O diagnóstico
e tratamento da disfunção erétil sofreram uma verdadeira revolução desde a introdução
da injeção intracavernosa de drogas vasoativas em 1982. Nesta última década
a hemodinâmica, neuroanatômica e anatômica funcional, bem como a farmacologia
da ereção foram esclarecidas. Mais recentemente, pudemos compreender o papel
dos neurotransmissores no relaxamento e contração do músculo liso intracavernoso
e das células endoteliais. O efeito do diabetes mellitus, da aterosclerose,
do fumo e do álcool no endotélio, terminações nervosas, no músculo liso e na
trama fibroelástica intracavernosa tem sido intensamente estudado. A ereção
é iniciada por estímulos nervosos parassimpáticos, cujo neurotransmissor pré-ganglionar
é a acetilcolina. Por isso, inicialmente, ela foi considerada o neurotransmissor
da ereção. Contudo, hoje sabemos que o mediador pós-ganglionar da ereção é um
neurotransmissor não-adrenérgico não-colinérgico. Provavelmente, o neurotransmissor
mais importante da ereção é o óxido nítrico, produzido pelo endotélio, após
estímulo da acetilcolina (esquema 1). Assim, o óxido nítrico seria o responsável
direto pelo relaxamento do músculo liso intracavernoso, levando à ereção. Durante
a ereção, o pênis funciona como um capacitor acumulando sangue sob pressão elevada.
A dilatação do leito arterial permite a transmissão da pressão sistêmica para
o corpo cavernoso. À seguir, o relaxamento do músculo liso trabecular permite
a expansão dos espaços lacunares e acúmulo do sangue, graças à compressão passiva
das vênulas intracavernosas. Hemodinamicamente, a compressão das vênulas leva
a um grande aumento da resistência ao fluxo desses vasos, constituindo a base
funcional do mecanismo de veno-oclusão dos corpos cavernosos.
Esquema
1:
Em construção
Avaliação
do paciente com disfunção erétil
Atualmente,
calcula-se que existam nos Estados Unidos cerca de 30 milhões de homens com
disfunção erétil. Mais de 400.000 pacientes por ano procuram algum tipo de tratamento.
Aparentemente, a impotência esta correlacionada com a idade, atingindo 1,9%
dos homens aos 25 anos, 39% daqueles com 40 anos e ultrapassando os 50% após
os 70 anos de idade. Cerca de 80% dos casos de impotência são de etiologia orgânica.
Um diagnóstico etiológico preciso não é necessário em todos os homens com disfunção
erétil, e qualquer método diagnóstico deve ser justificado em têrmos da relação
custo-benefício para o paciente. Muitas vezes, uma história clínica acurada
e um exame físico cuidadoso fornecem todas as informações necessárias para a
correta condução do paciente. Porém, em alguns casos, o diagnóstico preciso
pode ser difícil e uma investigação mais completa pode ser necessária. É fundamental
salientar que não existe um exame "padrão ouro", nem sequer uma padronização
universal para os testes de avaliação da disfunção erétil. Assim, é necessário
que cada dado obtido seja levado em conta até que possamos, de forma racional,
fechar o diagnóstico. Obrigatoriamente , todo paciente deve ter uma dosagem
de glicemia, já que a impotência pode ser o primeiro sintoma de um diabetes
não diagnosticado. Embora a disfunção hormonal seja responsável por apenas cerca
de 4% a 5% dos casos de impotência, a testosterona e prolactina séricas devem
ser dosadas.
Teste
da injeção intracavernosa de drogas vasoativas
A papaverina
é uma droga muito barata e eficaz, porém até mesmo uma única aplicação pode
causar fibrose dos corpos cavernosos. Além disso, o índice de priapismo é bastante
alto. Por isso, temos realizado rotineiramente este teste com 10mcg de prostaglandina
E1. É importante lembrarmos que uma descarga adrenérgica pode inibir o efeito
dessas drogas, simulando assim um teste negativo (sem ereção), mesmo em pacientes
sabidamente psicogênicos.Assim, esse teste deve ser realizado num local confortável,
com um mínimo de discrição e privacidade para o paciente. O teste da injeção
intracavernosa assume importância em conjunto com outros dados obtidos do pacientes.
Talvez o papel mais importante do teste seja na seleção daqueles pacientes candidatos
a terapia de auto-injeção intracavernosa. Além do seu papel diagnóstico e na
seleção dos pacientes candidatos a auto-injeção, o uso intracavernoso de drogas
vasoativas tornou possível a realização de exames mais sofisticados, para a
avaliação vascular do paciente impotente.
Ultra-som
duplex peniano
Embora o duplex
avalie a velocidade de fluxo e não o fluxo arterial, tem provado ser um método
confiável e reprodutível na avaliação da insuficiência arterial peniana. Após
muita controversia sobre quais parâmetros deveriam ser avaliados, velocidade
de fluxo,calibre das artérias ou forma das ondas de fluxo, hoje existe um consenso
que o único parâmetro importante é pico de velocidade de fluxo sistólico das
artérias cavernosas, que deve ser superior a 25cm/s após a injeção intracavernosa.
Cavernosometria
e cavernosografia
Estes dois
exames avaliam o mecanismo de veno-oclusão que depende do adequado relaxamento
do músculo liso cavernoso. A única indicação formal de realização de cavernosometria
e cavernosografia é em pacientes jovens com impotência após trauma pélvico ou
perineal. Em instituições de ensino ou pesquisa esses exames também ser realizados,
em caracter experimental.
Doença
de peyronie
Inicialmente
descrita por Peyronie, em 1873 como uma deformidade dorsal do pênis, caracteriza-se
pela formação de uma placa fibrosa na túnica albugínea do pênis. A doença acomete
principalmente homens entre 40 e 50 anos de idade. A queixa principal desses
pacientes é a presença da placa e curvatura do pênis, porém muitos referem dor
durante a relação. Nos casos mais graves a curvatura pode impedir a penetração
vaginal ou causar dor excessiva na companheira. Com a evolução natural da doença,
os pacientes passam a não mais apresentar ereção plena.
Tratamento
da disfunção erétil
No início
dos anos 90 ficou claro que as chamadas cirurgias vasculares penianas apresentavam
resultados muito pobres, comparáveis ao placebo.. Por causa disso, são atualmente
considerados procedimentos experimentais, devendo-se reservar sua realização
para centros universitários e de pesquisa. Assim, no momento existem quatro
formas de tratamento da disfunção erétil: drogas orais, vacuoterapia, auto-injeção
intracavernosa e implante de prótese peniana.
Vacuoterapia
A vacuoterapia
não tem apresentado um índice de satisfação aceitável; apenas 55% dos casais
consideram o método adequado para o tratamento da impotência.Outra desvantagem
dessa técnica é que a ereção não deve se prolongar por mais de 30 minutos, já
que é considerada uma ereção com baixo fluxo arterial.
Auto-injeção
intracavernosa de drogas vasoativas
Desde que Virag,
em 1982, descobriu que a injeção intracavernosa de papaverina podia induzir
uma ereção plena, a auto-injeção deixou de ser um tratamento alternativo para
transformar-se na primeira opção terapêutica da impotência orgânica. Atualmente
a utilização da papaverina isolada foi abolida devido ao seu índice de complicações,
como o priapismo e efeitos sistêmicos. Porém seu efeito mais temível é a fibrose
dos corpos cavernosos, que pode ocorrer até mesmo após uma única injeção. Por
outro lado, a prostaglandina E1 tem se mostrado bastante eficaz, alcançando
sucesso em 79% dos casos, independente da etiologia. Além disso, graças a sua
rápida metabolização intracavernosa a ocorrência de priapismo é inferior a 1%
e o aparecimento de fibrose dos corpos cavernosos causada pela prostaglandina
E1 não é frequente. O efeito colateral mais importante da PGE1 é a dor no local
da sua aplicação, que ocorre em até 40% dos pacientes. Com o objetivo de aumentar
o índice de sucesso da auto-injeção e reduzir o custo do tratamento, Várias
associações de drogas foram desenvolvidas. A mais utilizada atualmente, conhecida
como tri-mix, ou solução de Goldstein (Universidade de Boston) é a associação
da PGE1, fentolamina e papaverina. Essa associação de drogas vasodilatadoras
e relaxantes do músculo liso cavernoso permitiu a utilização de doses muito
pequenas de cada droga, com sucesso superior a 95% dos casos de impotência de
qualquer etiologia, praticamente isenta de efeitos colaterais. O priapismo é
inferior a 0,5% dos casos e praticamente não existe fibrose dos corpos cavernosos.
Além disso, essa associação não causa dor peniana.
Implante
de próteses penianas
Há quase 3.000
anos os chineses já utilizavam hastes de marfim para completar e auxiliar a
ereção peniana. Atualmente podemos dispor de dois tipos básicos de próteses
penianas: as semi-rígidas e as infláveis O índice de sucesso do implante peniano
é bastante alto, atingindo 97% com as próteses infláveis e 98% com as semi-rígidas.
Desde o início dos anos 90 temos realizado o implante de próteses penianas sob
anestesia local, em carácter ambulatorial. Com isso diminuímos a morbidade e
o custo deste procedimento, sem perda do conforto para o paciente. A complicação
mais importante da colocação de próteses penianas é a infecção, que pode ocorrer
entre 3% a 10% dos casos. A verificação que esta é a única opção cirúrgica eficaz
no tratamento da impotência tornou o implante de prótese peniana um procedimento
bastante atraente para o paciente, com alto índice de satisfação.
Tratamento
oral
Recentemente,
alguns estudos têm demonstrado que o sildenafil, um vasodilatador, inibidor
da 5 fosfodiesterase, e a fentolamina, um bloqueador alfa 1 e alfa 2 adrenérgico,
que tambem causa um relaxamento não adrenérgico do corpo cavernoso, têm apresentado
cerca de 66% de sucesso no tratamento da impotência de várias etiologias. A
fentolamina deve ser administrada 30 minutos antes da relação sexual, enquanto
o sildenafil necessita de 1hora para fazer efeito.Além disso, o sildenafil tem
apresentado sérios efeitos colaterais em pacientes cardíacos.Por outro lado,
o único efeito colateral da fentolamina é a congestão nasal.
Ejaculação
precoce
A definição
de ejaculação precoce é a persistência de uma ejaculação após estimulação sexual
mínima, antes, durante ou rapidamente após a penetração vaginal. As várias formas
de tratamento da ejaculação precoce não apresentam sucesso definitivo, e frequentemente
o paciente volta a experimentar o aparecimento desse distúrbio. A psicoterapia
sexual é o tratamento de escolha, porém a maioria dos pacientes reluta em aceitar
a causa psicogênica do seu distúrbio e fazer o acompanhamento psicoterápico.
Além disso, a psicoterapia apresenta resultados apenas tardiamente. Assim, frequentemente,
é necessária a associação de tratamentos medicamentosos. O tratamento farmacológico
esta formalmente indicado nos pacientes sem uma companheira estável, ou com
companheira que se recuse a participar da psicoterapia sexual, naqueles em que
a psicoterapia falhou ou nos pacientes com depressão. Quando todas as essas
formas de tratamento falham, a auto-injeção intracavernosa de drogas vasoativas
esta indicada.