Doenças pulmonares intersticiais
As doenças pulmonares
intersticiais (DPIs) são um grupo heterogêneo de condições que acometem o parênquima
pulmonar. Essas entidades são caracteristicamente difusas e infiltrativas, envolvendo
o interstício peribroncovascular do pulmão, apesar de eventualmente acometer
os alvéolos. As DPIs não são doenças malignas ou infecciosas, mas podem causar
morbidade e mortalidade significativas. Na maioria dos casos, a etiologia é
desconhecida. Essas doenças são agrupadas conjuntamente por apresentarem manifestações
clínicas, radiológicas, fisiológicas e/ou patológicas semelhantes. Vários métodos
são utilizados para classificar esse grupo heterogêneo de patologias, e nenhum
é bastante satisfatório.
O diagnóstico dessas entidades
baseia-se na integração de dados clínicos, fisiológicos e radiológicos. Freqüentemente,
um diagnostico histológico é necessário para o diagnóstico definitivo. Uma atenção
especial será dada às pneumonias intersticiais e outras doenças pulmonares difusas
que podem apresentar achados na tomografia computadorizada de alta resolução
(TCAR): pneumonite por hipersensibilidade, histiocitose de células de Langerhans
e linfangiomatose.
Fibrose pulmonar idiopática
Achados
clínicos - Pacientes com a fibrose pulmonar idiopática (FPI) encontram-se
tipicamente entre 50 e 70 anos de idade, e a doença afeta mais os homens que
as mulheres. Os sintomas clássicos incluem tosse seca e dispnéia aos esforços.
O exame físico pode evidenciar estertores inspiratórios "tipo velcro", e baqueteamento
digital é encontrado em 25% a 50% dos casos. Dor torácica e hemoptise não são
comuns. Os exames laboratoriais são pouco reveladores. Os testes de função pulmonar
(TFPs) mostram um padrão restritivo, com diminuição da capacidade pulmonar total,
capacidade residual funcional e volume residual. A capacidade de difusão do
monóxido de carbono (CDMC) também costuma estar reduzida. A sobrevida média
é baixa, por volta de 30% a 50% em 5 anos. O tratamento geralmente é ineficaz
(<10% dos pacientes apresentam resposta), e baseia-se no uso de corticosteróides
e agentes imunossupressores/citotóxicos. Em pacientes selecionados, o transplante
de pulmão pode ser levado em consideração.
Achados radiológicos
Radiografia
de tórax - Geralmente, mostra uma diminuição do volume pulmonar e um
padrão reticular e "em favo de mel" bilateral, predominante nas áreas basais
e subpleurais. Radiografias seriadas são úteis especialmente para evidenciar
a diminuição progressiva do volume pulmonar. Um aspecto de "vidro moído" é raramente
encontrado, mas também ocorre tipicamente nas porções basais. Pequenos nódulos
são vistos em um número reduzido de casos, e a radiografia não apresenta alterações
em menos que 10% a 15% dos pacientes. A intensidade dos achados radiográficos
tem pouca correlação com a apresentação clínica do paciente.
Tomografia
Computadorizada de Alta Resolução -
A TCAR costuma revelar opacificações lineares e irregulares nas regiões basais
e sublpleurais (espessamento intersticial, intralobular), caracteristicamente
associadas com bronquiectasia e padrão em "favo de mel". A opacificação em "vidro
moído" pode ser encontrada, devendo ser a expressão de alveolite e podendo indicar
doença tratável. No entanto, essa opacificação mostrou correlação histológica
com um tecido de granulação do septo alveolar e fibrose, aumentando as chances
de refletir uma fibrose pulmonar precoce, mas não necessariamente doença reversível.
Quando o padrão "em vidro moído" é visualizado entre outras evidências de fibrose
(infiltrados reticulares, bronquiectasia e padrão de "favo de mel"), provavelmente
representa fibrose abaixo do limite de resolução da TCAR. Os casos com o padrão
"em vidro moído" devem ser interpretados como uma doença potencialmente tratável
somente quando não há outros achados de fibrose na TCAR. Inicialmente, a fibrose
aparece como infiltrados reticulares finos, que se tornam mais grosseiros com
a progressão da doença. Ocasionalmente, pequenos nódulos são observados. O espessamento
irregular dos septos interlobulares também pode estar presente. O alargamento
discreto dos linfonodos mediastinais é comum, mas linfondos >2 cm são raros.
Vários estudos mostraram
que a TC e TCAR são superiores à radiografia de tórax na avaliação de pacientes
com FPI. O padrão "em favo de mel", por exemplo, pode ser observado em até 90%
dos estudos tomográficos, e em apenas 30% das radiografias. Os achados da TCAR
mostram correlação com os sintomas e as alterações da função pulmonar em pacientes
portadores de FPI.
Na maioria desses pacientes,
a TCAR permite ainda uma distinção entre a alveolite ativa potencialmente reversível
e a fibrose irreversível, tornando a biópsia cirúrgica desnecessária nos casos
característicos. Pode ser útil também como fator preditivo da resposta ao tratamento
e do prognóstico a longo prazo, além de apontar a melhor região para a realização
de biópsias em casos difíceis. Geralmente, a biópsia é realizada longe de regiões
de "favo de mel" evidente, sendo dirigida para as áreas com opacificações "em
vidro moído".
Pneumonia intersticial inespecífica
O termo pneumonia intersticial
inespecífica (PII) refere-se àquela que não pode ser classificada dentro dos
padrões conhecidos de FPI, pneumonia intersticial aguda (PIA), pneumonia intersticial
descamativa (PID) ou bronquiolite obliterante/pneumonia em organização (BOPO).
Alguns consideram a PII um diagnóstico equivalente a uma cesta de lixo. No entanto,
tendo em vista que esses pacientes podem apresentar um melhor prognóstico que
na FPI e as estratégias terapêuticas são diferentes das utilizadas na FPI, a
PII foi classificada separadamente das outras formas de pneumonia intersticial.
Achados
clínicos - Clinicamente,
a queixa inicial mais comum é a dispnéia. Pode ocorrer tosse não-produtiva.
A duração média dos sintomas costuma ser menor na PII (meses) do que na FPI
(anos).
Achados radiológicos
Radiografia
de tórax - A distinção entre PII e as causas de FPI pode ser difícil.
Infiltrados reticulares e padrão "em vidro moído", predominante na base na região
subpleural, costumam ser observados. Os achados podem lembrar casos de FPI.
A consolidação de espaços aéreos também pode ser encontrada. O volume pulmonar
pode ser preservado caso a lesão não esteja associada à fibrose.
Tomografia
Computadorizada de Alta Resolução - Os achados incluem infiltrados reticulares
subpleurais e basais, consistentes com o espessamento intersticial intralobular.
O aspecto "em vidro moído" é comum e sugere uma alveolite ativa tratável, quando
observada na ausência de "favo de mel". Dilatação brônquica pode ser visualizada
em áreas "em vidro moído", estando geralmente correlacionada histologicamente
com maiores extensões de fibrose (PII tipo III). O "favo de mel" é raramente
encontrado, e geralmente é sugestivo de doenças relacionadas à FPI, em vez de
PII. Mostrou-se que o padrão "em vidro moído" visto na PII pode melhorar significativamente
com o tratamento, ao contrário das doenças relacionadas à FPI. Apesar de alguns
pesquisadores terem mostrado que as opacificações "em vidro moído" podem evoluir
para infiltrados reticulares e lineares com o desenvolvimento do padrão de "favo
de mel" na TCAR, ainda não está claro se a PII não tratada progride inexoravelmente
para o pulmão em "favo de mel". O grau de melhora das alterações observadas
na TCAR apresentam correlação com a melhora funcional durante o tratamento.
Pneumonia intersticial aguda
Achados
clínicos - A PIA é
caracterizada pelo aparecimento súbito de insuficiência respiratória, exigindo
o uso de ventilação mecânica em um paciente previamente hígido. A história inclui
tosse, febre e dispnéia. A PIA pode ser interpretada como uma SARA de causa
desconhecida. A mortalidade é alta (60% a 100%), e um infiltrado importante
no parênquima pode ocorrer nos pacientes que sobrevivem.
Achados radiológicos
Radiografia
de tórax - Os achados radiográficos incluem opacificações em "vidro moído"
bilaterais e simétricas, e focos de consolidação de espaços aéreos. Em alguns
pacientes, infiltrados reticulares subpleurais e padrão "em favo de mel" podem
ocorrer.
Tomografia
Computadorizada de Alta Resolução -
Os achados da PIA na TCAR são descritos e correlacionados com o estágio patológico
da doença. Conforme esperado, áreas em "vidro moído" bilaterais e relativamente
simétricas, além da consolidação de espaços aéreos, são encontradas geralmente
associadas ao espessamento dos septos interlobulares. Bronquiectasias e desorganização
da arquitetura podem ser visualizadas, particularmente na fase proliferativa
subaguda e de fibrose crônica. A PIA é caracterizada por uma evolução rápida.
Referências:
1. Schwarz MI, King TE: Interstitial Lung Disease. Hamilton, Ontario,
BC, Decker, 1998.
2. Lee JS, Lynch DA, Newell JD: Imaging of Diffuse Lung Disease. Lewiston,
NY, Decker, 2000.
3. Webb W, Muller NL, Naidich DP: High Resolution CT of the Lung. New
York, Lippincott-Raven, 1996.
4. Muller NL, Ostrow DN: High-resolution computed tomography of chronic
interstitial lung disease. Clin Chest Med 12:97-114, 1991.
5. Muller NL: Computed tomography in chronic interstitial lung disease.
Radiol Clin North Am 29:1085-1093, 1991.
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br
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