O leite de vaca e a saúde
humana - A verdade
A humanidade
vem consumindo leite de vaca há milhares de anos, fato que
contribuiu significativamente para o desenvolvimento da civilização.
Apesar disso, alertas classificando o leite de vaca como tóxico
e prejudicial à saúde vêm ganhando espaço na mídia norte-americana.
As raízes desse paradoxo são complexas, baseadas na cultura
da abundância que caracteriza os EUA atualmente. Grande parte
do negativismo atribuído ao leite está menos relacionado a
questões de saúde do que ao antagonismo dirigido para a pecuária.
Se a opinião pública acreditar que o consumo de leite é prejudicial
ao homem, as fazendas de gado leiteiro e as fábricas de laticínios
desaparecerão, para a felicidade de ativistas dos direitos
dos animais e alguns ambientalistas.
No princípio
Se existe
um alimento natural aperfeiçoado ao longo de muitos anos
pela seleção natural para manter os mamíferos vivos e saudáveis,
trata-se do leite. De acordo com registros arqueológicos,
os mamíferos - por definição, animais cujas fêmeas secretam
leite como alimento para a sua prole - surgiram há cerca
de 150 milhões de anos. Qualquer animal produtor de leite
de qualidade inferior não consegue manter os descendentes
e, portanto, não consegue perpetuar os seus genes.
Evidências
encontradas no Oriente Médio sugerem que os homens utilizam
o leite como alimento há pelo menos 8 a 10 milênios. As
indústrias de laticínios americanas cresceram junto com
o país. Na média, em mais de dois séculos de existência
dos EUA, a saúde, longevidade e estatura da população vêm
sempre melhorando. O cálcio encontrado no leite certamente
contribuiu para o aumento na estatura, uma vez que o leite
representava a principal fonte de cálcio disponível na dieta.
Além disso - embora milhões de pessoas tenham consumido
quantidades significativas de leite e derivados regularmente
durante vários anos -, não existem evidências relevantes
de que o leite, ou quaisquer dos seus constituintes, tenha
provocado alguma doença humana grave. Se fosse, como diz
o título de um livro publicado em 1998, "um veneno mortal"
- ou mesmo se fosse nocivo à saúde, como muitos fanáticos
defensores dos direitos dos animais e especialistas em alimentação
saudável afirmam -, as indústrias de laticínios dos EUA,
que vêm crescendo há muitas décadas, estariam fechadas há
bastante tempo.
Utilidade,
segurança e qualidade nutricional
Nos
EUA, a aprovação pública do leite de vaca atingiu o seu
pico no início do século XX, quando ganhou a fama de "alimento
natural quase perfeito". Nessa época, pesquisadores determinaram
que o leite de vaca possuía a maioria dos elementos essenciais
- micronutrientes, aminoácidos e ácidos
graxos essenciais - em quantidades maiores do que em
qualquer outro produto isolado. Esse achado permanece irrefutável
até os dias de hoje. Além disso, o leite de vaca contém
proteínas de alta qualidade, e aproximadamente 77%
do cálcio da dieta dos americanos vêm do leite e seus derivados.
Mas além de conter os nutrientes fundamentais, o leite de
vaca contém outras substâncias bioativas - enzimas,
fatores de crescimento, hormônios e citocinas
(moléculas parecidas com os hormônios) - , componentes que
reforçam a importância desse alimento para a saúde do homem.
O leite e seus
derivados representam um excelente negócio para as empresas
americanas. As técnicas sanitárias das indústrias desenvolveram-se
precocemente, orientando o processamento de muitos outros
alimentos. O leite americano é limpo, com qualidade uniforme,
saboroso e amplamente disponível. Por esse motivo os laticínos
são considerados produtos bastante versáteis no mundo da
culinária.
Abaixo o leite
De modo geral,
a coalizão de combate ao leite não parece realmente preocupada
com o leite em si. Na verdade, parece ter escolhido-o como
o vilão para eliminar o seu alvo principal: a pecuária.
Esse grupo conseguiu muitos avanços mesmo entre pessoas
que não concordam com este objetivo. Os simpatizantes e
ativistas incluem repórteres, médicos e nutricionistas.
Dessa forma, torna-se difícil mostrar as evidências objetivas
dos benefícios do consumo de leite.
A rejeição
ao leite é freqüentemente expressa por frases do tipo "é
para crianças". O signficado implícito dessa afirmação é
que o consumo de leite traz benefícios durante a infância
e a juventude, mas não na vida adulta. Assume-se que o organismo
adulto completou o desenvolvimento e que a ingestão de leite,
que promove o crescimento, torna-se completamente desnecessária.
Isso não é verdade. De acordo com as evidências disponíveis
até o momento, a quantidade de cálcio nos ossos dos indivíduos
aumenta pelo menos até a primeira metade da terceira década
de vida. Além disso, várias células do organismo, incluindo
os neurônios, replicam-se durante toda a vida. Entre as
pessoas de idade mais avançada, para as quais manter o corpo
saudável representa um desafio, a massa óssea encontra-se
em redução e os músculos e outros órgãos estão debilitados.
Assim, muitos idosos podem obter benefícios da ingestão
de alimentos que ajudam a manter a integridade dos tecidos,
como o leite de vaca.
Entre outras
afirmações sobre o leite de vaca, diz-se que "ele é bom
para bezerros" e que o consumo pelo homem "não é natural".
As substâncias presentes no leite de vaca que constituem
elementos essenciais para os bezerros também são importantes
para o homem. Não se pode aceitar que a ingestão do leite
bovino não seja natural, tendo em vista o amplo espectro
de alimentos ingeridos pelo ser humano. Além disso, mais
do que qualquer outro produto animal ou vegetal consumido
pelo homem, o leite é um alimento humano por natureza. É
graças à seleção natural que os europeus primitivos têm
a capacidade de digerir a lactose (um dissacarídeo que é
o principal açúcar do leite humano e bovino, e uma substância
natural encontrada apenas no leite).
Estudos epidemiológicos
e o leite
Embora
os estudos epidemiológicos forneçam informações muito importantes,
podem gerar confusões. A maioria mostra dados sobre associações
(correlações), que não necessariamente refletem causalidade
e, raramente, estabelecem relações causa-efeito. Assim sendo,
os estudos possuem fatores - condições, situações e ações
- que tendem a coexistir com alimentos particulares e podem
ser alvo fácil da "ciência lixo". Esses fatores, no entanto,
não necessariamente representam a causa de um distúrbio
com o qual está associado do ponto de vista estatístico.
Essa associação pode ser meramente conseqüência da amostra
selecionada ou de um associação estatística com outros fatores
coexistentes. Em outros casos, o fator em questão pode representar
uma ligação ou uma causa secundária, ou apenas um agravante
da condição.
Geralmente,
logo após um estudo científico que demonstra a associação
entre uma doença e algo sob investigação, os pesquisadores
procuram repetir o estudo e/ou verificar os resultados.
Muito freqüentemente, esses estudos apresentam resultados
bem diferentes ou até mesmo contrários ao estudo inicial.
Essa seqüência de eventos pode não dissuadir grupos e pessoas
mal intencionadas e/ou com conhecimento deficiente de apresentar
os dados obtidos nos estudos realizados inicialmente. Alguns
exemplos de dados obtidos recentemente a partir de estudos
epidemiológicos com resultados duvidosos em relação a trabalhos
anteriores incluem: que uma dieta pobre em gordura e rica
em fibras não parece reduzir o risco do câncer de cólon;
que a terapia de reposição hormonal não reduz o risco de
doença cardíaca; e que a quantidade de gordura na dieta
não é um fator relacionado à incidência do câncer de mama.
No Nurses'
Health Study, realizado na Harvard University,
os pesquisadores demonstraram que a incidência de fraturas
(especialmente de quadril) entre as enfermeiras que tomavam
grandes quantidades de leite era maior que entre aquelas
que não bebiam ou que tomavam apenas pequenas quantidades.
Esse achado certamente merece investigação. Sabe-se que
a ingestão de cálcio (na forma encontrada no leite e derivados)
é importante para o desenvolvimento e a manutenção dos ossos,
além de ser fundamental para prevenir a osteoporose. Fatores
genéticos, hormonais, emocionais e/ou comportamentais podem
ser responsáveis pela diferença observada na incidência
de fraturas entre os grupos analisados. Também observa-se
uma ausência de indivíduos que, durante a juventude, consumiram
mais que três copos de leite por dia. Os pesquisadores mostraram
que a menor incidência de fraturas de quadril no estudo
era encontrada nesse grupo, mas devido ao número reduzido
de pessoas, esse dado não foi considerado estatisticamente
significativo. Esses indivíduos foram os únicos estudados
que apresentavam uma ingestão de cálcio diária próxima daquela
recomendada pelo Food and Nutrition Board of the Institute
of Medicine para pessoas entre 9 e 18 anos de idade.
Infelizmente,
as mulheres americanas durante a adolescência - período
no final do qual cerca de metade da massa óssea adulta encontra-se
formada - tendem a não consumir leite, aparentemente com
medo de engordar. Mas, tendo em vista que o leite (particularmente
o leite desnatado) apresenta uma relação volume-caloria
relativamente elevada, a sua ingestão tende a diminuir o
apetite.
Recentemente,
os bioflavonóides tornaram-se populares. Tratam-se
de substâncias amarelas amplamente encontradas em vegetais
e cuja ingestão parece contribuir para a prevenção do câncer
e de doenças cardíacas. Evidências epidemiológicas sugerem
que pode existir uma correlação entre a ingestão de grandes
quantidades de bioflavonóides e algumas formas de leucemia.
Resultados de outros estudos epidemiológicos mostram que
as isoflavonas (da soja, por exemplo) podem ser um
fator adverso no câncer de mama. Isoladamente, esses dados
não significam que se deve desencorajar o consumo de alimentos
de origem vegetal. Ainda assim, os oponentes ao consumo
dos derivados do leite vêm fazendo algo parecido, com afirmações
do tipo "leite causa câncer".
Glossário
-
Bioflavonóide
(anteriormente chamado "vitamina P") - pigmentos hidrocarbonetos
encontrados em muitos vegetais, que ajudam a manter a
permeabilidade da parede das células constituintes dos
pequenos vasos sangüíneos.
-
Isoflavona
- substâncias da classe dos fitoestrógenos, anteriomente
denominados "estrógenos alimentares".
-
Intolerância
à lactose (deficiência de lactase, alergia à lactose,
intolerância ao leite, doença do leite) - condição na
qual ocorre uma menor produção da enzima lactase, com
a conseqüente deficiência dessa enzima no intestino, impedindo
a digestão da lactose. Os sintomas da intolerância à lactose
aparecem após a ingestão de alimentos ricos nessa substância,
incluindo flatulência, diarréia, desconforto
e distensão abdominal.
-
Fitossubstância
- substância pertencente a um grupo cuja característica
comum é ser produzido a partir de vegetais. O prefixo
"fito-" significa "vegetal" e, do ponto de vista técnico,
"fitossubstância" significa "substância produzida
por um vegetal". Mas esse termo costuma ser empregado
apenas para determinados constituintes dos vegetais -
denominados "não-nutrientes bioativos" - que os especialistas
consideram úteis na prevenção e tratamento de doenças.
Além disso, algumas vezes o termo é utilizado apenas para
substâncias existentes em frutas e legumes que são potencialmente
úteis na prevenção do câncer (nesse caso, alguns chamam
as fitossubstâncias de "agentes quimiopreventivos").
-
Fitoestrógeno
(estrógeno vegetal) - fitossubstâncias que apresentam
pequena ação estrogênica.
Fonte: American Council
on Science and Health
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