Abordagem do refluxo vesicoureteral
O refluxo vesicoureteral (RVU) resulta da incompetência
da junção vesicoureteral na manutenção do fluxo unidirecional para a bexiga.
É mais freqüentemente associado a alterações anatômicas hereditárias do trato
gênito-urinário, afetando cerca de 400.000 recém-nascidos por ano nos EUA. Trata-se
da principal causa de hipertensão em crianças, e as lesões renais causadas por
essa condição são responsáveis por 5 a 15% dos casos de insuficiência renal
crônica em indivíduos brancos abaixo de 50 anos de idade.
As recomendações clínicas baseadas em evidências
recomendam a abordagem clínica ou cirúrgica dos pacientes de acordo com:
idade da apresentação (< 1, 1-5, e 6-10 anos);
sexo;
gravidade (grau I a IV); e
lados acometidos (unilateral ou bilateral).
A agressividade do tratamento baseia-se nos estudos
sobre a evolução através de revisões sistemáticas rigororas e meta-análises.
Quando não existem dados disponíveis, as recomendações são baseadas em consensos
e opiniões de especialistas. Entretanto, diretrizes específicas para o rastreamento/abordagem
de irmãos gêmeos de crianças com diagnóstico de RVU ainda não foram estabelecidas.
Evidências no
rastreamento de irmãos gêmeos de crianças com RVU
As evidências de que o RVU apresenta uma base genética
vêm da observação clínica, demonstrando uma maior incidência em determinadas
famílias, diferenças entre as raças e análise de árvores genealógicas através
de estudos retrospectivos e prospectivos. Os índices de transmissão pai-filho
são de até 66%, e a incidência em irmãos é descrita em até 34% dos casos. Postula-se
um padrão de herança autossômica dominante com penetrância variável.
Os estudos sobre a transmissão genética apresentam
2 fatores de confusão. Em primeiro lugar, essa condição apresenta uma tendência
à resolução espontânea com o passar do tempo. Por outro lado, é comum a presença
concomitante de distúrbios da micção. Ambos resultam numa estimativa subestimada
da importância do fator genético.
Esse fator foi avaliado num estudo de crianças
nascidas de gestações múltiplas.[5] Os autores utilizaram uma fonte com dados
de todos os cistogramas com radioisótopos e uretrocistografias miccionais realizadas
entre 1986 e 1996, selecionando os achados positivos em crianças de gestações
múltiplas e avaliando as características dos pacientes, excluindo os casos de
RVU secundário, com o objetivo de calcular o risco genético. Os trigêmeos foram
analisados como 2 pares de gêmeos. Quarenta e seis pares de gêmeos (31 dizigóticos
e 15 monozigóticos) preencheram os critérios de inclusão e entraram no estudo.
Quando comparou-se a prevalência de RVU em gêmeos idênticos e não-idênticos,
observou-se que 35% destes e 80% daqueles apresentavam RVU. Quando apenas os
indivíduos mais jovens de cada grupo foram analisados (controlando a resolução
espontânea da doença), demonstrou-se RVU em 100% dos gêmeos monozigóticos e
50% dos dizigóticos. Esses dados representam fortes evidências de um padrão
de transmissão autossômico dominante.
Recomendações
e conclusões
Tendo em vista que 14% dos gêmeos assintomáticos
nos quais foram demonstrados refluxo apresentaram lesões renais, o rastreamento
dessas crianças é uma prática recomendada. Parece que o rim em desenvolvimento
é um órgão mais vulnerável às lesões - com risco mais elevado antes de 1 ano
de idade, e menor após os 5 anos. Com base nessas observações, os autores desse
estudo recomendam o rastreamento agressivo de irmãos gêmeos assintomáticos abaixo
de 5 anos de idade cujos irmãos apresentam a doença, utilizando a uretrocistografia
miccional ou o cistograma com radioisótopos. As crianças com idade igual ou
superior a 5 anos devem ser rastreadas de acordo com a zigoticidade, recomendando-se
o rastreamento agressivo nos gêmeos idênticos. Os gêmeos não-idênticos e os
irmãos não-gêmeos podem ser rastreados inicialmente com a urocultura e a ultrassonografia
dos rins (para avaliar a integridade do parênquima renal). A uretrocistografia
miccional ou o cistograma com radioisótopos deve ser realizado quando algum
destes exames iniciais apresenta alterações.
Acredita-se que a detecção precoce nos gêmeos,
com a abordagem adequada de acordo com as recomendações da AUA, previne a nefropatia.
Ainda são necessários novos estudos sobre os benefícios do rastreamento populacional
(em comparação com os possíveis efeitos deletérios e incluindo uma análise da
relação custo-benefício).
Referência:
1. Monthly Vital Statistics Report. Hyattsville,
Md: National Center for Health Statistics; 1997:3.
2. Elder JS, Peters CA, Arant BS Jr, et
al. Pediatric Vesicoureteral Reflux Guidelines Panel. Summary report on the
management of primary vesicoureteral reflux in children. J Urol 1997;157:1846-1853.
3. Miller HC, Caspari EW. Ureteral reflux
as a genetic trait. JAMA 1972;220:842-843.
4. Noe HN. The long-term results of prospective
sibling reflux screening. J Urol 1992;148:1739-1742.
5. Kaefer M, Curran M, Treves T, et al.
Sibling vesicoureteral reflux in multiple gestation births. Pediatrics 2000;105:800-804.
6. Rolleston GL, Maling TM, Hodson CJ.
Intrarenal reflux and the scarred kidney. Arch Dis Child 1974;49:531-539.
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