Resumo
A ejaculação
precoce é a forma de disfunção sexual masculina mais freqüente, atingindo homens
de todas as idades. Geralmente esses pacientes são bastante relutantes em procurar
o psicoterapeuta sexual. Assim, foram estudados 317 pacientes, entre 20 e 50
anos, com ejaculação precoce há pelo menos 6 meses. Todos os pacientes receberam
trazodona, na dosagem de 50mg por via oral, no período da manhã, durante 3 meses.
A trazodona foi escolhida porque, além de ser uma droga antidepressiva, apresenta
uma ação alfa-bloqueadora adrenérgica, com efeito sobre o músculo liso cavernoso,
melhorando a qualidade da ereção. Com 15 dias de tratamento, praticamente metade
(49,9%) dos pacientes referiam melhora da ejaculação precoce. Por outro lado,
61,2% deles apresentavam efeitos colaterais, representados principalmente por
sonolência (27,6%) e tontura (9,5%).Com 3 meses de tratamento, o índice de sucesso
atingiu 59%. Ao mesmo tempo, a avaliação realizada pelo médico responsável considerou
o tratamento bem sucedido em 66% dos pacientes. Alem disso, o índice de efeitos
colaterais caiu para 18,8%, com a sonolência ocorrendo em 8,2% dos pacientes
e a tontura em apenas 0,9% deles.
A trazodona
apresenta alto índice de sucesso com efeitos colaterais bastante discretos no
tratamento medicamentoso da ejaculação precoce.
Endereço
para correspondência:
Rua Napoleão de Barros, 715 - 3º andar
CEP: 04024-003 - São Paulo
Introdução
A trazodona
é uma droga antidepressiva bastante diferente, química e farmacologicamente,
dos outros antidepressivos disponíveis atualmente (1). Seu mecanismo de ação
pode ser explicado por um duplo efeito na neurotransmissão da serotonina, através
da inibição da captura da serotonina e do bloqueio dos receptores serotonérgicos
pós-juncionais (2,3). Contudo vários estudos sugerem que a trazodona apresenta
propriedades adicionais que modulam seus efeitos farmacológicos (2). Essa droga
é geralmente bem tolerada, porém pode causar alterações hemodinâmicas em alguns
pacientes (1).
Além disso,
a trazodona pode causar priapismo. Embora a incidência desse efeito colateral
seja rara ( 1: 10.000 ), a trazodona é responsável por 79% dos casos de priapismo
causado por drogas psicotrópicas (1).
Assim, devido
ao já conhecido efeito das drogas antidepressivas na ejaculação precoce e por
causa dos prováveis efeitos da trazodona no mecanismo da ereção, essa droga
foi escolhida para o tratamento da ejaculação precoce no presente estudo.
Pacientes
e métodos
No período
de um ano foi realizado um estudo prospectivo, multicêntrico, aberto e não comparativo
para avaliar a eficácia da trazodona no tratamento da ejaculação precoce.
Os pacientes
estudados foram selecionados e avaliados pelo Grupo Brasileiro de Estudo da
Ejaculação Precoce. Os critérios de inclusão no estudo foram os seguintes: idade
entre 20 e 50 anos, relacionamento heterossexual estável, queixa de ejaculação
precoce, após a penetração vaginal (caracterizada pela ausência de controle
da ejaculação, causando insatisfação em um ou nos dois parceiros) há pelo menos
6 meses, ereção normal e ausência de fatores de risco para disfunção erétil
(diabetes, hipertensão, neuropatia, uso de drogas ou álcool, disfunção hormonal
).
Os pacientes
que tivessem recebido qualquer forma de tratamento anterior para ejaculação
precoce e aqueles com alterações psiquiátricas ou em tratamento psicoterapêutico
de qualquer natureza foram excluídos do estudo.
Quatrocentos
e oitenta e cinco pacientes preencheram essas exigências e passaram a receber
cloridrato de trazodona, na dosagem de 50mg por dia, administrada por via oral,
no período da manhã, durante 90 dias. A utilização de bebidas alcóolicas foi
proibida. Todos os pacientes foram orientados, antes do início do estudo, a
classificarem o resultado do tratamento da seguinte forma:
nota 1: piora
do quadro, nota 0: nenhuma alteração, nota 1: pequena melhora do quadro, nota
2: melhora importante e nota 3: relações sexuais consideradas normais pelo casal.
Os pacientes foram acompanhados quinzenalmente durante 3 meses, recebendo questionários
para marcar o resultado do tratamento(Modelo anexo). Em cada uma dessas visitas,
o paciente também foi encorajado a relatar possíveis efeitos colaterais da medicação.
No final do
tratamento o médico responsável pelo paciente também fazia a sua avaliação quanto
ao resultado do tratamento.
Resultados
Dentre os
485 pacientes incluídos no estudo, 317 preencheram e devolveram os questionários
fornecidos.
Já a partir
da primeira visita, com quinze dias de tratamento, 34,2% dos pacientes referiam
melhora discreta (nota 1 ) e 15,7% relatava melhora importante com o tratamento
( notas 2 e 3 ). Por outro lado, a metade dos pacientes ( 50,1% ) não apresentou
nenhum resultado ( Gráfico 1 ). A seguir, os bons resultados foram se consolidando,
conforme ilustrado no Gráfico 1, até que na última avaliação realizada pelos
próprios pacientes, com 90 dias de tratamento, 59% deles referia melhora importante
da ejaculação precoce ( notas 2 e 3 ), 27,4% dos pacientes relatava melhora
discreta ( nota 1 ) e apenas 13,6% dos 317 pacientes avaliados não havia notado
nenhuma melhora com o tratamento ( Gráfico 1).
Da mesma forma,
na avaliação realizada pelo médico responsável, com 90 dias de seguimento, o
tratamento foi considerado eficaz em 66% dos pacientes estudados ( Gráfico 2
). Essa avaliação revelou tambem que em apenas 18% dos pacientes o tratamento
não apresentou nenhum resultado ( Gráfico 2 ).
Por outro lado,
na primeira visita, com 15 dias de seguimento, 61,2% dos pacientes referiam
efeitos colaterais. Os mais importantes foram a sonolência que ocorreu em 27,6%
dos casos e tontura em 9,5% dos pacientes ( Gráfico 3). A freqüência dos efeitos
colaterais diminuiu a cada visita, atingindo 18,8% dos pacientes na última visita,
com 90 dias de seguimento. Nessa visita, o efeito adverso mais comum ainda era
a sonolência, porem presente em apenas 8,2% dos pacientes. A tontura ocorreu
em apenas 0,9% dos pacientes nesse período ( Gráfico 3 ).
Não houve nenhum
caso de priapismo ou distúrbios cardiovasculares nessa série de pacientes estudados.
Discussão
A ejaculação
precoce é a incapacidade de controlar de forma voluntária o reflexo ejaculatório,
que leva à obtenção da ejaculação e orgasmo muito rapidamente (4,5), porém,
não existe um consenso em relação a um tempo mínimo de latência para a ejaculação
ser considerada normal. É a forma mais freqüente de disfunção sexual masculina,
acometendo cerca de 30% dos homens (6,7). Embora ainda haja muita controvérsia
quanto à definição, podemos considerar como ejaculação precoce quando o orgasmo
e a ejaculação ocorrem antes do desejado, devido à falta de controle durante
a atividade sexual (4,8). Embora o período de latência da ejaculação esteja
intimamente ligado a mecanismos psicológicos e cognitivos (9,10), fatores somáticos
também estão envolvidos. A ejaculação é parcialmente mediada por um reflexo
neural estimulado por impulsos sensitivos do pênis tendo como resposta a contração
de músculos lisos e estriados que levam à emissão e expulsão do sêmen.
A Associação
Americana de Psiquiatria definiu ejaculação precoce como sendo "ejaculação persistente
ou recorrente com estimulação sexual mínima, antes, durante ou rapidamente após
a penetração vaginal, sem o desejo para tal" (4).
Geralmente
a ejaculação precoce é de causa idiopática. Causas orgânicas são extremamente
raras na ejaculação precoce (4-7,11). Vários autores acreditam que essa disfunção
sexual represente uma ansiedade de performance subclínica (11,12).
A primeira
opção terapêutica para ejaculação precoce tem sido comportamental, reservando-se
a terapia medicamentosa para os casos de falha da psicoterapia, ou quando essa
terapia não é aceita pelos pacientes (9-11,13). Porém, o sucesso obtido com
o tratamento farmacológico da ejaculação precoce (7,13,14) tem despertado a
atenção na pesquisa de drogas mais adequadas para um tratamento alternativo
à psicoterapia.
De qualquer
forma, diferentes drogas de uso psiquiátrico (7-12,14,15) e até cremes locais
tem sido utilizadas no tratamento da ejaculação precoce (16). Em casos de difícil
tratamento, a auto-injeção intracavernosa tem sido utilizada com bons resultados
(7,12,17).
O efeito de
drogas antidepressivas sobre a ejaculação já é bem conhecido. A trazodona, uma
droga classicamente associada a priapismo (1,2,15), foi escolhida por apresentar
também uma ação bloqueadora alfa-adrenérgica, que causa diminuição da contração
do músculo liso cavernoso, levando a manutenção da ereção por um tempo prolongado
(1-3,14).
O estudo realizado
tem importante significado, já que apresenta um universo bastante grande, com
317 pacientes adequadamente avaliados, acompanhados por vários médicos de diferentes
regiões do país.
Os resultados
obtidos no presente estudo podem ser considerados bastante bons. A primeira
vantagem desse tratamento foi a rapidez na obtenção dos resultados; já na primeira
visita, com apenas 15 dias, praticamente metade dos pacientes (49,9%) referiam
melhora da ejaculação precoce ( Gráfico 1 ).Embora os efeitos colaterais nessa
visita também fossem bastante comuns, ocorrendo em 61,2% dos casos, os pacientes
não apresentaram repercussão clínica importante ( Gráfico 3 ).Assim, o tratamento
foi continuado, com melhora paulatina tanto do índice de sucesso quanto de efeitos
colaterais.
Com 90 dias
de seguimento, 59% dos pacientes relatou uma melhora importante e outros 27,4%
referiu melhora discreta com o tratamento ( Gráfico 1). Ao mesmo tempo, a avaliação
realizada pelo médico responsável considerou o tratamento bem sucedido em 66%
dos pacientes ( Gráfico 2 ).
Por outro
lado, os efeitos colaterais tornaram-se menos intensos e menos freqüentes que
nas visitas anteriores, ocorrendo em 18,8% dos pacientes, sendo o mais importante
a sonolência, presente em 8,2% dos casos ( Gráfico 3 ).
Embora esses
resultados bastante encorajadores necessitem confirmação através de um estudo
duplo-cego com placebo, com seguimento mais longo; a trazodona representa uma
excelente opção no tratamento medicamentoso da ejaculação precoce.
Referências
bibliográficas
1. Haria
M., Fitton A., Mctavish D., Trazodone. A review of its pharmacology, therapeutic
use in depression and therapeutic potential in other disorders. Drugs Aging,
4:331-55,1994.
2. Krege S., Goepel M., Sperling H., Michel MC.: Affinity of trazodone
for human penile alfa 1 and alfa 2 - adrenoceptors. BJU International, 85:959-61,2000.
3. Owens MJ., Morgan WN., Plott SJ., Nemeroff CB. Neurotransmitter receptor
and transporter binding profile of antidepressants and their metabolites. J.
Pharmacol. Exp. Ther, 283:1305-22, 1997
4. American Psychiatric Association. Diagnostic and Statistical Manual
of Mental Disorders, 3rd ed., 1987, American Psychiatric Association, Washington
D.C.
5. Godpodinoff, M.L.; Premature ejaculation: clinical subgroups and etiology.
I.Sex. Marital ther., 1989; 15: 1130-2.
6. Derogatis, L.R.: Etiologic factors in premature ejaculation. Med.
Aspects Hum. Sexuality, 1980; 14: 32-36
7. Claro, J.A., Reflexões sobre a disfunção erétil. J. Bras. Urol., 1993;
19: 1-5.
8. Cooper, A.I., Cernovsky, Z.Z., Colussi, K. Some clinical and psychometric
characteristics of primary and secondary premature ejaculators. J.Sex. Marital
Ther., 1993; 19: 276-80.
9. Althof, S.E.: Pharmacologic treatment of rapid ejaculation. Psychiatr.
Clin. N. Amer., 1995; 18: 85-93.
10. Althof, S.E.: Pharmacologic treatment for rapid ejaculation: preliminary
strategies, concerns and questions. Sex. Marital Ther., 1995; 10:247-253.
11. Riley, A.C. e Riley,E.I.: Pharmacotherapy for sexual disfunction:
current status. In A.J. Riley, M. Peet, C. Wilson: Sexual Pharmacology, Clarendon
Press, Oxford, 1993, cap. 11, pp: 211-26.
12. Rosen, R.C., Ashton, A.K.. Prosexual drugs: Empirical status of the
"new aphrodisiacs". Arch. Sex. Behav, 1993; 22: 521-9.
13. Heitzmann, L.C.C., Ximenes,S.F., Lopez, J., Claro, J.A., Nardozza,
A.Jr., Srougi, M. Tratamento da Ejaculação Precoce com Clorpromazina. J. Bras.
Urol.; 1997; 23 (volume especial): 51 (T 116).
14. Aydin, S., Odabas, O, Ercan, M., Kara, H., Agargun, M.Y.: Efficacy
of testosterone undacanoate, trazodone and hypnotic suggestions in the treatment
of non-organic male sexual dysfunction. Brit. J. Urol., 1996; 77: 256-60.
15. Abber, J.C., Lue, T.F. Luo, J. -A., Juenemann, K -P., Tanagho, E.A.
Priapism induced by chlorpromazine and trazodone: mechanism of action. J. Urol.,
1987; 137: 1039-42.
16. Berkovitch,M., Keresteci, A.G., Koren, G.: Efficay of prilocaine-lidocaine
cream in the treatment of premature ejaculation. J. Urol, 1995; 154: 1360 -
1.
17. Fein, R.L.: Intracavernous Medication for treatment of premature
ejaculation. Urology, 1990; 35: 301-3.
Modelo
do questionário entregue ao paciente
Ejaculação
Precoce
Resultado
do tratamento
| 15 dias
|
|
| 30 dias |
|
| 45 dias |
|
| 60 dias
|
|
| 75 dias
|
|
| 90 dias |
|
| Médico:
|
C.R.M.: |
| Paciente:
|
data: |
LEMBRE-SE
: Nota do resultado:
-1 -
piorou
0 - não mudou nada
1 - melhorou pouco
2 - melhorou muito
3 - ficou normal