Abordagem
laboratorial da nefrolitíase
O paciente
com hipótese de nefrolitíase na fase aguda
deve ser orientado a recolher todo o volume urinário
e filtra-lo, com a finalidade de recuperar eventual cálculo
eliminado espontaneamente, o qual deverá ser encaminhado
ao laboratório para análise química.
Essa informação pode ser útil para
o diagnóstico etiológico da calculose, principalmente
em se tratando de cálculos contendo cistina, fosfato-amoníaco-magnesiano
ou mesmo ácido úrico. Cálculos de oxalato
de cálcio são menos informativos por ocorrerem
em maior freqüência e em diferentes distúrbios
metabólicos.
O exame de
urina tipo I é o único procedimento laboratorial
que deve ser realizado na fase aguda da doença, acompanhado
de eventual ultra-sonografia, se necessário. A urina
deve ser recente e o exame fornecerá informações
sobre cristalúria ou evidências de infecção
urinária, devendo ser complementando com cultura
de urina, se o sedimento sugerir infecção.
Passada a fase
aguda, devem ser realizadas dosagens séricas de creatinina,
cálcio, fósforo e ácido úrico
e urinárias de cálcio, ácido úrico,
citrato, oxalato e eventualmente, cistina. As amostras de
urina devem ser colhidas por períodos de 24 horas,
com o paciente já não apresentar nem dor nem
hematúria microscópica, para que as condições
básicas possam ser efetivamente avaliadas.
Distúrbios
Primários:
- Baixo volume
urinário: menos de 1.400 mL/dia para o indivíduo
adulto e 15 mL/kg de peso corporal/dia para crianças
implicam em risco elevado de calculose urinária;
- Dieta: aumento no consumo
total de proteínas de origem animal corresponde a
maior incidência de cálculos;
- Hipercalciúrias: a
prova de absorção de cálcio permite
a classificação das hipercalciúrias
em renais e absortivas. No tipo renal, a excreção
urinária de cálcio já está elevada
na amostra em jejum, enquanto nas absortivas são
observados valores de 0,100 e 0,270 mg de cálcio
por dl de filtrado glomerular para as calciúrias
em jejum e após a sobrecarga oral de cálcio,
respectivamente. As hipercalciúrias absortivas são
dividas em dois grandes grupos, de acordo com o efeito que
o teor de cálcio da dieta tem sobre a excreção
urinária. Na hipercalciúria absortiva tipo
I, a dieta interfere pouco, sendo indicado manter-se um
aporte diário da ordem de 400 a 500 mg de cálcio.
No tipo II, a restrição de cálcio pode
corrigir a hipercalciúria, necessitando maior controle
sobre o conteúdo na dieta, que deve ser, no máximo,
500 mg/ dia. A hipercalciúria reabsortiva, decorrente
de hiperparatiroidismo primário, deve ser pesquisada
pela dosagem do paratormônio sérico.
- Hiperuricemia e hiperuricosúria
é mais freqüentemente decorrente de excesso
da ingestão de produtos contendo precursores das
purinas do que de distúrbios de síntese do
ácido úrico. Dietas com grande quantidade
de proteína de origem animal proporcionam aumento
na excreção urinária de ácido
úrico e na produção de urina muito
ácida. Essas duas situações são
favoráveis à formação de cálculos
contendo ácido úrico em urina de 24 horas
e o intervalo de referência da excreção
urinária de ácido úrico é de
0,25 a 0,75 g/dia.
- Hiperoxalúria:
oxalato está presente em grande número de
componentes da dieta. A ingestão de quantidades elevadas
de alimentos contendo ácido oxálico pode resultar
em hiperoxalúria, mas esse é um evento relativamente
raro, tendo em vista que o teor médio de oxalato
nos diferentes alimentos é baixo. O hiperoxalúria
é realizado pela dosagem de oxalato em urina de 24
horas e o valor de referência é de 7 a 44 mg/dia,
para o sexo masculino e de 4 a 31 mg/dia para o sexo feminino.
- Hipocitratúria:
a baixa excreção urinária de citrato
facilita a formação de cálculos. O
citrato quela o cálcio, reduzindo o nível
de cálcio ionizado disponível na urina, inibindo
a formação, o crescimento e a agregação
de cristais contendo oxalato de cálcio. De 20 a 60%
dos pacientes calculosos apresentam hipocitratúria,
sendo que em cerca de 8% deles esse distúrbio é
isolado. Dosagens urinárias de citrato devem ser
realizadas periodicamente para avaliar a aderência
do paciente ao tratamento e sua eficiência, que é
dependente da capacidade de absorção intestinal.
O diagnóstico de hipocitratúria é realizado
pela dosagem de citrato em urina de 24 horas. Os intervalos
de referência são de 30 a 300 mg/dia, para
crianças até 10 anos, e de 400 a 1.000 mg/dia
para adultos.
- Cistinúria: cerca
de 1% dos pacientes com cálculos urinários
apresentam cistinúria decorrente de um distúrbio
metabólico envolvendo os sistemas de transporte transmembrana
dos aminoácidos cistina, ornitina, lisina e arginina.
Na avaliação laboratorial da cistinúria,
além da pesquisa de cristais de cistina no sedimento
urinário e da pesquisa de cistina na urina isolada,
pode ser feita a dosagem de cistina em urina de 24 horas.
O intervalo de referência da excreção
urinária de cistina é de 10 a 100 mg/dia.
- Acidose tubular
renal: a acidose tubular renal, ou tipo I deve ser considerada
como causa de nefrolitíase sempre que houver associação
de cálculos contendo cálcio, nefrocalcinose
medular, acidose metabólica, hipopotassemia, hipercloremia
e pH urinário elevado. Algumas vezes, esses sinais
não estão todos presentes, caracterizando
a acidose tubular renal distal incompleta, que cursa apenas
com acidose intracelular, e a concentração
sérica de bicarbonato e pH sangüíneo
são normais A hipercalciúria decorre do aumento
da mobilização mineral óssea e da redução
da reabsorção tubular de cálcio a nível
de túbulo contornado distal. Concomitantemente, há
menor excreção urinária de citrato.
O diagnóstico
deve ser suspeitado nos pacientes que apresentarem amostras
de urina em jejum persistentemente alcalinas, sem evidências
de infecção urinária. Consiste na administração
de cloreto de amônio, por via oral, na dose de 100mg/kg
de peso corporal, e de coleta sangue e urina por um período
subseqüente de três a quatro horas, a cada hora.
Se o pH não for inferior a 5,4 quando o bicarbonato
sérico estiver abaixo de 20mEq/L, caracteriza-se
a acidose tubular distal.
O Perfil metabólico
para Nefrolitíase é um conjunto de exames
que permite a avaliação, em dois dias consecutivos,
do metabolismo do cálcio, fósforo e ácido
úrico, das funções paratiroideana e
glomerular e tubular renal, bem como procura identificar
eventual infecção urinária e distúrbio
do aminoácido cistina. Caso seja identificada hipercalciúria,
o exame permite a classificação em renal ou
hiperabsortiva.
| Fonte: |
Dr. Adagmar Andriolo |
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