Câncer de mama
Neste ano, 730.000
novas mulheres no mundo terão câncer de mama,
um pouco mais do que no ano passado, mantendo a tendência
secular de crescimento. Pela primeira vez os países
em desenvolvimento superarão, com 368.000 casos,
os desenvolvidos, porque, excetuando-se os 5% de neoplasias
familiares, as demais decorrem prioritariamente do ambiente
e hábitos de vida. São mulheres de risco elevado,
aquelas que vivem na metrópole, não têm
filhos ou os têm poucos e tardios, não amamentam,
fumam, bebem, são "bem nutridas", estressadas
e usam hormônios. Tudo o que falsamente chamamos de
modernidade. A verdadeira prevenção (primária)
seria reverter essa tendência, mudando hábitos,
da mesma forma que o coito protegido evita câncer
de colo uterino ou parar de fumar, câncer de pulmão.
Como é utópico pedir que as mulheres se mudem
para o campo, tenham muitos filhos desde jovens e amamentem
prolongadamente, o que nos resta - além de algumas
orientações sobre alimentação,
álcool e hormônios - é fazer detecção
e diagnóstico precoce.
Quando se descobre tumores menores do que 2 ou 3 cm,
em 90% dos casos, conserva-se a mama e em 80%, cura-se
o câncer. Se diagnosticarmos, ainda mais cedo, na
fase de lesão não palpável, com mamografia
ou ultrassom, as possibilidades de cura e conservação
da mama beiram 100%. Em que pese essa aparente facilidade
de solução, o diagnóstico precoce
quase não é feito no Brasil e 70% dos casos
são diagnosticados com tumores de 5 cm ou mais,
obrigando a retirada da mama e com possibilidades de cura
abaixo de 30%. Com essas características de aumento
de incidência e diagnóstico tardio, a mortalidade
por câncer de mama vêm crescendo nos pais
nos últimos 30 anos e é, hoje, a principal
causa de morte por câncer em mulheres, superada
somente pelas doenças cardiovasculares.
Como reverter este quadro? Se fossem válidas as
campanhas bem intencionadas na mídia que, à
cada ano, elegantemente desnudam o lindo dorso de artistas
famosas, a mortalidade já estaria baixando. Como
isso, comprovadamente não acontece, apesar da sua
monótona repetição, vale a pena elencar
as razões: As mulheres já estão conscientes
da necessidade de diagnóstico precoce. O necessário
é oferecer a elas a possibilidade de fazê-lo!
Adianta pouco ordenar-lhes mamografias periódicas
se não conseguem realizá-las ou, auto-palparem
suas mamas se, quando encontram algo preocupante, não
têm acesso aos procedimentos especializados para
diagnóstico. Há um complexo caminho a percorrer
entre detecção e diagnóstico. Exemplifico:
a forma mais comum de detecção é
o achado de microcalcificações na mamografia;
para diagnosticá-las é preciso localização
estereotáxica e, muitas vezes, radioativa - pois
não são vistas a olho nú - além
de biópsias, cirurgias, exames histológicos
e citológicos com equipes experientes e, mesmo
assim, de cada 10 casos com esses procedimentos, se diagnostica
apenas dois ou três carcinomas. Erro primário
tem sido setorizar o corpo das mulheres com campanhas
específicas para detecção de câncer
de colo, ovário, mama, endometriose, hipertensão,
diabetes e outras "trezentas e vinte" causas
de doenças importantes e imaginar que elas tenham
a possibilidade de participar de todas e o governo de
repeti-las a cada ano. Esse é o próprio
anti-sistema de saúde. Se o tratamento visa só
aquelas mulheres que têm câncer (3 em cada
1000) - para fazer diagnóstico precoce devemos
examinar constante e repetidamente todas as mulheres.
Isso significa trabalho e recursos.
Não podemos pois, minimizar complexidade, massificação
e custo do diagnóstico precoce sob pena de cairmos
na mesmice da repetição acrítica
e sem resultados de campanhas inúteis. É
preciso entender rapidamente que o fundamental é
organizar a oferta de serviços e facilitar o acesso
das mulheres a eles. A melhor propaganda para diagnóstico
precoce é a vizinha que o fez, curou-se e não
perdeu a mama. É o que chamamos de "efeito
demonstração" que pode também
falar, indicar caminhos e endereços. É preciso
também entender a mulher como um todo e oferecer-lhe
atenção integral, permitindo que, no mesmo
momento e no mesmo lugar, possa usufruir de diferentes
detecções e diagnósticos, com simplicidade
e humanidade. A massificação e a viabilidade
econômica só são conseguidas com a
delegação, responsável e inteligente,
de funções. Foi esse o modelo que, durante
dez anos, atendeu quatrocentas mil mulheres no Hospital
Pérola Byington, com excelentes resultados. Se
os Governos organizassem o Sistema de Saúde, bastaria
que o anúncio na televisão dissesse o seguinte:
"Como você já sabe, o diagnóstico
precoce do câncer de mama salva sua vida e preserva
sua mama. Para fazê-lo, se tiver mais de 35 anos,
procure o Centro de Saúde mais próximo da
sua casa, onde você terá acesso desburocratizado
e humano à toda metodologia de diagnóstico
para essa doença e às demais que são
importantes na sua idade". Os resultados seriam fantásticos.
E mais, o dinheiro gasto
nessa reorganização voltaria aos cofres
públicos. Cálculo usando os dados de custo
do tratamento de câncer mamário, em diferentes
estádios clínicos, da Secretaria da Saúde
do Rio Grande do Sul, concluiu que se aplicássemos
para o Brasil o Sistema de Detecção Integrada
utilizado no Hospital Pérola Byington, economizaríamos
96 milhões de reais/ano só no tratamento
do câncer mamário. É verdade que para
começarmos a ter essa economia seria necessário
aplicar recursos no diagnóstico precoce por no
mínimo 3 ou 4 anos, estruturando o Sistema de Saúde.
Entretanto, se o fizermos, passaremos também a
economizar, o que é mais importante: vidas, sofrimento
e mamas de mulheres. É frustrante dispor de tantos
avanços científicos e tecnológicos
no diagnóstico e tratamento do câncer mamário
e estarmos oferendo-os a um número tão pequeno
de mulheres.
Fonte: J. A. Pinotti,
professor titular de Ginecologia e Chefe do Departamento de Obstetrícia
e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo,
Secretário de Estado da Educação (1986-1987), Secretário
de Estado da Saúde (1987-1991), Reitor da Unicamp (1982-1986) e Deputado
Federal (1994-1998). Presidente da Federação Internacional de
Ginecologia e Obstetrícia (FIGO – 1986-1992). - j.a.pinotti@hcnet.usp.br
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