O
exame laboratorial mais comumente utilizado em pacientes
com suspeita de câncer hepático (o carcinoma
hepatocelular, ou CHC) é a dosagem sérica
de alfa-fetoproteína (AFP), uma proteína normalmente
produzida por células hepáticas imaturas do
feto. Logo após o nascimento, recém-nascidos
apresentam níveis relativamente elevados de AFP,
que diminuem progressivamente e atingem os níveis
da idade adulta por volta de um ano de idade. Além
disso, gestantes com crianças que apresentam defeitos
do tubo neural também apresentam níveis elevados
de AFP. (Os defeitos do tubo neural são malformações
fetais no cérebro ou na medula espinhal que causadas
pela deficiência de ácido fólico durante
a gestação).
Em adultos, valores elevados de AFP (acima de 500 ng/mL)
são observados em apenas três situações:
Existem vários ensaios disponíveis para a
dosagem de AFP. Em geral, os valores abaixo de 10 ng/mL
são considerados normais. Níveis moderados
(até cerca de 500 ng/mL) podem ser observados em
pacientes com hepatite crônica. Além disso,
muitos pacientes com diferentes tipos de doenças
hepáticas agudas e crônicas sem CHC podem apresentar
elevação discreta ou moderada nos níveis
de AFP.
A sensibilidade da dosagem sérica de AFP para o diagnóstico
do CHC é de aproximadamente 60%. Em outras palavras,
níveis elevados de AFP são identificados em
60% dos pacientes com CHC, enquanto 40% dos portadores de
CHC apresentam níveis normais desse marcador. Valores
normais de AFP, portanto, não descartam a hipótese
diagnóstica de CHC. Além disso, valores elevados
não necessariamente significam que o paciente tem
CHC. É importante lembrar, entretanto, que alguns
pacientes com cirrose e níveis elevados de AFP, apesar
de não apresentarem CHC, mantém risco elevado
de desenvolver esse tipo de câncer. Qualquer paciente
com cirrose e valores elevados desse marcador tumoral, portanto,
particularmente aqueles com valores crescentes, desenvolverão
um CHC ou já têm um tumor que ainda não
foi descoberto.
Valores acima de 500 ng/mL são bastante sugestivos
de CHC. Na verdade, os níveis sangüíneos
de AFP não apresentam uma relação direta
(correlação) com o tamanho do tumor. Finalmente,
em pacientes com CHC e níveis elevados de AFP, esse
marcador pode ser utilizado para indicar a resposta ao tratamento.
Em pacientes submetidos à ressecção
cirúrgica do tumor, por exemplo, espera-se que os
níveis de AFP diminuam progressivamente.
Existem outros marcadores tumorais para o CHC que atualmente
são motivo de pesquisa, incluindo a des-gama-carboxiprotrombina
(DCP), uma variante das enzimas gama-glutamiltransferase,
e variantes de outras enzimas (por exemplo, a alfa-L-fucosidase)
que são produzidas por células hepáticas
normais. (Enzimas são proteínas que aceleram
reações bioquímicas.) Acredita-se que
esses exames, em associação com a dosagem
sérica de AFP, poderão melhorar a abordagem
diagnóstica em pacientes com suspeita de CHC.