No
Brasil, o câncer de pulmão é o 2º mais freqüente
em homens e o 6º em mulheres (esse índice aumentou 22% na última
década, com o aumento do número de mulheres tabagistas). No mundo,
o câncer de pulmão é a maior causa de morte por câncer.
O tabagismo é o grande fator
de risco, respondendo por 80% dos casos. O risco aumenta proporcionalmente ao
número de cigarros utilizados por dia e ao número de anos como
fumante. As pessoas que convivem com os fumantes (“fumantes passivos”)
também têm risco aumentado para câncer de pulmão,
aproximadamente 30% a mais que os não expostos ao cigarro. Outras substâncias
cuja exposição aumenta a probabilidade desse tipo de câncer
são o asbesto (substância química presente em revestimentos
antigos e na mineração) e o gás radônio (gás
radioativo derivado do urânio que pode se acumular no solo e nas fundações
de construções).
A prevenção, por meio
da luta contra o tabagismo, é a mais importante forma de ação.
A outra medida essencial é realizar o diagnóstico desta doença
em fase precoce, nas qual intervenções (principalmente cirúrgicas)
podem curar a doença ou melhorar drasticamente a vida da pessoa acometida.
Porém, apenas 15% dos cânceres de pulmão são detectados
em estadio precoce, pelo fato de permanecer em silêncio por um longo tempo,
sem provocar sintomas (tosse persistente, rouquidão, emagrecimento, presença
de sangue no catarro, febre sem causa aparente).
Em fase tardia de sua evolução,
o tratamento é muito limitado. Dessa maneira a discussão de estratégias
de detecção precoce (através de um rastreamento populacional)
do câncer de pulmão é muito importante.
Muitos especialistas discutem
o papel da tomografia computadorizada (TC) no rastreamento do câncer de
pulmão. Recentemente os pesquisadores do Memorial Sloan-Kettering
e Fred Hutchinson Cancer Research Center desenvolveram um método
baseado no sexo, idade, tempo de tabagismo e exposição ao asbesto
para ajudar a identificar os pacientes que podem se beneficiar com o rastreamento.
O médico Peter B.
Bach, do Memorial Sloan-Kettering, apresentou o modelo no CHEST
2002, o 68º encontro anual do American College of Chest Physicians
(entidade médica americana que discute problemas do tórax e dos
pulmões). O estudo analisou os dados do estudo CARROT (realizado em Seattle)
sobre a prevenção do câncer de pulmão, que acompanhou
aproximadamente 170.000 pessoas durante um ano, entre estas 18.000 tabagistas.
Durante o estudo, foram diagnosticados 1.070 casos de câncer de pulmão.
Com base nesses dados, os pesquisadores desenvolveram o novo modelo baseado
na idade, sexo, tabagismo e exposição ao asbesto. O objetivo foi
identificar o risco para o desenvolvimento da doença em um período
de 10 anos.
Um exemplo: utilizando o modelo em
questão, uma mulher de 51 anos, que fumou 20 cigarros por dia durante
28 anos e parou de fumar há 9 anos (e não apresenta exposição
ambiental ao asbesto) tem um risco absoluto de 0,8% de desenvolver câncer
de pulmão. Por outro lado, um homem de 56 anos sem antecedente de exposição
ao asbesto, que fumou 2 maços de cigarro durante 44 anos e pára
de fumar hoje, tem um risco absoluto de 6% de desenvolver o câncer pulmonar.
Se ele não parar de fumar, o risco passa a 8,5%.
Embora existam controvérsias
sobre a importância do rastreamento do câncer de pulmão com
TC, o chefe da pesquisa afirma que a maioria dos especialistas concordaria em
não realizar o rastreamento em uma mulher de 51 anos com 0,8% de risco
para a doença, enquanto muitos recomendariam o acompanhamento no caso
do homem citado acima.
Especialistas do Henry
Ford Hospital, entretanto, ressaltam que ainda não se tem certeza
da eficácia do rastreamento com a TC. Um deles, pesquisador do estudo
clínico em andamento sobre o rastreamento do câncer de pulmão
coordenado pelo National Cancer Institute, afirma acreditar na importância
desse tipo de modelo preditivo, mas diz que ainda existem muitas dúvidas
sobre o papel do rastreamento. O modelo pode ser util, do ponto de vista clínico,
ao decidir o que fazer com um paciente que apresenta um nódulo de 2 mm
na radiografia de tórax. Segundo ele, a maioria dos clínicos têm
dificuldade em decidir o que fazer com pacientes que apresentam lesões
muito pequenas na radiografia. Utilizando esse modelo, muitos podem preferir
acompanhar o comportamento de uma lesão durante 3 meses em um paciente,
como a mulher de 51 anos. Ele ainda afirma que o paciente com risco elevado
seria um candidato para uma biópsia naquele momento.
Referência
CHEST 2002: Abstract S19; nov 2002.