Doenças tropicais
Ecossistema e condição
social
A doença
tropical tem uma correlação intrínseca
não só com o ecossistema, mas também
com a condição social da população.
Decorrente da pobreza, também é o abandono
do tratamento pelos doentes as estatísticas mostram
que o abandono ao tratamento atinge grandes proporções
no país, estimativas indicam dados entre 17% e 25%.
As principais causas de abandono podem ser atribuídas
desde a um tempo longo de tratamento, à deficiência
no sistema de atendimento aos doentes, à falsa impressão
de cura após algumas semanas de tratamento e a fatores
individuais (alcoolismo, etc...).
Além
dos fatores sociais, existem os problemas técnicos,
políticos e administrativos, que são comuns
a qualquer programa de saúde pública. Resolver
os problemas implica em ações com uso de tecnologia
apropriada, estrutura sanitária básica, enfoque
epidemiológico, decisão política e
participação da sociedade. Novos paradigmas,
têm, portanto, que serem estabelecidos para o combate
às doenças tropicais.
Situação
atual
A pesquisa
e desenvolvimento de novos medicamentos no combate às
doenças tropicais é considerada um nicho de
mercado de pouco interesse por parte das empresas estrangeiras.
Embora se verifique a existência de capacitação
técnico-científica no país para o desenvolvimento
e produção de medicamentos e seus insumos,
o que se constata é que os grupos trabalham isoladamente,
de forma desarticulada e não integrada. Conseqüentemente,
embora haja investimentos na área, os recursos são
dispersos, o que dificulta potencialidade de nossa biodiversidade
está distante de uma exploração efetiva,
e os entraves existentes para aprovação e
registro de novas drogas desestimulam o desenvolvimento
de novos produtos. As deficiências na operacionalização
das unidades vinculadas ao SUS (Sistema Único de
Saúde) prejudicam o acesso da população
aos medicamentos. As novas tecnologias de comunicação
vêm abrindo, entretanto, a possibilidade de integração
com o ambiente externo, tanto ao nível nacional quanto
internacional.
Diarréia
Segundo a Organização
Mundial de Saúde (OMS), a diarréia provoca
a morte de uma pessoa a cada 10 segundos em todo o mundo.
Normalmente está associada à desnutrição
protéico-calórica e a problemas de subdesenvolvimento
decorrente da falta de higiene e sistemas de tratamento
para água e esgoto. Crianças pobres são
as mais atingidas, inclusive no Brasil, apresentando de
50 a 60 dias de diarréia por ano. A morte de crianças
devido à diarréia é superior às
mortes por pneumonia e às doenças evitáveis
por vacina. No Brasil, um país endemicamente parasitado,
onde as condições sanitárias são
precárias em várias regiões, o exame
protoparasitológico tem muita importância no
diagnóstico da diarréia. Ela pode ser classificada
como de origem osmótica, secretora, motora ou exsudativa
(disenteria). Na diarréia osmótica é
preciso ter um elemento osmoticamente ativo no interior
do intestino, que atraia água para a luz intestinal.
No caso de diarréia secretora, o exemplo clássico
está relacionado com o cólera, em que há
um estimulo do complexo adenilatociclase e conseqüentemente
um aumento nas perdas hidroeletrolíticas. A diarréia
motora é causada por uma alteração
na coordenação da musculatura lisa intestinal,
enquanto na diarréia exsudativa, que corresponde
à disenteria, o paciente pode perder sangue, muco
e pus. Nesse último grupo, podem ser incluídas
as diarréias infecciosas, que afetam o cólon
intestinal, e as invasivas, como as salmoneloses e shigueloses.
O antidiarreico ideal deve inibir a hipersecreção
intestinal, agir rapidamente, não causar constipação
e o mais importante, não ter efeito sobre o sistema
nervoso central. Um fármaco inovador é oracecadotril
(Tiorfan), uma nova droga que ativada no tubo digestivo
por esterases, age no tubo digestivo por esterases insulares,
age no mecanismo básico da diarréia, ou seja,
evita a hipersecreção de eletrólitos
e água para o tubo digestivo. A droga ativa o receptor
delta (d) e não o receptor mi (m), como fazem os
opióides, que podem causar bacteremias. Com isso,
ela não produz um dos mais sérios inconvenientes
no tratamento da diarréia, que é a diminuição
da mortalidade com favorecimento de crescimento bacteriano,
o que pode agravar muito a diarréia. A droga age
no principal mecanismo da maior parte dos casos de diarréia,
o mecanismo secretor. Não revela qualquer efeito
sobre a motilidade gastrointestinal, o sistema nervoso central,
o sistema respiratório ou o sistema endócrino.
A substância é uma pró-droga absorvida
oralmente. É rapidamente convertida em composto ativo
e uma hora após a administração já
se tem o maior pico de atividade. O racecadotril (Tiorfan)
não atravessa a barreira hematoencefálica
e a dose usual é de 100 mg três vezes ao dia.
Febre amarela
Doença
infecciosa aguda, causada por um vírus RNA, arbovírus
do grupo B, ou seja, vírus transmitidos por artrópodes
(Arthropod Borne Viruses) do gênero Flavivírus,
família Togaviridae, com transmissão através
de vetores alados. É basicamente uma antroposoonose,
isto é, uma doença de animais silvestres,
que acomete o homem acidentalmente. Diferencia-se em dois
padrões epidemiológicos: o urbano e o silvestre.
O primeiro deve-se a ação de um mosquito de
hábitos urbanos, o Aedes aegypti, que transmite a
doença de pessoas doentes a uma população
sensível, e volta a causar temor pela possibilidade
de reemergência, devido a intensa proliferação
do mosquito nos grande centros urbanos atualmente. O ciclo
silvestre, por sua vez é mantido pelas fêmeas
de mosquitos antropofílicos (especialmente do gênero
Haemagogos) as quais necessitam de sangue para amadurecer
seus ovos: têm atividade diurna ma copa das árvores,
ocorrendo a infecção do homem ao invadir o
ecossistema viral. Após um período de incubação
média de três a seis dias, surgem os primeiros
sintomas, febre alta, cefaléia, congestão
conjuntival, dores musculares e calafrios. Algumas horas
depois podem ocorrer manifestações digestivas,
tais como: náuseas, vômitos e diarréia,
correspondendo à fase em que o vírus está
circulando no sangue (Período de Infecção),
evoluindo em dois a três dias à cura espontânea
(período de Remissão).
Formas graves
da Febre Amarela podem surgir um ou dois dias após
a cura aparente, observando-se aumento da febre e dos vômitos,
prostração e icterícia (Período
de Intoxicação). Em seguida surgem outros
sintomas de gravidade da doença, tais como: hematêmese
(vômito negro), melena (fezes enegrecidas), petéquias
(pontos vermelhos) e esquimoses (manchas roxas) em várias
regiões da superfície corporal, desidratação,
agitação, delírio, parada renal, torpor,
coma e morte (em cerca de 50% dos casos). O diagnóstico
é essencialmente clínico, sendo que nas formas
graves, somente é obtido post-mortem. Não
existe tratamento específico, portanto utiliza-se
de medicação sintomática, preferencialmente
o Paracetamol, evitando-se os salicilatos (Ácido
Acetil Salicílico e derivados), em função
do risco de hemorragias. Pacientes com formas graves da
doença necessitam de cuidados de Terapia Intensiva.
Na prevenção da Febre Amarela fundamental
é a aplicação da vacina Anti-Amarílica,
na dose de 0,5 ml por via subcutânea, com reforço
a cada dez anos. Não se recomenda a aplicação
em gestantes e portadores de imunodeficiência (inclusive
pelo Vírus da Imunodeficiência Humana).
Dengue
O dengue existia
no Estado do Rio de Janeiro até a década de
1940, quando o combate ao mosquito da febre amarela, o mesmo
que transmite dengue, acabou com a doença. Esta voltou,
junto com o mosquito, no final da década de 1980.
No início
dos anos 90, houve a introdução de um segundo
tipo do vírus do dengue (o sorotipo 2, até
então tínhamos somente o sorotipo 1), aumentando
o risco do número de casos de dengue hemorrágico.
Os sintomas na forma hemorrágica evoluem rapidamente
para sangramentos internos e nas mucosas, podendo ocorrer
choques que levam à morte. Ocorrem geralmente quando
a pessoa, que já teve a doença por um dos
tipos de vírus (existem 4, chamados sorotipos), ao
qual passa a ser imune, contrai a infecção
por um outro tipo.
Malária
Doença
infecciosa, febril, não contagiosa, sub aguda, aguda
e algumas vezes crônicas, causada por protozoários
do gênero Plasmodium, principalmente as espécies
vivax e falciparum, transmitida através da picada
das fêmeas dos mosquitos do gênero Anopheles.
Dentre todos os anofelinos transmissores de malária
(cerca de 200 espécies), o Anopheles darlingi destaca-se
como a espécie mais importante. Distribui-se por
toda a Amazônia, onde atinge anualmente uma parcela
expressiva da população, sendo frequentemente
i aparecimento de formas graves, inclusive com elevada mortalidade.
O período de incubação pode variar
de nove a quarenta dias, os sintomas são mais graves
nos indivíduos primo-infectados. O quadro clínico
caracteriza-se por : cefaléia, mialgias, prostração,
perda do apetite, mal-estar geral e calafrios seguidos de
febre de início súbito, elevada (acima de
40ºC) e intermitente, que ao cessar desencadeia intensa
sudorese. Nas formas graves o paciente apresenta também
vômitos, diarréias, cianose de extremidades,
pele fria e pegajosa. Pode haver diminuição
do volume urinário nas 24 horas evoluindo para Insuficiência
Renal Aguda. Complicação frequente nos casos
graves é o Edema Pulmonar e a Síndrome de
Angústia Respiratória do Adulto, além
de sangramentos digestivos, subcutâneos e de outras
localizações, que em geral leva, à
morte. O diagnóstico é clínico-epidemiológico
e laboratorial, através da detecção
de plasmódios no sangue periférico (esfregaço
ou gota espessa), além da utilização
de métodos imunoenzimáticos ou de radioimunoensaio
nos casos de maior dificuldade diagnostica. O tratamento
é feito com drogas antimaláricas com o uso
de Cloroquina e Primaquina para P.vivax e Quinino associado
a antimicrobianos e mas recentemente derivados da Artemisina,
no tratamento de malária pelo P.falciparum. Os pacientes
graves necessitam de cuidados em Unidade de Terapia Intensiva.
Medidas de
proteção individual, com o uso de repelentes
nas áreas expostas do corpo e a instalação
de telas nas portas e janelas das habitações,
são inviabilizadas pelas condições
climáticas regionais (calor e umidade excessivos).
No momento não se dispõe de vacinas para uso
clínico.
Leishmaniose tegumentar
americana - (LTA)
É uma
doença infecciosa, de evolução que
tende a cronicidade, não contagiosa, causada por
diferentes espécies de protozoários do gênero
Leishmania e transmitida por insetos hematófagos
genericamente designados flebótomos. Trata-se de
uma zoonose, pois tem como reservatórios animais
silvestres picados pelos flebotomíneos. O homem é
infectado acidentalmente quando invade o ecossistema do
protozoário, em atividades de extrativismo ou na
implantação de projetos agrícolas em
áreas recentemente desmatadas. É endêmica
na Região Amazônica, com significativa incidência.
É caracterizada pelo polimorfismo lesional, comprometendo
a pele, comumente manifestando-se como uma lesão
ulcerada, única ou múltipla, medindo entre
3 a 12 cm de diâmetro, com bordos elevados, "em
moldura de quadro", base granulosa e sangrenta, frequentemente
associada à infecção bacteriana secundária.
Dependendo das espécies de Leishmania e de fatores
imunogenéticos do hospedeiro podem ocorrer lesões
mucosas e cartilaginosas, que geralmente inicia-se na mucosa
nasal, surgindo coriza e sangramento nasal, evoluindo para
perfuração do septo e destruição
da fossa nasal, mucosa, cartilagem e nos casos mais severos
compromete o assoalho da boca, língua, laringe, traquéia
e brônquios, com mutilações graves,
podendo afetar as funções vitais levando ao
óbito. O diagnóstico é clínico,
baseado nas características das lesões cutâneas
e laboratorial através dos seguintes exames: raspado
da borda na úlcera, isolamento do parasita em cultura,
isolamento do parasita em animais de laboratório
("hamster"), Intradermoreação de
Montenegro, imunofluorescência indireta e exame anátomo-patológico
da lesão. No tratamento da Leishmaniose Cutâneo-Mucosa
as drogas de primeira escolha continuam sendo os antimoniais
pentavalentes, ou seja, meglumina antimoniais pentavalentes,
ou seja, meglumina antimoniato e stibogluconato de sódio.
Em caso de insucesso com estas substâncias pode-se
utilizar outras drogas como Anfotericina B e Pentamidina.
Todas são de administração injetável,
com várias aplicações, dificultando
a adesão dos pacientes. Fatores imunogenéticos
podem retardar consideravelmente a cicatrização
das lesões. As condições eco-epidemiológicas
da Amazônia não permitem a instituição
de medidas profiláticas adequadas. Não existe
vacina disponível para uso clínico.
Vacinas contra a malária-perspectivas
Para a Dra.
Ruth Nussenzweig, pesquisadora da Universidade de Nova York
- EUA, uma vacina contra a fase pré-eritrocítica
do parasita seria hoje imuno profilática, evitando
todos os sintomas da doença. Ö problema de desenvolver
uma vacina contra malária ficou ainda maior, pois
encontramos grande resistência do falciparum à
cloroquina, e há indícios de que Pvivax já
começa a desenvolver a mesma resistência, o
que é muito grave para a saúde pública:
a comprovação de que seria possível
desenvolver uma vacina contra a doença foi conseguida
há muitos anos em laboratórios, com roedores
infectados por parasitas atenuados por raios gama. Posteriormente,
conseguiu-se bons resultados em macacos, e no início
da década de 70 começaram os experimentos
em humanos. "Os resultados foram gratificantes, pois
boa parte conseguiu ficar completamente imune contra Plasmodium
falciparum e outro grupo infectado pelo P.vivax atenuado
pelos raios gama ficou protegido contra o parasita. No ano
passado nos EUA e na Bélgica com o apoio da SmithKline
Beecham demonstramos ser possível imunizar voluntários
humanos com uma proteína híbrida que possui
parte da proteína da superfície do vírus
da hepatite B e parte da proteína circunsposta da
malária falciparum. Houve proteção
completa de cerca de sete indivíduos. Hoje, estamos
produzindo vacina sintética que está sendo
ensaiada em voluntários humanos na Universidade de
Maryland"", anima-se a doutora. Esta vacina, que
contém alguns dos adjuvantes usados pelo exército
americano e pela SmithKline Beecham, apresenta resultados
preliminares que indicam que estes voluntários estão
desenvolvendo alta imunidade, em níveis idênticos
aos alcançados pela proteína híbrida.
Segundo a pesquisadora, "ainda é cedo para falarmos
em uma vacina, pois os experimentos em humanos são
demorados. Foi necessário esperar cerca de cinco
anos para experimentar em humanos a primeira vacina conseguida
em Maryland e teremos que esperar mais cinco para testar
as novas vacinas, mas as perspectivas são boas".
Morbidade
As estatísticas
disponíveis no Ministério da Saúde
referem-se a casos confirmados no ano de 1996, não
há dados disponíveis para a Febre Amarela
Fonte:
Dr. Mário Rosas Filho, Infectologista do Hospital
Geral de Manaus e Dr. Marcos Boulos, médico,
Professor de Doenças Infecciosas e Parasitárias
da Faculdade de Medicina da USP, Diretor do Instituto de Medicina
Tropical de São Paulo.
|