Crianças
abaixo do limite inferior geral (< percentil 2,5)
são facilmente reconhecidas como baixas e rapidamente encaminhadas
para investigação. Mas, o que ocorre com crianças, filhos
de pais altos, mas só alcançarão a média nacional? E uma
criança que apresenta boa altura, mas está reduzindo seu
percentil? Aqui é preciso definir os conceitos de alto e
baixo, pelo ritmo de crescimento, ou seja, a velocidade
anual de crescimento. São referenciais diferentes, mas importantes
porque a investigação é a mesma.
Esclarecido esse ponto, a maior parte da doenças crônicas
ou recorrentes da infância reduz o crescimento e pode prejudicar
a estatura final. Dentre as crianças sem história evidente
de doença crônica, mas com crescimento insuficiente, os
distúrbios endócrinos representam a causa do processo
em 10 a 20% dos casos. O restante é causado por doenças
subclínicas, desnutrição ou mesmo variação
do padrão normal.
"Concentrando-se
nos problemas endócrinos, as duas causas mais freqüentes
de baixa estatura são o hipotireoidismo e a deficiência
do hormônio de crescimento", esclarece o Dr. Carlos
Alberto Longui, professor assistente da Unidade de
Endocrinologia Pediátrica da Irmandade da Santa Casa de
Misericórdia de São Paulo.
Dando
seqüência no diagnóstico clínico, o médico estabelece uma
comparação entre a estatura, idade óssea, previsão da estatura
final e a estatura alvo familial. Só a partir dessa análise,
os exames laboratoriais conseguem auxiliar o diagnóstico
médico. O primeiro aspecto a ser considerado é a função
da tireóide, determinando os hormônios T4 e o TSH.
Afastada a hipótese de hipotireoidismo, deve-se investigar
a deficiência de GH através de testes de estímulo,
visto que os valores basais de GH não são informativos.
Os
testes mais solicitados no Brasil são o de clonidina e o
ITT (Teste de Tolerância à Insulina). Fora
do Brasil, é valorizado o IGF1. Só que essa substância
sofre uma forte influência da desnutrição e das doenças
crônicas. Essa característica acaba reduzindo a utilidade
do método entre as crianças brasileiras, considerando que,
por sua condição sócio-econômica, muita delas podem apresentar
IGF abaixo sem que necessariamente tenham deficiência
de GH.
"Recentemente,
os exames laboratoriais para diagnóstico da deficiência
de GH mudaram muito. O médico precisa estar atento e conhecer
os valores de normalidade para cada método de dosagem do
hormônio, hoje muito diferentes de um laboratório para outro",
alerta o Dr. Longui (veja quadro).
Nos
casos de deficiência isolada de GH, ou acompanhada
de hipotireoidismo, o tratamento com hormônio de
crescimento é indicado.
A
segunda doença hoje aceita para tratamento hormonal é a
síndrome de Turner. Parte das ocorrências de baixa
estatura em meninas está relacionada com a síndrome. Essas
pacientes trazem um defeito cromossômico: em lugar
de apresentar o XX, o que se observa é a ausência
total ou parcial de um dos cromossomos X.
Nos
países da Europa e nos Estados Unidos, outras doenças tem
sido tratadas com GH. É o caso da baixa estatura
por insuficiência renal crônica, que em breve deve ser aprovada
para uso de GH também no Brasil.
"Uma
importante e eficiente indicação para o uso de GH é a baixa
estatura causada pelo retardo de crescimento intra-uterino",
observa o Dr. Longui. Perto de 20% das crianças que
nascem muito pequenas, não recuperam a estatura genética
até os 18 a 24 meses de vida e apresentarão um prejuízo
definitivo em sua estatura. O uso de GH após o segundo
ano tem sido efetivo em recuperar o padrão genético familial
nesses casos. Portanto a criança que nasceu pequena e não
recuperou o tamanho até o final do segundo ano de vida é
uma candidata ao uso do hormônio.
O
uso de GH em pessoas que atingirão estatura dentro
do normal para o padrão populacional, ainda que baixo para
o padrão familial, é bastante discutível. Afastadas as deficiências
hormonais, o tratamento deve ser reservado apenas a casos
específicos, onde a estatura final seja baixa o suficiente
para determinar uma repercussão psicossocial.