O
que causa os vômitos? - Existem muitas causas de vômitos, e enquanto
a maioria das etiologias são de origem mecânica e estão relacionadas ao trato
gastrointestinal, os vômitos também podem ocorrer em algumas doenças metabólicas,
neurológicas e infecciosas, como a sepse, pneumonia e meningite. As doenças
inflamatórias do trato gastrointestinal também podem causar vômitos, mais comumente
a gastroenterite, geralmente por infecções virais. Em outros casos, os vômitos
são causados por obstruções secundárias a condições como a intussuscepção, volvo
e aderências ou estenoses congênitas mas, de modo geral, as principais causas
de quadros crônicos de vômitos em crianças são de origem gástrica, incluindo
o piloroespasmo, estenose pilórica e gastrite. As crianças com essas distúrbios
podem ser avaliadas através de vários métodos de imagem, e a escolha do exame
pode variar entre as instituições. No nosso departamento, a ultra-sonografia
de estômago (mais especificamente do antro) mostrou ser o estudo inicial mais
útil, na maioria das vezes dispensando outros métodos. De fato, é um exame fundamental
na investigação desses pacientes, representando a maneira mais objetiva de identificar
os problemas existentes.
Em
caso de vômitos, é necessário demonstrar o refluxo? - Não é necessário
realizar estudos seriados do TGI superior ou qualquer outro método de imagem
para demonstrar o refluxo. O mais importante é determinar por qual motivo o
paciente apresenta refluxo. Em outras palavras, há uma obstrução duodenal ou
uma dificuldade de esvaziamento gástrico, ou o problema resulta de acalásia
com um antro normal? O último diagnóstico ocorre após a exclusão de obstrução
gástrica ou duodenal, e na nossa instituição a ultra-sonografia se mostrou útil
na realização desse diagnóstico.
Não se deve concluir, no
entanto, que outros métodos de imagem não devem ser realizados. Pelo contrário,
a cintilografia (mais sensível), seguida do estudo seriado do TGI superior,
pode identificar melhor o refluxo que pode estar associado a períodos de apnéia,
aspiração crônica, etc.
Quais
doenças podem ser encontradas?
Na maioria dos casos, as
seguintes causas de vômitos podem ser encontradas em crianças: 1) antro normal
com acalásia, 2) piloroespasmo, 3) estenose pilórica, 4) gastrite, e 5) obstruções
congênitas do estômago e duodeno. No estudo de algumas dessas condições, o uso
de alguns métodos de imagem de escolha é recomendado, mas na maioria das vezes
a ultra-sonografia é suficiente para a avaliação inicial e confirmação diagnóstica.
Além disso, o exame ultra-sonográfico com transdutores lineares de alta resolução
disponíveis atualmente (7 a 10 MHz) permite a avaliação do antro gástrico com
a caracterização de todas as camadas que constituem o trato gastrointestinal.
Ao mesmo tempo, o radiologista pode estudar o esvaziamento gástrico. Dessa forma,
a ultra-sonografia é um estudo ideal para a avaliação dos quadros crônicos de
vômitos em crianças.
Exames
seriados do TGI superior
O estudo seriado do TGI
superior apresenta a desvantagem da exposição do paciente à radiação ionizante.
Não se trata de uma condição limitante, mas a sua realização deve ser evitada
sempre que possível. No passado, representava o único exame disponível, demonstrando
bem a obstrução ou retardo no esvaziamento gástrico e obstruções duodenais,
apesar de apresentar achados antrais geralmente inespecíficos. Isso ocorre freqüentemente
com o piloroespasmo e a estenose pilórica, sendo menos importante na gastrite.
É um exame muito bom também para a identificação de problemas raros, como o
diafragma gástrico ou o diafragma duodenal (um pouco mais comum).
Ultra-sonografia
do estômago
Na nossa instituição, conforme
mencionado anteriormente, a ultra-sonografia é o método de imagem mais utilizado
para a avaliação de crianças com vômitos persistentes. Ela permite um estudo
detalhado do antro e a observação do esvaziamento gástrico. Entretanto, deve
ser realizada com transdutores lineares de alta resolução (7 a 10 MHz). Quando
esses aparelhos são utilizados, todas as camadas da parede gástrica podem ser
visualizadas (além do antro). A ultrassonografia também pode demonstrar o refluxo
gastroesofágico, apesar de não ser o objetivo do exame.
Os critérios para o diagnóstico
de estenose pilórica incluem um canal antropilórico alongado, espástico e fixo,
associado ao espessamento do músculo antropilórico circular. Anteriormente,
grande atenção era dada ao comprimento e o diâmetro transverso do canal pilórico.
Até medidas de volume foram sugeridas, mas atualmente o diagnóstico é baseado
na espessura do músculo pilórico. Não há dúvidas de que o canal pilórico está
alongado nesses pacientes, mas esse achado é tão óbvio que não vale a pena proceder
a sua medida. Apesar disso, considera-se um canal pilórico alongado quando seu
comprimento é igual ou superior a 1,2 cm (anteriormente considerava-se o valor
de 1,7 cm). Na verdade, contudo, esses critérios são controversos e a estenose
pilórica é diagnosticada, na maioria das vezes, pela simples inspeção. A configuração
do piloro alongado, juntamente com o espessamento muscular, é um achado tão
persistente que não suscita dúvidas em relação ao diagnóstico. Até mesmo a medida
da espessura muscular, quando o médico é experiente, é desnecessária.
Em relação à espessura muscular,
inicialmente considerava-se um valor igual ou maior que 4 mm para o diagnóstico
da estenose pilórica. Posteriormente, o valor de 3 mm passou a ser considerado.
Espessamentos menos significativos não são consistentes com a estenose pilórica,
e esses pacientes não devem ser tratados cirurgicamente. Por outro lado, uma
espessura de 2 a 3 mm não deve ser considerada normal, podendo acompanhar os
quadros de piloroespasmo, com ou sem gastrite associada. Esses pacientes apresentam
um esvaziamento gástrico alterado e necessitam de tratamento, que na maioria
das vezes consiste em agentes antiespasmódicos, como a metoclopramida.
Os achados clássicos da
estenose pilórica, conforme citado anteriormente, são de fácil identificação.
O alongamento do canal pilórico com o espessamento muscular é característico.
No entanto, podem ocorrer uma ou duas armadilhas. A mais comum é a ecogenicidade
na secção transversal 6:00 e 12:00, que pode tornar o músculo ecogênico e quase
invisível quando é observada em uma secção longitudinal no plano sagital médio.
Acredita-se que essa ecogenicidade é devida a reflexões dos limites entre as
fibras musculares circulares, na medida em que elas passam através das posições
6:00 e 12:00. Entretanto, também pode ocorrer por reverberação. De qualquer
modo, não apresenta importância clínica real quando observada.
A outra armadilha está
relacionada com o posicionamento posterior do canal pilórico. Na estenose pilórica,
caracteristicamente, o canal pilórico apresenta algum grau de posicionamento
e curvatura posterior. Contudo, quando o estômago está repleto de alimentos
ou líquidos, como costuma ocorrer nessas crianças, pode esconder o canal pilórico
posicionado posteriormente e dificultar a visualização completa do espessamento
muscular. Esse fato representava um problema no início dos estudos ultra-sonográficos,
mas foi resolvido com a experiência. Após a consideração dessas possíveis armadilhas,
o diagnóstico ultra-sonográfico de estenose pilórica, por pessoas experientes,
é de quase 100%. Dessa forma, a ultra-sonografia é um exame direto e definitivo
que pode economizar tempo e esforço durante a investigação.
Os achados de piloroespasmo
são similares àqueles da estenose pilórica, mas enquanto o canal pilórico pode
se apresentar alongado e fixo inicialmente, não permanece dessa forma indefinidamente.
Eventualmente, o canal pilórico se abre e os movimentos peristálticos passam
através dele. Em muitos casos, o músculo pilórico pode apresentar um espessamento
discreto, nunca ultrapassando 2 mm. Se apresentar 3 mm ou mais, o diagnóstico
deve ser de estenose pilórica, e não de piloroespasmo.
Utilizando-se esses critérios,
o diagnóstico de piloroespasmo é relativamente simples e os achados radiológicos
são de fácil interpretação. O tratamento consiste na administração de drogas
antiespasmódicas, como a metoclopramida. Isso leva ao relaxamento do antro e
à normalização do esvaziamento gástrico. A maioria dos pacientes responde bem
a esse tratamento, mas em alguns casos ocorre a progressão para estenose pilórica.
A gastrite também é relativamente
fácil de ser identificada com a ultra-sonografia, e a sua prevalência em crianças
costuma ser subestimada. Em geral, é secundária a alergia ao leite. No exame
ultra-sonográfico, a mucosa encontra-se espessada (acima de 2 a 3 mm ³) e ecogênica;
o espessamento pode ser circunferencial ou excêntrico.
As obstruções duodenais,
como as relacionadas com o volvo intestinal, também podem ser identificadas
através da ultra-sonografia. O principal achado nesses casos é uma distensão
duodenal, melhor visualizada no estudo seriado do TGI superior, observando-se
o aspecto em espiral do intestino delgado em volta do mesentério torcido.
A ultra-sonografia tornou-se
útil também na identificação de alterações na relação da artéria e veia mesentérica
superior. Apesar de não ser infalível, a mudança de posição desses vasos levanta
a suspeita, e é praticamente diagnóstica, de um vício de rotação. Além disso,
caso um volvo esteja presente, a gordura mesentérica e o próprio mesentério,
juntamente com os vasos mesentéricos, podem ser vistos em um aspecto semelhante
a anéis concêntricos, o chamado sinal do "redemoinho". A ultra-sonografia também
pode identificar diafragmas gástricos. No entanto, muitas vezes essas condições
são melhor estudadas com o estudo seriado do TGI superior.
Referências
1. Hayden CK Jr., Swischuk LE, Lobe TE, et al: Ultrasound: The definitive
imaging modality in pyloric stenosis. Radiographics 4:517-530, 1984.
2. Spevak MR, Ahmadjian JM, Kleinman, PK, et al: Sonography of hypertrophic
pyloric stenosis; frequency and cause of nonuniform echogenicity of thickened
pyloric muscle. AJR 158:129-132, 1992.
3. Hayden CK, Swischuk LE, Rytting JE: Gastric ulcer disease in infants:
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4. Hayden CK Jr., Boulden TF, Swischuk LE, Lobe TE: Sonographic demonstration
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5. Loyer E, Eggli KD: Sonographic evaluation of superior mesenteric vascular
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