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Afinal, quem são as mulheres de hoje?

O trabalho "A interpretação dos sonhos" inaugura a psicanálise, dentro da obra de Freud, porque nele Freud afirma a existência da mente humana e postula, pioneiramente, uma metapsicologia de quais elementos esta mente se constitui, como eles se relacionam entre si e como ela é formada. Após esta primeira teorização da mente, outras foram expressas pelo próprio Freud e seus seguidores. Esta primeira formulação não foi inventada por Freud. Se pudermos dar uma rápida olhada para o caminhar de sua gestação, veremos uma ligação desta postulação com o tema dessa mesa.

Freud, um médico vienense começa sua carreira de neurologista fazendo estágios em hospitais aonde se deparou com pacientes, em sua maioria mulheres, que apresentavam como sintomatologia paralisia em alguma parte de seu corpo. Esse sintoma não correspondia a nenhum dano neurológico que o pudesse explicar. Em outros hospitais onde estagiou, Freud encontrou sempre a mesma situação: mulheres com parte de seu corpo paralisada, sem justificativa médica para tal. Utilizando-se dos recursos psicoterapêuticos existentes na época, Freud concluiu que esses sintomas representavam a forma como aquelas mulheres lidaram com dolorosas emoções vivenciadas em momentos anteriores ao aparecimento do sintoma. Não é objetivo desta palestra fazer um histórico do desenvolvimento da técnica e do método psicanalíticos, mas estou apontado para o fato de que Freud começou sua carreira trabalhando com mulheres. E porque com mulheres? Talvez uma das respostas esteja no momento histórico em que vivia.

Até o fim do século passado e início deste, geralmente as mulheres não eram alfabetizadas e nem tinham ocupação profissional, não podiam votar e entrar sozinhas em um café ou restaurante. Eram educadas para casar, quase sempre sendo escolhidas por seus parceiros e com a anuência de seu pai. Era esperado também que tivessem filhos. Aquelas mulheres, que por algum motivo tinham de se sustentar, dispunham de pouco espaço no mercado de trabalho: geralmente, ocupavam-se em casas de família, costuravam ou eram prostitutas. Não tinham quase nenhum direito a fazer qualquer escolha, a não ser cuidar do marido, de sua família e de sua casa. E fantasiar. É trabalhando com essas mulheres, que de repente achavam que não mais podiam andar, gritavam de terror ou riam parecendo loucas, que Freud descobre a presença da mente funcionando, delatando, no corpo e no comportamento, que suas emoções e desejos não estão expressos e satisfeitos. Freud, então, tem de começar a pesquisar como funciona a mente humana, não somente quando aparece alguma sintomatologia, mas também como o psiquismo funciona cotidianamente. Penetra, então, no mistério da atividade do sonhar, função mental comum a todas as pessoas, para criar uma ciência que demonstre a existência da mente e seu funcionamento em todos os seres humanos.

O espírito investigador de Freud, sua coragem, perseverança e genialidade possibilitaram o nascimento da psicanálise e inspiraram sua continuidade e desenvolvimento. Vivemos num século onde o conhecimento estruturou-se trazendo quase todas as descobertas a respeito da natureza, a tecnologia desenvolveu-se de maneira singular e a cultura ampliou bastante suas possibilidades. Sem dúvida, um século de intensos acontecimentos e mudanças. A psicanálise aproveitou-se muito de todo esse crescimento, para não falar do muito que contribuiu para que o conhecimento e a cultura se ampliassem. Desde a primeira formulação de Freud do modelo da mente, a psicanálise esteve presente em todos os avanços do conhecimento e da cultura, passando a ser incorporada no cabedal do saber humano. Uma de suas importantes contribuições foi demonstrar a importância da sexualidade na vida humana. Falo de sexualidade e não de genitalidade, confusão tão comum. Sexualidade enquanto força vital presente no movimento que toda pessoa faz em direção ao crescimento e desenvolvimento durante sua existência, além de manifesta na busca do conhecimento e, assim, em cada cultura, oferecendo uma maneira de obter prazer e de conhecer e experienciar o mundo. A psicanálise mostrou que desde o nascimento o bebê existe como pessoa, tendo de lidar, através de sua frágil estrutura mental, com intensas emoções, obrigando-nos a considerar a vida emocional anterior à que existe na fase adulta. Demonstrou a importância da fase infantil da vida do ser humano, onde se aprende a lidar com as emoções advindas de seus desejos, sua necessidade imperiosa ao crescimento e busca de autonomia. Atualmente podemos observar que as crianças tem opinião própria, expressam seus sentimentos e, muitas vezes, nos espantam com sua afetividade. Durante o desenvolvimento de sua obra, Freud foi descobrindo e teorizando a respeito de como as pessoas se humanizam, lidam com suas emoções ao longo de sua existência e se desenvolvem emocionalmente, adentrando em uma cultura. Até os dias de hoje a psicanálise estuda a mente humana que, operando sobre as experiências emocionais, fornece-lhes um sentido e oferece um significado à vida de cada um de nós. A psicanálise ajudou a considerar cada pessoa em sua singularidade e a conceber um funcionamento mental para lidar com seus desejos, emoções, opiniões, limites e uma mente própria em cada momento de sua existência.

Acredito que as mulheres foram as que mais se beneficiaram do desenvolvimento da psicanálise. Desde 1900 as mulheres, percebendo-se como pessoas com potenciais não desenvolvidos, lutaram para ter iguais direitos aos dos homens, isto é, de se realizarem em alguma profissão, além de se ocupar da família, obter direito a votar, enfim de aumentar a utilização de suas capacidades enquanto seres humanos. Estou falando aqui de direito de cidadão. A mulher conseguiu perceber e mostrar ao mundo que é uma cidadã tanto quanto os homens. Nesses 100 anos a mulher lutou contra o preconceito de ser mulher. Sempre se fala que a luta da mulher é querer ser igual ao homem. Parece-me que existe outra confusão aqui. A mulher e o homem têm o mesmo direito enquanto cidadãos, mas nunca poderão ser iguais. Estamos frente a um dos limites inexoráveis da vida humana: uma mulher nunca poderá ser um homem e vice versa. Esse é um dos limites que marca as diferenças entre as pessoas. Se cada pessoa será diferente de outra devido a maneira como elaborou suas diversas experiências emocionais, o fato de pertencer a um gênero e não a outro aponta para formas diferentes de elaboração dessas experiências.

O desenvolvimento psíquico ocorre através da elaboração de experiências emocionais desde o nascimento. Essas experiências acontecem primeiramente no contato interpessoal mãe - bebê, estendendo-se para o meio familiar e o de grupo. Tanto a menina como o menino têm como primeiro objeto de amor a mãe. Todos os bebês, independentemente do gênero a que pertençam, tem como primeiro objeto de amor aquela pessoa que, ao cuidar de seu filho, transmite amor, segurança, conforto e proteção, humanizando a criança e trazendo-a para pertencer a uma cultura. Porém, os bebês crescem e em seu crescimento tem de enfrentar diferentes angústias. Durante o seu desenvolvimento, o ser humano tem de lidar com algumas angústias cruciais: a da descoberta de sua finitude; a angústia por saber que precisa de outras pessoas, para satisfazer suas necessidades, que são independentes e autônomas dela, isto é a discriminação eu - outro, e a angústia de que não será satisfeito de acordo com seu desejo, ou seja a frustração. A cada momento de sua vida, a pessoa vive e reatualiza situações de conflitos onde estão presentes essas angústias.

A masculinidade e a feminilidade são formados a partir do momento em que a criança reconhece a diferença anatômica dos sexos. Mais do que a percepção desta diferença, o importante para nós, psicanalistas, é que essa percepção adquire um significado emocional para a criança, através do sentido psíquico que esta consciência adquire. O menino reconhece que tem um pênis e pode perdê-lo. A menina de que tem algo que falta nela. Assim, o reconhecimento da diferença dos genitais gera um desenvolvimento diferencial entre o menino e a menina. Ao mesmo tempo que reconhece a diferença anatômica entre os sexos, todas as crianças têm de abdicar dos desejos amorosos em relação a seus pais e transformá-los em ternura. A proibição ao incesto é característica da raça humana e é um importante fator para a criação da civilização e cultura humanas. O momento do reconhecimento das diferenças sexuais entre os seres humanos e a proibição ao incesto mobiliza grandes angústias e conflitos. O amor que a criança sente vindo de seus pais contribui muito para sua resolução. É um momento de integração e organização da vida emocional.

A anatomia com que cada criança nasce é dada quando vem ao mundo, mas o modo como cada pessoa vê sua anatomia será construída através de suas experiências, ganhando um significado emocional específico para cada um. A maneira como cada indivíduo significa emocionalmente sua anatomia influenciará o curso de sua psicossexualidade, sua escolha de objeto amoroso, homo ou heterossexual e seu caráter.

A psicanálise nos mostrou que, enquanto as diferenças biológicas são captadas facilmente, a maneira como elas são elaboradas não são. A masculinidade e a feminilidade independem da realidade biológica e são construídas a partir do reconhecimento da diferença entre os sexos e da proibição de satisfação do desejo amoroso dirigido a seus pais. A identidade sexual será o resultado da integração das diferentes angústias e conflitos mobilizados neste momento do desenvolvimento. É um momento privilegiado de reorganização psíquica, levando a uma nova fase do desenvolvimento psíquico.

No início de sua obra, Freud falava da mulher como sendo uma pessoa que se percebia inferior ao homem, por não possuir um pênis. Pênis não como órgão genital, mas sim representante de um valor e um poder que eram desejáveis e que, segundo ele, a menina queria. A feminilidade estaria ligada à passividade e a masculinidade à atividade. Este foi o primeiro estudo de Freud a respeito da sexualidade feminina e realizado numa época vitoriana, como rapidamente descrevi no início. Freud pesquisava a sexualidade feminina tendo como suporte a masculinidade, baseando a questão do mistério do feminino naquilo que "falta à mulher". Porém, neste mesmo trabalho, Freud já afirmava:

"Há muito tempo, afinal de contas, já abandonamos qualquer expectativa quanto a um paralelismo nítido entre o desenvolvimento sexual masculino e feminino". (6, pg. 260).

Aqui já podemos vislumbrar o que seria reconhecido posteriormente, dentro da psicanálise, de que o sentimento da falta está presente tanto no menino quanto na menina devido a separação do primeiro objeto de amor que a criança precisa fazer.

Em um artigo posterior, "Feminilidade", Freud muda o eixo de suas investigações. Afirma que a psicanálise não tenta descobrir o que é a mulher, mas se empenha em indagar como ela se forma, como se desenvolve desde criança. Assim, já percebia a mulher como um ser humano autônomo do homem, com um desenvolvimento psicossexual peculiar, sendo uma pessoa inteira e não como se faltasse algo a ela.

Em seu crescimento, os bebês têm também de fazer identificações quanto ao gênero a que pertencem. Um menino tem de abrir caminho e fazer diferentes atividades mentais para se identificar com seu gênero, o masculino. A menina também tem de lidar com a mesma situação, abrindo caminho até se tornar uma mulher. A psicanálise estuda o desejo inconsciente e que não pode ser satisfeito na realidade. Assim, a anatomia não é o destino, apesar de determinar conflitos específicos. O corpo não pode ser ignorado, mas para os psicanalistas o que tem relevância é sempre a representação do corpo. Ao fazerem uma identificação de gênero, masculino ou feminino, e com isso tomarem consciência de pertencer a um sexo e não a outro, cria-se um limite intransponível entre homens e mulheres. Nunca se saberá, na realidade, como é ser de outro gênero. No máximo, podemos imaginar como seria. A representação que a criança faz da impossibilidade de satisfação de seus desejos inconscientes e seu reconhecimento da diferença anatômica entre os sexos é, tanto para o menino como para a menina, o reconhecimento do incompleto, das limitações humanas, do abandono da crença de que possui todos os atributos desejáveis. Isso também representa o reconhecimento da relação da mãe com um terceiro, bem como de seu pai com uma outra pessoa, aonde a criança não está incluída.

Do meu ponto de vista, seria impensável o feminino sem o masculino e vice e versa. Em um de seus últimos artigos, "Análise terminável e interminável", Freud escreve que o horror da feminilidade atinge homens e mulheres. Horror a deixar-se ser amado, engolfado por amor tão grande que destituiria a pessoa de sua identidade. No decorrer do progresso da psicanálise, começa-se a levar em consideração as relações de objeto na compreensão do desenvolvimento humano e das estruturas inconscientes. Desta maneira, as identidades de gênero passam a ser estudadas como resultado da integração gradual de fenômenos relacionais conflitantes, adquirindo um significado experiencial de masculinidade e feminilidade. Assim, o feminino está intrinsecamente ligado ao masculino enquanto maneira de experienciar as emoções. O feminino só tem sentido se estudado e vivenciado junto ao masculino. Enquanto identidade de gênero, a menina tem um percurso a ser feito até chegar a ser mulher. Porém, as diversas formas de operar sobre as experiências emocionais podem ser de diferentes qualidades: tanto de maneira qualitativamente feminina, isto é de aconchego, proteção e contenção, como masculina, intrusiva, ativa e competitiva.

A feminilidade e a masculinidade tanto incluem a representação da falta quanto a representação de um espaço interior e de uma atração sexual ligada à realidade biológica e anatômica. O homem e a mulher tem de ser pensados como penetrantes e envolventes, intelectuais e intuitivos, ativos e passivos em suas possibilidades de lidar com a experiência emocional. Na construção de sua identidade feminina, a menina constitui também a identidade de gênero masculino. O que não é mulher, é homem e vive versa. Portanto, a identidade sexual é construída juntamente à de seu oposto. O mesmo é válido para o menino, pois a identidade masculina só tem sentido se pareada ao seu contrário, a feminina. E elas ocorrem, do meu ponto de vista, concomitantemente.

É interessante notar que, apesar de todo o percurso que descrevi, as mulheres continuam sendo consideradas enigmáticas. Como tentei mostrar, a identidade sexual é construída sob o impacto de fortes emoções e grandes conflitos, Esse momento é singular para cada pessoa e independe do gênero sexual a que pertença, pois envolve dar significado a dolorosas experiências emocionais que todo ser humano passa em seu desenvolvimento. O corpo biológico indica um caminho, mas o sentido emocional é gerado na experiência. A afetividade é misteriosa e intrigante tanto para os homens como para as mulheres.

Creio que o grande mistério de quem são, o que sentem e o que querem as mulheres existe desde que o mundo foi criado. E isso porque a mulher carrega consigo o grande mistério: ela é a única, dentro da espécie humana, que pode conceber vida. E existe maior mistério do que a geração e a gestação de vida? Esse mistério representa o que é impossível de ser conhecido sobre a existência humana, as origens do homem. Julgo que uma das razões da mulher ser considerada tão enigmática, e isso ser tão destacado, é que pensamos que desvendando o mistério da mulher, revelamos o mistério da vida. Por trazer consigo o mistério da criação, a mulher é tão pouco entendida pelos homens e, creio, pelas próprias mulheres também. A mulher lutou nesses 100 anos contra o preconceito de que era frágil e por isso não tinha direitos, tendo de ser resguardada de fazer escolhas ou ter opiniões próprias. Mas, esse preconceito pode ser investigado pelo viés da preciosidade da mulher, já que somente por ela a vida pode ser produzida. Vida humana que é uma dádiva. Alguns, com razão, dizem que ela é sofrida. Mas, não podemos negar que ela é também intensa, emocional, intrigante, que enriquece a realidade, dá um sentido ao estar vivo, diferentemente de uma máquina ou um objeto inanimado.

Fonte: Suely Gevertz. Psicóloga e psicanalista. Professora nos cursos "Atendimento em Orientação Familiar e Processos Psicoterapêuticos", "O Desenvolvimento do Raciocínio Clínico na Prática Psicoterapêutica" e "A psicanálise na sociedade contemporânea", do Instituto Sedes Sapientiae. Membro efetivo do Departamento "Formação em Psicanálise", do Instituto Sedes Sapientiae. Coordenadora editorial da seção Psicanálise da revista "Viver Psicologia", da Editora Segmento. Psicanalista pelo Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de psicanálise de São Paulo.


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