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Auto - injeção intracavernosa na impotência e qualidade de vida

A auto - injeção apresenta alto índice de sucesso no tratamento da impotência. Porém, devido ao seu estigma agressivo, já que é uma injeção no pênis, foi avaliada a satisfação sexual e qualidade de vida nos pacientes submetidos a este tratamento.

Cento e trinta e nove pacientes portadores de disfunção erétil seguidos por um período médio de 27 meses responderam dois questionários, relativos a satisfação sexual e a qualidade de vida.

A idade dos pacientes variou de 41 a 65 anos e o período de auto-injeção variou de 7 a 60 meses ( mediano de 19 meses ). Todos os pacientes relataram melhora nos parâmetros avaliados. Como já era esperado, houve melhora marcante na qualidade das e ereções e freguência de relações sexuais. Além disso, todos os pacientes relataram melhora importante da auto-estima, convívio social e diminuição da ansiedade.

Além de apresentar alto índice de sucesso na obtenção de ereções, a auto-injeção intracavernosa promove melhora tanto na qualidade de vida como na satisfação sexual dos pacientes submetidos a este tratamento.

Unitêrmos: Impotência, auto - injeção, qualidade de vida

Endereço para correspondência:
Prof.Dr. Joaquim de Almeida Claro
Av. Brig. Faria Lima, 1.713 - cj. 72
01452-001 - São Paulo - SP
Tel. (011) 211.6444
E-mail:jclaro@tdec.com.br

Introdução

A disfunção erétil é bastante frequente, acometendo cerca de 30 milhões de homens norte-americanos. Aos 60 anos de idade, em cada três homens, nos Estados Unidos, um apresenta disfunção erétil. Contudo, essa queixa se torna cada mais frequente mesmo entre os homens de faixa etária mais baixa (1).

A possibilidade de se induzir uma ereção durável em pacientes impotentes causou uma revolução no tratamento da impotência (2). Na realidade, a injeção intracavernosa de drogas pode induzir a ereção tanto em pacientes orgânicos como psicogênicos (3), até mesmo sem estímulo sexual. Mais recentemente, à partir de 1990, verificou-se que as chamadas cirurgias vasculares penianas: ligadura venosa, arterialização ou revascularização peniana, apresentam resultados extremamente precários (1) e que único método cirúrgico aceito cientificamente no tratamento da disfunção erétil é o implante de prótese peniana (4). Assim, a auto-injeção de drogas vasoativas tornou-se a primeira opção no tratamento da disfunção erétil (3).

Porém, à rigor, o principal objetivo da auto-injeção de drogas vasoativas deve ser melhorar a qualidade de vida do paciente, e não, simplesmente, possibilitar a obtenção de ereções plenas. Contudo, a auto-injeção intra cavernosa ainda apresenta um estigma negativo, provalmente, devido à sua natureza invasiva. Realmente, o conceito de um tratamento através de uma injeção aplicada no pênis dificilmente é aceito, logo de início, com satisfação.

Para conhecermos as repercussões a médio e longo prazo da auto-injeção na qualidade de vida e satisfação sexual, foi realizado esse estudo.

Pacientes e métodos

No período entre janeiro de 1991 e janeiro de 1996, trezentos e trinta e um pacientes com queixa da disfunção erétil foram submetidos a injeção intracavernosa de drogas vasoativas. A idade dos pacientes variou de 21 a 84 anos ( mediana de 56 anos ) e o tempo médio de impotência foi de 29 meses.

A forma de avaliação e acompanhamento desses pacientes já foi previamente apresentada (5).

A auto-injeção foi realizada com a solução idealizada por Goldstein (Universidade de Boston), composta por prostaglandina E1, fentolamina e papaverina.

Dentre os 331 pacientes tratados, 241 não apresentavam nenhum tipo de distúrbio emocional diagnosticado na entrevista inicial.

Dentre esses, cento e oitenta pacientes apresentaram um relacionamento sexual estável, com uma companheira permanente nos últimos seis meses.

Assim, esses 188 pacientes foram eleitos para avaliação da satisfação sexual e da qualidade de vida com a auto-injeção intracavernosa de drogas vasoativas. Nós solicitamos a todos os 188 pacientes que preenchessem dois questionários: o "Case Western Reserve University sexual functioning questionnare" (6) e o "Duke health profile" (7).

Ambos os questionários foram traduzidos e adaptados.

Nós solicitamos para que fosse feita uma comparação do estado atual com aquele imediatamente antes do tratamento.

Cento e sessenta e quatro pacientes concordaram em preencher os questionários, e 139 realmente entregaram os questionários preenchidos.

O questionário da Case Western Reserve University mediu a frequência de relações sexuais, qualidade de ereção e satisfação sexual em geral. Por outro lado, o da Duke avaliou, em 17 itens, a qualidade de vida do paciente, através do seu estado mental, convívio social, auto-estima, ansiedade e depressão.

Resultados

Os 139 pacientes que preencheram ambos os questionários relataram ereções plenas com utilização da medicação.

A idade desses pacientes variou de 41 a 65 anos (mediana 59 anos) e o período de auto-injeção variou de 7 meses a 60 meses (mediana de 19 meses). O tempo médio de impotência foi de 27 meses.

Todos os pacientes relataram melhora em todos os parâmetros avaliados. Embora pareça evidente o item relativo ao aumento da frequência de relações foi muito valorizado pelos pacientes.

Da mesma forma, os itens relativos a qualidade de vida apresentaram melhora em todos os pacientes. A melhora mais marcante ocorreu nos itens relativos a auto-estima e à ansiedade.

Discussão

Desde a verificação, no ínicio dos anos 90, de que as chamadas cirurgias vasculares penianas não promovem o retorno da função erétil na imensa maioria dos pacientes, apresentando índice de sucesso muito baixo, quer no tratamento da disfunção veno-oclusiva (8,9) quer na insuficiência arterial (10), a auto-injeção de drogas vasoativas tornou-se a primeira opção no tratamento da impotência, independente da sua etiologia (4,11,12).

A associação de várias drogas para injeção intra-cavernosa aumentou significamente o índice de sucesso dessa terapia, ao mesmo tempo que tornou bastante discretos os efeitos colaterais ( 11,12,13,14 ).

Sem dúvida nenhuma, a solução mais utilizada é a associação da prostaglandina E1, fentolamina e papaverina.

A associação dessas drogas permite um aumento do fluxo sanguíneo e um relaxamento do músculo sinusóide peniano, levando a ereção.

A experiência mundial tem demonstrado que esse tipo de tratamento é praticamente isento de complicações, mesmo com seguimento de até 8 anos (6).

Além disso, a associação dessas três drogas possibilitou a utilização de doses muito baixas da solução para obtenção da ereção, tornando então o tratamento menos honeroso para o paciente.

Em estudo anterior com um seguimento de médio prazo, obtivemos alto índice de sucesso ( 98,4% ), representando pela obtenção da ereção após a auto-injeção e pelo retorno à atividade sexual considerada satisfatória pelo paciente e pela sua companheira. (12)

Os episódios de priapismo foram bastante raros, e não houve nenhum caso de fibrose dos corpos cavernosos, o que comprova a segurança do tratamento. Os hematomas que alguns pacientes apresentaram não tiveram nenhuma implicação clínica ou estética. Além disso, devido à baixa dosagem utilizada, as drogas não apresentaram efeito sistêmico, podendo inclusive ser utilizados em pacientes cardiopatas, ou hipertensos na vigência de medicamentos anti-hipertensivos. (15)

Porém, restava a dúvida se a auto-injeção, devido ao seu estigma agressivo, já que é uma injeção no pênis, era aceita espontaneamente, ou apenas como falta de opção; já que o único outro tratamento da impotência seria o implante da prótese peniana. (16)

Conforme esperado, a auto-injeção melhorou muito a qualidade das ereções, frequência de relações sexuais e satisfação sexual de todos os pacientes. Mas o principal objetivo de qualquer tratamento é melhorar a qualidade de vida; e a auto-injeção ainda não havia sido submetida a esta prova.

Na presente série, houve melhora da qualidade de vida, também em todos os pacientes. Principalmente, os itens auto-estima e convívio social apresentaram um índice de melhora muito importante.

Por outro lado, de significado muito importante também é o fato do item ansiedade, ter diminuido em todos os pacientes. A avaliação desse item, isoladamente, revela como a disfunção erétil afeta o estado emocional dos pacientes, gerando alto grau de ansiedade, e como a auto-injeção conseguiu efetivamente minimizar muito os efeitos dessa disfunção na vida dos pacientes.

Assim, podemos concluir que a auto-injeção intracavernosa de drogas vaso-ativas, além de apresentar alto índice de sucesso na obtenção de ereção, promove uma melhora importante tanto na esfera sexual como na qualidade de vida dos pacientes submetidos a esta terapia.

Referências bibliográficas

1. Claro, J.F.A - Reflexões sobre a disfunção erétil. Editorial. J. Bras. Urol., 19:, 1993
2.
Virag, R. - Intracavernours injection of papaverine for erectile failure. Letter to the Editor. Lancet, 2: 938, 1982.
3. Virag, R.., Shoukry, K.; Floresco, J.; Nollet, F.; Grego, E. - Intracavernous self-injection of vasoative drugs in the treatment of impotence: 8 years exprerience with 615 cases. J. Urol., 145:287, 1991
4. Claro, J.F.A. - Disfunção sexual masculina. Editorial. Rev. Bras. Med., 49:654, 1992.
5. Claro, J.F.A., Ferreira, M, Vidotti, D., Bordenali, G., Denardi, F.: Tratamento Clínico da Impotência ( impress ).
6. Turner, L.A., Althof, S.E., Levine, S.B., Risen, L.B. Bodner, D.R., Kurch, E. D., Resnick, M: Self-injection of papaverine and phentolamine in the treatment of psychogenic impotence. J. Sex Marital Ther., 15: 163, 1989.
7. Parkerson. G. T., Broadhead, W.E., Tse, C.K. The Duke Health Profile. A 17 - item measure of and dysfunciotion. Med. Care, 28: 1056, 1990
8. Claro, J.F.A.; Netto, N.R. Jr.; Ferreira, U. - Comparison between short and long-term results of the surgical treatment of vono-oclusive disfunction. J. Urol., 147: 310-A, 1992.
9. Rajfer, J.; Neto, F. C.; Melvinger, C.M. - Long term results of penile vein ligation for venous leakage. J. Urol., 147, 310-A, 1992.
10. Sohn, M.A.; Akikora, R.R.; Wein, B.; Jakse, C. - Objetive invasive follow-up after revascularization. The end of the quest. Int. J. Impotence Research, 4-¿ ( suppl. 2 ): A 142, 1992.
11. Bennet, A.H.; Carpenter, A.J; Barada, J.H. - An improved vasoactive drug combination for a pharmacological erection programe. J. Urol., 146; 1564, 1991.
12. Claro. J. F.A., Andrade E., Fregonesi A., Brandão M., Appuzzo F. Ricceto C., Scafi C., Machado M., Saade R. Auto-injeção de drogas vasoativas no tratamento da impotência Rev. Bras. Med., 51: 1344, 1994
13. Lakin, M.M.; Montague, D.r.; Medendorp, S.V.; Tesar, L.; Schover, L. - Intracavernous injection therapy: analysis of results and complications. J. Urol., 143: 1138, 1990.
14. Levine, S.B.; S.B.; Althol, S.E.; Turner, L.A.; Risen, C.B.; Boduer, D.R.; Kursch, E. D.; Resnick, M. - Side effects of self-administration of intracavernous papaverine and phentolamine for treatment of impotence. J. Urol., 141: 54, 1989.
15.Claro J.F.A; First International Symposium: Neuromyovasculogenic Erective Dysfunction. 1995, Buenos Aires.
16. Claro, J.F.A, Netto, N.R.Jr., Scaffi, C., Fregonesi, A., Riccetto, C., Implante de prótese peniana com anestesia local e preservação da vascularização cavernosa. Rev. Bras. Med. 51, 652,1994
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