Alprostadil transuretral no tratamento da disfunção erétil
Resumo
Nós estudamos
31 pacientes com disfunção erétil de várias etiologias, com idade entre 21 e
72 anos (mediana de 57 anos) que receberam três aplicadores contendo placebo
e três contendo 500mcg de alprostadil, para administração transuretral. Num
seguimento de seis meses, apenas nove pacientes (29,03%) relataram ereções rígidas
ou suficientes para penetração vaginal. Dentre esses nove pacientes que responderam
bem ao tratamento, seis (66,66%) apresentaram ereções adequadas para manter
relações sexuais também com o placebo; sete (77,77%) apresentavam disfunção
erétil de etiologia psicogênica e seis (66,66%) tinham idade igual ou inferior
a 45 anos. O alprostadil transuretral apresentou resultados muito ruins entre
os pacientes com disfunção erétil orgânica e não apresentou nenhuma resposta
naqueles pacientes pós-prostatectomia radical. Por outro lado, as complicações
foram discretas, representadas por 12,90% de dor peniana; 3,22% de uretrorragia
e 3,22% de lesão do meato uretral. O alprostadil transuretral apresentou resultados
insatisfatórios no tratamento da disfunção erétil, não se constituindo numa
opção terapêutica adequada para os pacientes com disfunção erétil orgânica por
nós estudados até o momento.
A medicação
para o teste intracavernoso (aplicav) foi gentilmente cedida por Libbs farmacêutica
ltda. Trabalho realizado na disciplina de urologia da escola paulista de medicina
- universidade federal de São Paulo.
Endereço para
correspondência:
Rua Napoleão de Barros, 715 - 3º andar
CEP: 04024-003 São Paulo
Fax (011) 576-4062
jclaro@tdec.com.br
Introdução
A disfunção
erétil torna-se mais frequente com a idade (1), atingindo um em cada três homens
norte-americanos aos 60 anos de idade (2). O custo na avaliação e tratamento
da disfunção erétil nos E.U.A. é de 200 milhões de dólares por ano (2). Por
causa disso, a pesquisa de terapias mais modernas, mais simples e menos onerosas
para os pacientes tem sido exaustiva.
No início desta
década, verificamos que a chamadas cirurgias vasculares penianas, quaisquer
que sejam, apresentam resultados muito pobres, comparáveis ao placebo (1). A
ligadura venosa, então, utilizada no tratamento da disfunção cavernosa atinge
cerca de 35% de bons resultados (3). Da mesma forma, as arterializações ou revascularizações
penianas apresentam resultados comparados ao placebo, atingindo no máximo 50%
de sucesso em raros relatos da literatura (4).Por causa disso, essas cirurgias
são atualmente consideradas procedimentos experimentais, de carácter investigativo.
Assim, já em
1994, a Associação Americana de Urologia considerava como as únicas formas de
tratamento da disfunção erétil a vacuoterapia, a auto-injeção intra-cavernosa
e o implante de próteses penianas. Desde então confirmaram-se os execelentes
resultados obtidos com a injeção intracavernosa de drogas vasoativas, com complicações
mínimas (5,6,7). Além disso, o avanço técnico das próteses penianas e o maior
conhecimento da vascularização peniana permitiram que o implante dessas próteses
fosse realizado sob anestesia local, em carácter ambulatorial, com mínima lesão
dos corpos cavernosos (8). Por outro lado, a vacuoterapia não foi bem aceita
no nosso meio. Recentemente, verificou-se que a auto-injeção, além de eficaz,
melhora a qualidade de vida dos pacientes (9) e que uma maior evolução técnica
no implante de prótese peniana tornou o procedimento mais confortável para o
paciente (10).
Contudo, nenhum
desses tratamentos se apresenta, como a forma ideal imaginada pelos pacientes
e a sua aceitação, geralmente, se deve a falta de opção de terapias menos invasivas,
mais estéticas e com maior preservação da auto-imagem masculina. Por isso, a
pesquisa por tratamentos alternativos é bastante importante. A terapia oral,
com a fentolamina, a trazodona ou o sildenafil é uma esperança. A utilização
da prostaglandina E1, em outras formas que não intracavernosa, também representa
um importante campo de pesquisa.
No presente
estudo, apresentamos a nossa experiência com a utilização transureteral da prostaglandina
E1.
Pacientes e métodos
Dentre 50 homens
que iniciaram o estudo, foi possível acompanhar 31 pacientes com disfunção erétil
de várias etiologias. Os critérios de inclusão neste estudo foram os seguintes:
relacionamento heterossexual estável e disfunção erétil há pelo menos seis meses
sem a utilização de nenhuma terapia anterior. Os pacientes foram avaliados pela
história clínica, exame físico especial (4), avaliação laboratorial, avaliação
psicológica (Dra. Maria Cristina), injeção intracavernosa de 10mcg de prostaglandina
E1 e duplex ultra-som das artérias cavernosas. Todos os pacientes receberam
seis aplicadores para administração transuretral, com cores diferentes: branco,
amarelo e preto representavam aplicadores contendo 500mcg de alprostadil, e
as cores azul, verde e vermelho aplicadores com placebo.Todos os pacientes assinaram
um consentimento, de acôrdo com as recomendações da Comissão de Ética e Pesquisa
da Esola Paulista de Medicina.Contudo, os pacientes não tinham conhecimento
que metade dos aplicadores continham placebo, porém os investigadores conheciam
o código de cores.Em seguida, os pacientes foram orientados para utilização
adequada, em casa, dos aplicadores, independente da cor dos mesmos. Além disso,
receberam um questionário e orientação para classificar suas ereções de acôrdo
com a escala de Avaliação da Ereção (11), com as seguintes notas:
1 - nenhuma resposta;
2 - discreta tumescência;
3 - tumescência (não suficiente para penetração);
4 - ereção suficiente para relação e
5 - ereção rígida, correlacionando cada nota com a cor do aplicador
utilizado.
Todos os pacientes
foram acompanhados com visitas quinzenais durante um período de seis meses.
Resultados
A idade dos
pacientes variou de 21 a 72 anos (mediana de 57anos) (Gráfico 1). A etiologia
da disfunção erétil, bem como os resultados da aplicação da prostaglandina E1
intracavernosa e transuretral estão apresentados na Tabela 1 e nos Gráficos
2 e 3. Todos os 31 pacientes tiveram resposta, pelo menos tumêscencia peniana,
com injeção intracavernosa de 10mcg de alprostadil; sendo que 64,51% deles apresentaram
ereções rígidas e outros 25,80% ereções suficientes para a penetração, segundo
a avaliação do investigador, no consultório. Ou seja, 90,31% seriam capazes
de manter relação sexual com a injeção intra cavernosa de prostaglandina E1.
Por outro lado,
apenas nove pacientes (29,03%) relataram ereções rígidas ou suficientes para
penetração, com a utilização de 500mcg de alprostadil transuretral em casa (Gráfico
3). Mais ainda, desses nove pacientes, seis (66,66%) apresentaram ereções suficientes
para penetração vaginal com a utilização de placebo por via transuretral ( Gráfico
4). Sete pacientes (77,77%) entre esses nove, apresentaram etiologia psicogênica,
como causa da disfunção erétil (Gráfico 5) e seis deles (66,66%) tinham idade
igual ou inferior a 45 anos(Gráfico 6). Outro dado importante é que nenhum dos
pacientes submetidos a prostatectomia radical obteve resposta com o alprostadil
transuretral.
Contudo, o
índice de complicações foi aceitável, quatro pacientes (12,90%) se queixaram
de dor após a aplicação transuretral de 500mcg de alprostadil, e um deles (3,22%)
teve uretrorragia importante. Um paciente (3,22%) teve dificuldade na utilização
do aplicador, apresentando lesão do meato uretral. Nenhuma complicação atribuída
ao placebo foi relatada.
Após um seguimento de seis meses, apenas seis pacientes (19,35%), todos psicogênicos,
continuam utilizando o alprostadil transuretral.
Discussão
A utilização
do alprostadil (uma droga sintética idêntica à prostaglandina E1) na disfunção
erétil é bem conhecida. A prostaglandina E1 eleva a concentração intracelular
do AMP cíclico (12), levando ao relaxamento do músculo liso cavernoso, aumento
do afluxo sanguíneo arterial, com dilatação dos sinusóides e a veno-oclusão,
graças a compressão das vênulas sub-túnica contra a túnica albugínea (13).
Naturalmente
a tentativa de se utilizar essa droga por via transuretral sem a necessidade
de uma injeção peniana é muito atraente. Embora existam veias submucosas que
comunicam o corpo esponjoso e o corpo cavernoso, criando uma possível via de
absorção, ela é considerada errática (14), ou seja não existe uma correlação
constante entre a dose da droga administrada e a dose absorvida.
Isso pode
explicar porque de relatos de pacientes que com a mesma dose de alprostadil
transuretral podem apresentar priapismo ou mesmo nenhuma resposta.
De qualquer
forma,num estudo pioneiro Padma-Natan e cols (15) (grupo de estudo do Medicated
Uretheral System for Erection - M.U.S.E.) apresentaram bons resultados com a
utilização do alprostadil transuretral; 64,9% dos pacientes tinham relações
em casa, independentemente da etiologia da impotência e da idade desses pacientes,
com apenas 5,1% de discretos traumas de uretra. Porém, 32,7% dos pacientes apresentavam
dor após a aplicação transurteral. Mais recentemente, Porst (16) relatou que
43% dos pacientes tratados com 1000mcg de alprostadil transuretral conseguiam
manter relação sexual, mas apenas 10% apresentavam ereção rígida. Da mesma forma,
Werthmam e Rajfer (17) obtiveram 30% de ereções que permitiram a penetração
vaginal, mas apenas 7% de 100 pacientes utilizando até 1000mcg de alprostadil
relataram ereções rígidas.
No presente
estudo, obtivemos praticamente os mesmos resultados que esses estudos mais recentes.
Utilizando
a dose de 500mcg transuretral de alprostadil, 29,03% dos pacientes relataram
ereções que permitiram a penetração vaginal, na maioria dos episódios com ereções
plenas (tabela 1). Porém, alguns aspectos devem ser levados em consideração
na análise dos nossos resultados. O aspecto mais importante é que a maioria
desses pacientes (66,66%) tambem obtiveram bons resultados com o placebo. Além
disso 77,77% eram pacientes psicogênicos e 66,66% deles muito jovens, com idade
inferior a 45 anos de idade. Assim, talvez o pequeno número de pacientes acompanhados,
com uma grande proporção de pacientes jovens e psicogênicos tenha criado uma
tendência a resultados melhores. De qualquer maneira, 29,03% de bons resultados
não é uma taxa satisfatória. Mesmo se levarmos em conta a indicação da via transuretral
apenas em pacientes psicogênicos, essa terapia não consegue ser atraente uma
vez que na nossa experiência algumas drogas orais, entre as quais a trazodona,
têm apresentado altos índices de sucesso, com as claras vantagens da administração
por via oral e de um custo muito menor do tratamento.
Por outro
lado, ficou claro que na dose de 500mcg, o alprostadil transuretral apresenta
resultados muito ruins no tratamento de pacientes com disfunção erétil de origem
orgânica, ou de idade avançada. Mais ainda, essa forma de terapia não mostrou
nenhuma resposta naqueles pacientes com impotência pós-prostatectomia radical.
Finalmente,
o índice de complicação relativamente baixo que obtivemos pode ser explicado
pela utilização do alprostadil na dose de 500mcg, uma vez que, na prática diária,
a dose de 1000mcg causa dor peniana na maioria dos pacientes e uretrorragia
em um número significativo deles, sem contudo melhorar os resultados, conforme
já demonstrado nos estudos anteriores (16,17).
Naturalmente, seria necessário um número maior de pacientes estudados e submetidos
a uma avaliação objetiva do efeito da prostaglandina E1 transuretral para obtermos
uma conclusão definitiva.
Porém, parece
que a utilização do alprostadil por via transuretral na forma como é empregado
atualmente não constitui uma opção terapêutica adequada nos pacientes com disfunção
erétil orgânica. Embora os pacientes psicogênicos possam se beneficiar dessa
terapia, o tratamento oral com a trazodona ou a psicoterapia sexual, parecem
mais adequadas para esse grupo particular de pacientes.
Referências
bibliográficas
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: Disfunção Sexual Masculina. In: Ramos, O.L., Rothschild, H.A. . Atualização
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10. Claro,J.A., Nardozza,A.Jr., Rodrigues,F.M., Araújo,J.F., Srougi,M.
Evolução técnica após 101 casos de implante de prótese peniana sob anestesia
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15. Padma-Natan,H., Hellstrom,J.G., Kaiser,F.E., Labasky,R.F., Lue, T.F.,
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Gesundheit,N. Treatment of men with erectile dysfunction with transurethral
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system for erection) vs. Intracavernous alprostadil - a comparative study in
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Urology, 50(5): 809-811, 1997
Tabela 1-
Resultados do Alprostadil Transuretral na Disfunção Erétil.
|
PAC
|
IDADE
|
ETIOLOGIA
|
PGE1
I.C. (10mcg)
|
PGE1
T.U. (500mcg)
|
PLACEBO
T.U.
|
|
1
|
21
|
psicogênico |
ereção
rígida |
5
|
4
|
4
|
3
|
4
|
3
|
|
2
|
24
|
psicogênico |
ereção
rígida |
5
|
1
|
1
|
5
|
1
|
5
|
|
3
|
38
|
psicogênico |
ereção
rígida |
5
|
5
|
5
|
1
|
3
|
1
|
|
4
|
38
|
psicogênico |
ereção
rígida |
5
|
5
|
5
|
3
|
3
|
4
|
|
5
|
39
|
psicogênico |
ereção
rígida |
3
|
3
|
3
|
1
|
3
|
2
|
|
6
|
43
|
psicogênico |
ereção
rígida |
5
|
5
|
5
|
5
|
5
|
5
|
|
7
|
45
|
insuficiência
arterial (diabetes) |
ereção
rígida |
5
|
5
|
5
|
5
|
5
|
5
|
|
8
|
50
|
insuficiência
arterial (diabetes) |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
9
|
50
|
insuficiência
arterial (diabetes) |
ereção |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
10
|
53
|
insuficiência
arterial (diabetes) |
ereção |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
11
|
54
|
insuficiência
arterial (diabetes) |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
12
|
54
|
prostatect.
radical |
tumescência |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
13
|
54
|
psicogênico |
tumescência |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
14
|
55
|
psicogênico |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
15
|
56
|
prostatect.
radical |
ereção |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
16
|
57
|
insuficiência
arterial |
ereção |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
17
|
57
|
insuficiência
arterial (diabetes) |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
18
|
58
|
psicogênico |
ereção
rígida |
5
|
4
|
4
|
3
|
1
|
3
|
|
19
|
59
|
insuficiência
arterial |
ereção |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
20
|
59
|
psicogênico |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
21
|
60
|
prostatect.
radical |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
22
|
61
|
insuficiência
arterial |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
23
|
64
|
prostatect.
radical |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
24
|
64
|
rrdt. (ca
próstata) |
tumescência |
5
|
4
|
4
|
4
|
3
|
4
|
|
25
|
64
|
insuficiência
arterial |
ereção
rígida |
5
|
4
|
5
|
2
|
3
|
1
|
|
26
|
65
|
prostatect.
radical |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
27
|
66
|
prostatect.
radical |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
28
|
67
|
insuficiência
arterial |
ereção
rígida |
1
|
3
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
29
|
67
|
prostatect.
radical |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
30
|
68
|
insuficiência
arterial |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
|
31
|
72
|
prostatect.
radical |
ereção
rígida |
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
1
|
PGE1 I.C. - intracavernosa
PGE1 T.U. - transuretral
Placebo T.U. - transuretral
OBS.:
A utilização dos aplicadores em casa foi aleatória Notas:
1
- sem resposta;
2 - tumescência discreta;
3 - tumescência (sem penetração)
4 - ereção (com penetração) e
5
- ereção rígida.
 |
|