Consenso Brasileiro de Pneumonia em indivíduos adultos imunocompetentes
Parte I –
Pneumonia adquirida na comunidade (PAC)
PAC é aquela que acomete o paciente fora do ambiente
hospitalar ou que surge nas primeiras 48 horas da admissão. PAC é
uma causa comum de morbidade. Estima-se uma incidência mundial de 12 casos
por 1.000 indivíduos por ano. Extrapolando-se para o Brasil, teríamos
1.920.000 casos por ano. No restante do mundo, aproximadamente 80% dos casos
são tratados em ambulatório. Por esta estimativa, metade dos pacientes
no Brasil está sendo conduzida em regime hospitalar, resultando em maior
gasto dos recursos destinados à saúde pública. No Brasil,
as pneumonias são a primeira causa de morte entre as doenças respiratórias
e, abstraindo-se as causas externas, ocupam o quarto lugar na mortalidade geral
externas, ocupam o quarto lugar na mortalidade geral 1996 (DATASUS).
Diagnóstico de pneumonia
Definitivo
O diagnóstico definitivo das PAC baseia-se na identificação
do agente etiológico em espécimes, tais como: sangue; aspirado
pulmonar, obtido diretamente do foco de doença; líquido pleural;
fragmento de pulmão; e, ainda, em métodos imunológicos
ou de biologia molecular, a exemplo das sondas genéticas.
De probabilidade
O quadro clássico da PAC, seguindo-se a um episódio
de infecção de via aérea superior, caracteriza-se pelo
início súbito de febre, calafrio, dor torácica ventilatório-dependente
e tosse com expectoração purulenta ou piossanguinolenta, além
de cefaléia, astenia e anorexia. Ao exame físico, podem ser identificados
os sinais de consolidação pulmonar. Na presença destes
achados, o diagnóstico de pneumonia não oferece dificuldade. Entretanto,
esta forma clássica de apresentação não é
a mais freqüente. A febre pode estar ausente em 20% dos casos, sobretudo
nos pacientes idosos, que costumam se apresentar com queda do estado geral,
por vezes, com desorientação ou piora de uma condição
subjacente, como insuficiência cardíaca. Um aumento da freqüência
respiratória, acima de 24cpm, muitas vezes como um dado isolado, tem
sido observado em 45 a 70% dos pacientes, e pode ser o sinal mais sensível
no idoso; a taquicardia também é comum. Estertores costumam estar
presentes. Todavia, as evidências de consolidação são
observadas em apenas 1/3 dos casos.
As pneumonias nos idosos são de mais difícil
identificação. Em geral, são mais graves e permitem maior
número de possibilidades diagnósticas alternativas, do que as
dos jovens. Além disto, a PAC é mais grave, pela maior freqüência
com que acomete hospedeiros com algum grau de desnutrição, pela
freqüente associação a comorbidades diversas, e pelas manifestações
clínicas menos expressivas, como febre, tosse produtiva, dor torácica
e dispnéia, que resultam em retardo à procura de assistência
médica.
Diagnóstico radiológico
A radiografia do tórax é imprescindível
no manejo das pneumonias, não somente como elemento diagnóstico,
como também, para a avaliação da extensão do comprometimento
pulmonar e de sua gravidade; identificação de complicações;
monitorização da evolução e da resposta ao tratamento.
Etiologia
Em geral, é possível identificar-se a etiologia
em aproximadamente 50% dos casos de PAC. Em alguns estudos, fundamentados no
diagnóstico sorológico, com alta percentagem de coleta de amostra
de soro na convalescença, tem sido possível identificar a etiologia
em 60 a 80% dos casos de PAC em pacientes internados.
Embora variações locais e regionais
sejam reconhecidas, estudos recentes têm mostrado um padrão uniforme
dos microorganismos mais freqüentes. O registro, por Ishida no Japão
e por Rocha no Brasil, que encontraram Mycoplasma em 19%, vírus em 9%,
Legionella em 6%, demonstra que a freqüência desses agentes não
difere do restante da literatura norte-americana e européia, servindo
para reforçar a idéia de que o padrão etiológico
mundial tem certa uniformidade.
| Etiologia
da PAC – 22 |
| Agente |
Variação |
S. pneumoniae*
|
06 – 43 |
M. pneumoniae
|
01 – 33 |
C. pneumoniae
|
01 – 25 |
H. influenzae
|
01 – 19 |
Legionella sp
|
02 – 15 |
Vírus
|
04 – 21 |
BGN
|
01 – 09 |
S. aureus
|
01 – 06 |
Aspiração
|
03 – 09 |
Mista
|
03 – 12 |
| Desconhecida |
23 – 58 |
Métodos diagnósticos não-invasivos
Exame microbiológico do escarro
A amostra deve ser obtida mediante tosse profunda em varredura,
antes do uso de antibióticos, evitando-se a aspiração de
secreção da via aérea superior. O material deve ser colhido
na presença de um médico ou de um outro profissional treinado,
motivado e ciente da importância de uma coleta bem realizada no rendimento
do exame.
Hemoculturas
São positivas em 11% dos casos de PAC em pacientes
internados, mais freqüentemente em pneumonia pneumocócica.
Detecção de antígenos
Antígenos de diversos agentes, por técnicas
variadas (imunoeletroforese, aglutinação em látex, imunofluorescência
e ELISA) podem ser identificados, em várias fontes, como: material de
vias aéreas superiores, escarro, sangue, líquido pleural, aspirado
pulmonar e urina.
Métodos diagnósticos invasivos
Aspirado transtraqueal, os métodos broncoscópicos,
aspirado pulmonar transcutâneo com agulha, toracocentese e biópsia
pulmonar videoassistida ou por minitoracotomia são os principais recursos
de diagnóstico invasivo.
Cada um deles tem indicações específicas,
em pacientes selecionados, não devendo constituir-se em uma prática
sistemática.
Tratamento
1. Antibióticos
Betalactâmicos - São
inativos contra M. e C. Pneumoniae e são ineficazes no tratamento
de Legionella. O espectro das penicilinas pode ser estreito, com atividade limitada
aos gram-positivos (penicilina G) até agentes de amplo espectro com atividade
contra vários bacilos gramnegativos (piperacilina, ticarcilina).
Penicilinas combinadas com inibidores de
betalactamase (amoxicilina-clavulanato, ticarcilina-clavulanato, ampicilina-sulbactam
e piperacilina-tazobactam) - são ativas contra agentes produtores
de betalactamase, tais com H. influenzae, anaeróbios e M.
catarrhalis, mas estas combinações não oferecem vantagem
sobre a penicilina contra S. pneumoniae.
Cefalosporinas - Com a progressão
das gerações, a atividade contra bacilos gram-negativos aumenta.
Os agents mais ativos contra S. pneumoniae são cefotaxima e
ceftriaxona. Cefuroxima pode ser usada em nosso meio. Cefalexina, largamente
usada para tratamento de PAC no Brasil; cefaclor; cefadroxil; cefazolina e ceftazidima;
não devem ser usadas para tratamento de pneumonia pneumocócica.
As cefalosporinas orais que podem ser usadas para PAC por pneumococo são
cefuroxima, cefpodoxima e cefprozil.
Macrolídeos - Eritromicina
tem espectro mais estreito e freqüentemente é maltolerada, pelos
efeitos adversos gastrintestinais. Os novos macrolídeos (azitromicina,
claritromicina) são melhor tolerados, mas de maior custo.
Pneumococos resistentes à penicilina são habitualmente
resistentes aos macrolídeos in vitro. Em torno de 10 - 15% do total de
pneumococos são resistentes aos macrolídeos (azitromicina e claritromicina)
em nosso meio. A resistência do pneumococo aos macrolídeos, ao
contrário da resistência à penicilina, que se desenvolve
num espectro progressivo de doses, é sempre de alto nível (MIC
> - 32 ug/ml) e cruzada com todos os seus derivados. A correlação
da resistência in vitro com os resultados clínicos obtidos com
os macrolídeos é, entretanto, indefinida.
Os macrolídeos não têm atividade contra
bactérias entéricas gram-negativas, são parcialmente eficazes
contra o H. influenzae (exceto a azitromicina) e não são confiáveis
para pneumococos resistentes à penicilina. Devido a estes fatores, alguns
autores e consensos reservam o uso de macrolídeos para pacientes ambulatoriais,
não-idosos, sem comorbidades.
Quinolonas - Os agentes atualmente
disponíveis para combater as infecções pulmonares são:
ciprofloxacina, ofloxacina, levofloxacina, moxifloxacina e gatifloxacina.
As novas quinolonas têm excelente atividade contra
S. pneumoniae (sensíveis ou resistentes), H. influenzae, M. catarrhalis,
Enterobacteriaceae e patógenos atípicos; e são agentes
atraentes para o tratamento de PAC em pacientes com comorbidades, com risco
para patógenos resistentes aos betalactâmicos ou aos macrolídeos.
Embora a gatifloxacina seja 2 - 4 vezes e a moxifloxacina 4 - 8 vezes mais ativa
do que a levofloxacina contra o S. pneumoniae, o significado destas diferenças
é incerto, desde que o sucesso clínico tem se mostrado semelhante.
Vancomicina - É ativa contra
todas as cepas de pneumococo, porém seu uso em PAC raramente se justifica;
S. aureus de comunidade resistente à oxacilina pode ser encontrado em
usuários de drogas e em pacientes provenientes de clínicas de
repouso. O uso abusivo de vancomicina pode promover aumento de resistência
a S. aureus e enterococos.
Clindamicina - Tem boa atividade
contra cocos grampositivos, incluindo pneumococos e S. aureus. É o agente
de escolha em infecções pulmonares por anaeróbios, mas
é inativa contra o H. influenzae.
TMP-SMZ - A resistência
do pneumococo ao TMP-SMZ no Brasil é de mais de 40%, especialmente as
cepas resistentes à penicilina.
Aminoglicosídeos - Os
aminoglicosídeos (gentamicina, tobramicina, amicacina) mostram um efeito
bactericida dose-dependente que permite o uso em uma única tomada diária.
São utilizados em esquemas combinados, quando a possibilidade de bacilos
aeróbios gram-negativos, incluindo P. aeruginosa, é significativa,
assim como, em pacientes internados, na presença de comorbidades.
Tetraciclinas - São ativas
contra os agentes atípicos, porém a resistência ao pneumococo
no Brasil situa-se em torno de 40%. Alguns consensos recomendam o uso de doxiciclina,
como opção terapêutica em pacientes ambulatoriais, com base
em um estudo recente, porém os resultados não podem ser transportados
para nosso meio.
Outros agentes - Meropenem e imipenem
são ativos contra a maioria dos germes aeróbios e anaeróbios
gram-positivos e negativos, incluindo pneumococo, Pseudomonas, H. influenzae
e anaeróbios. Deve ser reservado para casos de PAC por agentes gram-negativos
comprovadamente resistentes a outros antimicrobianos.
Profilaxia
Vacinações
As vacinações contra influenza e pneumococos
podem diminuir a gravidade da doença e morte por gripe e pneumonia, que
ocorrem freqüentemente em pacientes com doenças crônicas.
Indicações
para o uso da vacina antiinfluenza
1. Idade igual ou superior a 60 anos
2. Doenças crônicas
3. Imunossupressão
Infecção por HIV
Terapia imunossupressora (inclusive corticóides)
Pós-transplante de órgãos
(inclusive de medula óssea)
Neoplasma maligno (inclusive hematogênico)
Alcoolismo
Disfunção esplênica ou
asplenia (inclusive anemia falciforme)
Indicações
para o uso da vacina antipneumocócica (Graus de risco em ordem decrescente)
Grupo 1 – doença de Hodgkin, mieloma
múltiplo, deficiência de imunoglobulina, lúpus eritematoso
sistêmico, deficiência imunológica induzida por drogas,
transplante renal, doença maligna hematológica, carcinoma, infecção
por HIV e AIDS.
Grupo 2 – esplenectomia ou disfunção
esplênica, anemia falciforme, síndrome nefrótica
Grupo 3 – diabetes mellitus, doença
pulmonar crônica, doença cardíaca crônica, insuficiência
renal crônica requerendo diálise, cirrose hepática, alcoolismo
Grupo 4 – idosos (60 anos ou mais)
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