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Hipertensão Pulmonar

>> Introdução

Nos últimos anos, uma melhor compreensão da fisiopatologia e da história natural da hipertensão arterial pulmonar, bem como a evolução dos métodos diagnósticos e o desenvolvimento de novas drogas, mudaram radicalmente a abordagem de pacientes com essa doença.

A doença pode ser idiopática (sem causa conhecida, também denominada primária) ou resultar de inúmeras condições (Tabela 1), em especial de algumas doenças pulmonares (como a DPOC e as pneumonias intersticiais), doenças que envolvem as câmaras cardíacas esquerdas, a drenagem venosa pulmonar e/ou a circulação arterial pulmonar.

Classificação da Hipertensão Pulmonar segundo a Organização Mundial da Saúde
Hipertensão Arterial Pulmonar

Hipertensão Pulmonar Primária

  • Forma esporádica
  • Forma familiar

Condições relacionadas

  • Doenças do colágeno
  • Shunts congênitos entre a circulação sistêmica e pulmonar
  • Hipertensão portal
  • Infecção pelo HIV
  • Drogas e toxinas
  • Inibidores do apetite
  • Outros

Hipertensão Pulmonar Persistente do Recém-nascido

Outros

Hipertensão Pulmonar Venosa

Doenças que afetam as câmaras cardíacas esquerdas

Doenças que afetam as valvas cardíacas nas câmaras esquerdas

Compressão extrínseca de veias pulmonares centrais

  • Mediastinite fibrosante
  • Linfonodomegalias e/ou tumores

Doença pulmonar veno-oclusiva

Outros

Hipertensão Pulmonar associada com doenças do aparelho respiratório e/ou hipoxemia

DPOC

Pneumonias intersticiais

Apnéia obstrutiva do sono

Distúrbios da ventilação alveolar

Exposição crônica a altitudes elevadas

Doença pulmonar neonatal

Displasia alvéolo-capilar

Outros

Hipertensão Pulmonar resultante de doença trombótica e/ou embólica crônica

Obstrução tromboembólica do segmento proximal das artérias pulmonares

Obstrução do segmento distal das artérias pulmonares

  • Embolia pulmonary (trombo, ovos e/ou parasitas, corpo estranho)
  • Trombose in situ
  • Anemia falciforme

Hipertensão Pulmonar resultante de condições que afetam diretamente a vasculatura pulmonar

Doenças inflamatórias

  • Esquistossomose
  • Sarcoidose
  • Outras

Hemangiomatose capilar pulmonar

Fonte:
Executive summary from the World Symposium on Primary Pulmonary Hypertension 1998, Evian, France, September 6-10, 1998, cosponsored by the World Health Organization. Retrieved April 14, 2000, from the World Wide Web: http://www.who.int/ncd/cvd/pph.html.

Hoje em dia, já se sabe que algumas formas de hipertensão pulmonar têm um componente genético. Muitos genes estão sendo investigados como possíveis desencadeadores ou modificadores da doença. Alguns deles, a exemplo do BMPR2 (bone morphogenetic protein type 2 receptor), são receptores pertencentes à superfamília TGFb. Outros estão relacionados com a exacerbação da resposta hipertensiva, como é o caso do gene que codifica a proteína transportadora da serotonina para o interior das células.

Sabe-se por outro lado, que uma série de fatores pode deflagrar o aparecimento da hipertensão arterial pulmonar em indivíduos predispostos. São os assim chamados fatores de risco. Entre eles, o uso crônico de inibidores do apetite, a infecção pelo HIV, as doenças do tecido conjuntivo, a condição de hiperfluxo sangüíneo pulmonar decorrente de cardiopatias congênitas, as hepatopatias crônicas (principalmente quando associadas à hipertensão portal) e a hipoventilação alveolar crônica causada por pneumopatias obstrutivas.

Qualquer que seja o mecanismo ou mecanismos iniciadores, o curso evolutivo da hipertensão arterial pulmonar depende de uma série de fatores, alguns deles hoje conhecidos como complicadores. Grande parte dos assim chamados fatores complicadores, agravantes ou de progressão, está relacionada à extensão e gravidade da disfunção endotelial, que aqui se expressa por três eventos da mais alta relevância fisiopatológica: vasoconstrição, inflamação e trombose. A quase totalidade dos recursos terapêuticos que têm sido desenvolvidos para o tratamento da hipertensão pulmonar tem como alvo um ou mais desses três mecanismos.

Sendo assim, fica claro que se trata de uma síndrome com várias entidades de etiopatogenia aparentemente diversa, algumas com denominadores comuns, mas certamente de interesse multidisciplinar.

>> Definição

Embora não exista um conceito universalmente aceito, há uma tendência a se considerar a definição proposta pelo National Institutes of Health segundo a qual HAP está presente quando a pressão arterial pulmonar média é = 25 mmHg, com uma pressão de capilar pulmonar = 15 mmHg. Esses valores baseiam-se em medidas feitas através de cateterização cardíaca em repouso.

Os pacientes podem apresentar um amplo espectro de sinais e sintomas inespecíficos atribuíveis à oxigenação inadequada do sangue e à redução do débito cardíaco. Esses sinais e sintomas geralmente são utilizados para enquadrar os pacientes em diferentes graus de limitação funcional conforme recomendado pela OMS (Tabela 2).

Tabela 2 - Avaliação Funcional de Pacientes com Hipertensão Pulmonar
Classe I: Pacientes com hipertensão pulmonar sem limitações para a atividade física. Atividades físicas habituais não causam dispnéia ou fadiga, dor torácica ou pré-síncope.
Classe II: Pacientes com hipertensão pulmonar que causa discretas limitações para a atividade física. Os pacientes não apresentam sintomas em repouso, mas atividades físicas habituais causam dispnéia ou fadiga, dor torácica ou pré-síncope.
Classe III: Pacientes com hipertensão pulmonar que causa acentuada limitação para a atividade física. Os pacientes não apresentam sintomas em repouso, mas atividades físicas mínimas causam dispnéia ou fadiga, dor torácica ou pré-síncope.
Classe IV: Pacientes com hipertensão pulmonar que resulta em incapacidade de realizar qualquer atividade física sem elicitar sintomas. Os pacientes apresentam sinais de insuficiência cardíaca direita. Dispnéia e/ou fadiga podem ocorrer em repouso, e os sintomas são exacerbados por qualquer esforço.
Fonte:
Executive summary from the World Symposium on Primary Pulmonary Hypertension 1998, Evian, France, September 6-10, 1998, cosponsored by the World Health Organization. Retrieved April 14, 2000, from the World Wide Web: http://www.who.int/ncd/cvd/pph.html

Como se trata de uma síndrome complexa, não existem esquemas simples de avaliação diagnóstica e orientação terapêutica.

>> Abordagem diagnóstica

Avanços tecnológicos permitiram o desenvolvimento e aprimoramento de métodos diagnósticos pouco invasivos. Entretanto, é fundamental ressaltar que a história meticulosa e um exame físico criterioso são imprescindíveis para o diagnóstico correto.

Assim sendo, a abordagem inicial tem por objetivo identificar manifestações clínicas e fatores de risco da HAP, devendo-se dar uma atenção especial aos antecedentes pessoais, uso de drogas e história familiar.

A nova classificação diagnóstica proposta em Veneza, em 2003, representa um avanço no entendimento fisiopatológico, auxiliando no delineamento da conduta terapêutica. A doença passa a ser classificada em cinco categorias, sendo a primeira a mais estudada sob o ponto de vista etiopatogênico, fisiopatológico, diagnóstico e terapêutico.

Do ponto de vista diagnóstico, a seqüência de avaliação apresentada a seguir é fundamental para a adequada caracterização do problema, sua fase evolutiva e condições clínicas associadas:

a) História clínica e exame físico
b) ECG; RX de tórax ; teste de função pulmonar
c) Ecocardiografia
d) Mapeamento ventilação / perfusão; tomografia de alta resolução; pesquisa de trombofilia
e) Hemograma e eletroforese de hemoglobina; HIV; função hepática e tireoideana; testes reumatológicos; parasitológico de fezes e biópsia retal; ultra-sonografia de abdômen
f) Testes funcionais (ergoespirometria e teste de 6 minutos de caminhada)
g) Cateterismo cardíaco.

Ecocardiograma com Doppler

Pacientes com sinais, sintomas, evidências eletrocardiográficas ou radiográficas de hipertensão pulmonar devem ser submetidos ao ecocardiograma com Doppler. Trata-se do método de imagem mais importante na detecção da hipertensão pulmonar e exclusão de doenças cardíacas.

O diagnóstico é confirmado quando se observa insuficiência tricúspide. Embora em alguns casos não retrate precisamente a pressão no leito arterial pulmonar, a estimativa da pressão média no átrio direito e da velocidade do jato de regurgitação tricúspide permitem obter um valor aproximado e que pode ser utilizado para a tomada de decisões clínicas. A dilatação e hipertrofia do VD são encontradas em estágios avançados da doença.

Tomografia helicoidal, Ressonância magnética e Estudo Ventilação-Perfusão

A tomografia computadorizada (TC) de tórax permite a avaliação conjunta da circulação (angiotomografia) e do parênquima pulmonar. Também auxi¬lia nos diagnósticos diferenciais com o sarcoma de artéria pulmonar, compressão extrínseca dos vasos pulmonares, mediastinite fibrosante, entre outras situações. O calibre da artéria pulmonar, a rela¬ção artéria/brônquio e a presença de derrame pericárdico associam-se com a gravidade da HAP.

A TC pode mostrar dilatação, compressão ou obstruções da artéria pulmonar ou de seus ramos, sendo bastante útil quando há suspeita de tromboembolismo pulmonar crônico (TEPC). A CT de cortes finos é de grande valia na avaliação de doença intersticial pulmonar. Embora esses achados sejam úteis na abordagem diagnóstica, não substituem as evidências ecocardiográficas da doença.

O TEPC sempre deve ser excluído como causa de HAP sem etiologia identificada. Alguns achados tomográficos sugerem este diagnóstico: aumento do ventrículo direito, dilatação de artérias pulmonares centrais, presença de trombos excêntricos nos ramos centrais, áreas de infarto pulmonar e padrão de “perfusão em mosaico”. Entretanto, a ausência destes achados não exclui o diagnóstico de TEPC.

A ressonância magnética pode auxiliar no diagnóstico não invasivo de algumas cardiopatias congênitas nas quais alterações anatômicas resultam em HAP.

Se não for possível identificar uma causa para a hipertensão pulmonar mesmo após a realização desses exames, é necessário excluir a presença de tromboembolismo pulmonar crônico antes de aceitar o diagnóstico de hipertensão pulmonar primária. O estudo ventilação-perfusão é um bom método nesses pacientes, mostrando um ou mais déficits de perfusão naqueles com embolia. Na hipertensão pulmonar primária, o exame é normal ou mostra apenas distúrbios de perfusão subsegmentares.

Quando o estudo ventilação-perfusão sugere a presença de tromboembolismo pulmonar crônico, a angiografia pode ser utilizada para confirmação diagnóstica, além de definir a extensão da doença e avaliar a necessidade de intervenção cirúrgica (tromboendarterectomia). O cateterismo cardíaco deve ser realizado em pacientes com hipertensão pulmonar inexplicada, e permanece o padrão-ouro para o diagnóstico e estratificação da doença.

Outros

Nos pacientes com indícios de HAP, as provas de função pulmonar têm por objetivo identificar possíveis doenças pulmonares subjacentes. Exceto em casos selecionados, não há indicação para a realização de biópsias de pulmão.

Por serem fatores de risco conhecidos para a doença, é importante pesquisar evidências sorológicas de doenças do tecido conjuntivo e de infecção pelo HIV em pacientes com HAP sem causa estabelecida.

Para estabelecer a gravidade e o prognóstico da doença, bem como ajudar a determinar qual a melhor abordagem terapêutica, os pacientes com diagnóstico de HAP devem ser submetidos ao cateterismo cardíaco para obter uma avaliação precisa dos níveis da pressão arterial pulmonar. Em conjunto com o ecocardiograma, o ECG e o teste de tolerância ao esforço podem ser utilizados para avaliar a função das câmaras cardíacas direitas (consideradas o órgão-alvo na HAP).

Como discutido anteriormente, mutações no gene que codifica o receptor BMPR II (família TGF-b) são encontradas em 26% dos casos esporádicos e em 50-60% dos indivíduos com a forma familiar da doença. Por esse motivo, alguns especialistas recomendam testes e aconselhamento genético para parentes de pacientes com a forma familiar da HAP.

>> Tratamento

A estratégia terapêutica da hipertensão pulmonar depende da identificação correta dos fatores etiológicos e, sempre que pertinente, deve ser voltada à doença de base.

Pacientes com diagnóstico confirmado da forma idiopática da doença devem realizar o teste de vasorreatividade empregando um agente de ação curta, como o epoprostenol, adenosina (ambos administrados IV) ou óxido nítrico (inalatório). Pacientes com HAP idiopática e sem insuficiência cardíaca direita, demonstrando uma resposta pós-vasodilatador favorável, devem ser considerados candidatos para um teste terapêutico com um bloqueador de canal de cálcio. No entanto, esse tratamento não deve ser empregado de forma empírica, sem os resultados previamente discutidos.

Pacientes com HAP classe funcional III e que não são candidatos ou que não mostraram uma boa resposta ao tratamento com bloqueador de canal de cálcio são candidatos ao tratamento com: (1) antagonistas do receptor da endotelina (bosentan), (2) epoprostenol IV, (3) treprostinil subcutâneo, (4) iloprost inalatório ou o (5) beraprost.

Opções cirúrgicas que podem ser empregadas em casos selecionados incluem septostomia atrial para descompressão das câmaras cardíacas direitas, transplante de pulmão (em pacientes com classe funcional III-IV) e tromboendarterectomia (em pacientes com TEPC).

>> Referências

  1. Rubin LJ et al. Diagnosis and Management of Pulmonary Arterial Hypertension: ACCP Evidence-Based Clinical Practice Guidelines. Chest 2004;126:7S-10S.
  2. LaRaia AV, Waxman AB. Pulmonary arterial hypertension: evaluation and management. South Med J 2007 100(4):393-9.
  3. McCrory DC et al. Methodology and Grading for Pulmonary Hypertension: Evidence Review and Guideline Development. Chest 2004;126:11S-13S.
  4. McGoon M et al. Screening, Early Detection and Diagnosis of Pulmonary Arterial Hypertension. Chest 2004;126:14S-34S.
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  8. Galiè N, Rubin LJ, eds. Pulmonary arterial hypertension. Epidemiology, Pathobiology, assessment, and therapy. JACC 2004; 43(Suppl S):1S-90S.
  9. Alam S, Palevsky HI. Standard therapies for pulmonary arterial hypertension. Clin Chest Med 2007;28(1):91-115.

Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br


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