sendo semelhantes às doses de
um estudo radiológico convencional. Apesar da baixa
dose de radiação, os estudos de Medicina Nuclear
não devem ser realizados em mulheres grávidas.
As pacientes que estejam amamentando devem procurar orientação
médica antes da marcação do exame.
Não costuma existir qualquer outro tipo de reação
aos materiais injetados.
Radiação
- riscos e benefícios
Por: Luiz
Fernando Malvestiti
Denomina-se
radiação qualquer forma de propagação
de energia. No caso da medicina nuclear, os materiais usados
emitem um tipo de radiação denominada de radiação
gama, muito semelhante aos raios X. É a detecção
desta radiação que permite a obtenção
das imagens em medicina nuclear e outros métodos
radiológicos. Assim como as ondas de rádio
ou televisão, a radiação gama é
um tipo de onda eletromagnética, porém com
maior energia, sendo capaz de penetrar ou atravessar a matéria.
A interação da radiação gama
ou dos raios X com a matéria produz íons (átomos
com carga elétrica), motivo pelo qual são
chamadas de radiações ionizantes. No corpo
humano a ionização se faz principalmente pela
quebra de moléculas de água levando a formação
dos chamados radicais livres.
Há
um grande mito relacionado ao uso da radiação,
principalmente pelo fato de associá-la a riscos como
os de um vazamento em usinas nucleares ou de acidentes como
o ocorrido em Goiânia. É necessário
esclarecer que apesar de o termo radiação
ser o mesmo, as diferenças são enormes em
suas diferentes aplicações: no caso do acidente
em Goiânia, tratava-se de uma material que emitia
radiação de alta energia e de meia-vida longa
(césio-137, meia-vida: 30 anos, energia = 662 keV);
no caso de um reator nuclear (como o de Chernobyl) as quantidades
de material utilizadas são altamente radioativas,
pois implicam na liberação de grande quantidade
de energia para obtenção de eletricidade.
Bastante diferente
destes casos é a aplicação de material
radioativo com fins diagnósticos. Nesta situação
a quantidade de energia liberada pelo material radioativo
é a menor possível, apenas o suficiente para
fornecer a informação diagnóstica necessária.
Da mesma forma, a meia-vida também é pequena,
de forma que o material seja rapidamente eliminado. Além
disso, como o material geralmente não tem finalidade
terapêutica, não há necessidade de utilizar
um material de alta energia como o césio-137.
O principal
material empregado em medicina nuclear é o tecnécio-99m,
correspondendo a 80-90% dos exames realizados.O tecnécio-99m
emite radiação com energia de 140 keV e com
meia vida de 6 horas, ou seja, a cada 6 horas a radiação
emitida cai pela metade. Os 10-20% restantes dos exames
são realizados com tálio-201 (meia vida de
3 dias), gálio-67 (meia vida de 3 dias), iodo-131
(meia vida de 8 dias) e flúor-18 (meia vida de 2
horas). Exatamente por apresentar uma rápida redução
da atividade é que estes materiais podem ser administrados
com segurança para os pacientes, sem causar complicações
ou efeitos colaterais. Por todos esses motivos, a quantidade
de radiação envolvida nos exames de medicina
nuclear é pequena. Vejamos alguns exemplos de doses
de radiação proporcionados por alguns exames:
| Exame |
Dose
Absorvida (mGy) |
| Raio-X de coluna lombar
(perfil) |
30 |
| Exposição
Ambiental: altitude= 2 km, latitude = 50° |
1,7/ano |
| Cintilografia Óssea
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5 |
O
exame de cintilografia óssea foi tomado como exemplo
por ser um procedimento bastante freqüente em medicina
nuclear. Como pode ser visto, a dose absorvida de radiação
pelo paciente é inferior a outros procedimentos diagnósticos.
Além da cintilografia óssea, uma quantidade
muito grande de exames é realizada em medicina nuclear,
fornecendo informações e diagnósticos
que, em muitos casos, não seriam possíveis
por outros métodos diagnósticos.
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