Cafezinho

Cada vez mais
pesquisas mostram que ele é capaz de fazer bem. Tomá-lo
moderadamente pode afastar até a depressão
Por Tatiana Ferreira
No século
XVIII, quando o café conquistou fama, os intelectuais
se reuniam para falar de literatura, artes e política
embalados por goles da bebida quente. Nas últimas décadas,
porém, foram jogadas várias acusações
nessa xícara. Resultado: preocupada, muita gente só
não resiste ao aroma dos grãos torrados quando
precisa espantar o sono. Uma pena… Embora continuem
aparecendo opiniões contrárias ao consumo desenfreado
desse símbolo nacional, cada vez mais pesquisadores
botam a colher na briga e defendem os benefícios da
infusão. Um trabalho concluído no final de 2000
acompanhou 100 mil jovens de todo o Brasil durante 10 anos
e constatou uma incidência menor de depressão
e de dependência química entre quem tomava um
cafezinho todo santo dia. Depois de passar pelo filtro dos
cientistas, componentes que ainda não estão
na boca do povo - como os ácidos clorogênicos
- se mostraram tão importantes para os efeitos positivos
quanto a polêmica cafeína.
Veja
o que vai dentro de uma xícara de cafezinho
Nela cabe o
volume de 50 mililitros de café. Veja seus componentes
De 1% a 2%
de cafeína, notório estimulante do sistema
nervoso.
De 13% a 20% de lipídios, onde se dissolvem os mais
de 1 mil compostos que criam o aroma.
De 6% a 12% de aminoácidos, responsáveis pela
cor escura.
De 7% a 39% de açúcares, que dão um
toque especial ao sabor.
De 8% a 10% de taninos, que interferem no gosto e na cor.
Entre 3% e 4% de minerais, que participam de várias
funções no corpo.
Cerca de 1% de ácidos alifáticos, os quais
conferem sabor ácido.
De 7% a 10% de ácidos clorogênicos, substâncias
investigadas porque interferem no humor.
ATENÇÃO: o teor das substâncias varia
conforme o processamento.
A suspeita
é de que a bebida evite o mal de Parkinson
O velho hábito
de oferecer café com leite para a garotada - ironicamente
fora de moda no país que tem a maior produção
desse fruto - bem que poderia voltar às mesas brasileiras.
Essa é a opinião de um dos maiores estudiosos
do assunto no país, o médico Darcy Lima, do
Instituto de Neurologia da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. Ele é o responsável pela pesquisa
que avaliou o consumo de café entre estudantes brasileiros
durante toda a década de 1990. "Misturada ao
leite, a bebida fica nutritiva e as propriedades não
são alteradas", observa.
Satisfação
garantida
A ciência
ainda não responde tintim por tintim como o café
atua na massa cinzenta. As evidências de que ajudaria
a afastar a depressão, o alcoolismo e a dependência
de drogas parecem não estar ligadas à cafeína,
e sim à ação dos tais ácidos
clorogênicos no sistema límbico. Ali suas moléculas
parecem se encaixar como chaves mestras em receptores denominados
opióides. "Ao ser ativados pelas drogas, eles
produzem sensações de prazer e saciedade",
explica Darcy Lima. "Quando estão bloqueados,
parece haver uma diminuição da vontade de
se entregar ao vício." Outra pesquisa bastante
badalada no ano 2000 analisou 8 mil indivíduos entre
45 e 68 anos nos Estados Unidos. Publicada no jornal da
Associação Médica Americana, ela indica
um risco bem menor de desenvolver o mal de Parkinson para
quem bebe, no mínimo, três cafezinhos diários.
Ninguém
em sã consciência defende o consumo exagerado
Às vezes,
porém, é preciso abrir mão de um cafezinho
- talvez seja o caso das futuras mamães, considerando-se
um novo estudo sueco. Segundo ele, a cafeína presente
em quatro xícaras pequenas é capaz de dobrar
as chances de aborto.
Mas os próprios
médicos dizem que ainda é cedo para fazer
alarde: "Um único trabalho não pode ser
conclusivo", opina o ginecologista e obstetra Alcides
Vara, da Maternidade Santa Joana, em São Paulo. Para
ele, bebericar dois ou três cafezinhos diariamente
pode até melhorar o astral das gestantes. Uma coisa
é certa: café demais pode atrapalhar a formação
dos dentes no feto. Uma grávida jamais pode abusar
desse prazer.
Coração
na mira
O café
também sustenta a fama de aumentar os riscos de infarto.
Para conferir se isso não passa de mito, a Federação
Mundial de Cardiologia vai iniciar um estudo com 40 mil
pessoas de vários países. Elas serão
divididas em dois grupos: o dos fãs da bebida e o
daqueles que a excluem do dia-a-dia.
"Queremos
saber qual é a turma com maior propensão para
males cardíacos", explica o médico Mário
Maranhão, presidente da entidade. Não é
tão simples assim. Se café demais causa insônia,
nervosismo, pode elevar a pressão e o colesterol,
goles moderados agem no sentido inverso, melhorando o humor
e a disposição - nesse aspecto o coração
deve agradecer.
Cuidados
ao ingerir o cafezinho
Alguns cuidados
podem acrescentar saúde ao momento de saborear o
cafezinho. Até hoje ninguém conseguiu comprovar
que essa bebida causa gastrite. No entanto, ao alcançar
o estômago ela estimula os ácidos gástricos
e pode provocar dor. "Por isso nunca é bom tomá-la
de barriga vazia", adverte o gastroenterologista Jaime
Eisig, do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Além disso, em razão de seu poder estimulante,
o café deve ser abolido à noite. Ou a briga
com o sono será certa.
Segredos
de coador
O que pode
interferir no sabor da bebida
Mistura
O blend é a combinação de vários
grãos para se obter pós diferenciados. Os
grãos mais usados são o arábica e o
robusta. O primeiro é famoso pelo sabor. Já
o segundo deixa o líquido forte e encorpado. Lembre-se
disso e analise as proporções na hora da escolha.
AO
Gosto
do frequês
O cafezinho à brasileira é tão concentrado
que acaba com 1% de cafeína. Isso é cerca
de três vezes mais do que a gente encontra no aguado
café servido em caneca nos Estados Unidos.
Herança
da terra
Nesse aspecto o grão de café se parece com
a uva que dá origem ao vinho. Conforme o clima, o
solo e a altitude, o produto final pode ficar mais adocicado
ou mais ácido.
Na
sua casa
Não deixe o café guardado no armário
junto com outros alimentos. Mal agasalhado, ele absorve
odores alheios. O ideal é colocar a embalagem dentro
de um pote bem fechado guardado na geladeira.
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