Infecções do trato urinário e refluxo vesicoureteral na faixa
etária pediátrica
Em
alguns casos, as infecções do trato urinário
em crianças estão relacionadas ao refluxo
vesicoureteral que, sem o diagnóstico adequado, pode
provocar lesões renais. Tendo em vista que a incidência
dessas lesões é maior na faixa etária
pediátrica, crianças que apresentam infecção
urinária antes do controle esfincteriano ou que apresentam
infecções urinárias de repetição
devem ser avaliadas para a pesquisa de refluxo vesicoureteral.
O método de escolha para a avaliação
desses pacientes é a uretrocistografia miccional.
Diagnóstico
As crianças menores com infecções do
trato urinário não apresentam sintomas característicos,
como disúria ou dor lombar. Por outro lado, podem
apresentar febre, irritabilidade e outros sintomas, como
letargia. Em crianças maiores é possível
observar sintomas inespecíficos, como dor abdominal
ou febre. Deve-se solicitar um exame de urina I em crianças
com febre inexplicada ou sintomas sugestivos de infecção
urinária. Em crianças mais jovens com infecção
urinária, esse exame pode ser normal em até
20% dos casos. Barnaff e colaboradores sugerem a realização
de urocultura em todos os pacientes do sexo masculino abaixo
de 6 meses de idade e do sexo feminino abaixo de 2 anos
de idade com temperatura maior ou igual a 39ºC.
As amostras colhidas em sacos coletores ou após a
micção podem ser contaminadas e, portanto,
os resultados devem ser interpretados em associação
com os dados clínicos e o exame de urina I. Piúria
e/ou sintomas clássicos permitem o diagnóstico
de infecção urinária, enquanto uroculturas
positivas em uma criança com urina I normal e/ou
sintomas atípicos podem resultar de contaminação
da amostra. Em casos inconclusivos ou quando é importante
descartar contaminação, pode-se obter uma
amostra de urina por cateterização vesical
ou punção supra-púbica. Tendo em vista
o risco de introduzir bactérias no trato urinário
durante a cateterização vesical, deve-se administrar
uma dose de antibiótico para evitar infecções
iatrogênicas.
Enquanto o diagnóstico de infecção
urinária pode ser difícil, a distinção
entre cistite e pielonefrite é ainda mais complicada.
Os dados clínicos (como febre ou dor lombar) e exames
laboratoriais (como a velocidade de hemossedimentação
ou o leucograma) não são suficientes. Felizmente,
essa distinção raramente é fundamental.
As condutas são baseadas na gravidade do quadro,
em vez do local acometido pela infecção. Além
disso, tendo em vista que o risco de refluxo é semelhante
em todos os pacientes com infecções do trato
urinário, não é necessário diferenciar
cistite e pielonefrite para indicar a avaliação
radiológica.
Em casos raros, quando é necessário diferenciar
pielonefrite e outras infecções, o método
de imagem de escolha deve ser a cintilografia de perfusão
renal com DMSA marcado com 99mTC. Os pacientes com cintilografia
normal durante episódios de infecção
urinária não apresentam pielonefrite.
Avaliação
A
alteração mais freqüentemente associada
com infecções do trato urinário na
faixa etária pediátrica é o refluxo
vesicoureteral, que pode ser encontrado em 30 a 50% dos
pacientes. Apesar dessa associação, nenhum
estudo prospectivo randomizado demonstrou os benefícios
do rastreamento nesses pacientes.
Entretanto, não existem dúvidas de que o refluxo
vesicoureteral está relacionado a lesões renais
causadas por infecções urinárias ascendentes.
O método de escolha para o rastreamento do refluxo
vesicoureteral é a cistografia, um exame que é
bem tolerado pelas crianças quando realizado por
radiologistas experientes. Embora a ultra-sonografia renal
seja um exame menos invasivo, é normal em 50 a 75%
dos pacientes com refluxo e, portanto, não pode ser
utilizado como método de rastreamento. A cintilografia
renal com DMSA é o melhor exame para identificar
lesões renais e pode identificar pacientes com risco
elevado para refluxo. Entretanto,
não é capaz de identificar o refluxo em pacientes
sem lesões renais – aqueles que mais se beneficiam
da ntibioticoprofilaxia.
Em
pacientes com infecção do trato urinário,
a cistografia deve ser realizada após pelo menos
48 horas de antibioticoterapia para diminuir o risco de
bacteremia. Não é necessário aguardar
um período maior, e a realização do
exame nesse período não aumenta o número
de resultados falsos positivos. Tendo em vista que o refluxo
na vigência de infecção urinária
permite a ascensão bacteriana, também é
importante identificar os pacientes que apresentam refluxo
apenas durante episódios de infecção
urinária.
A
ultra-sonografia renal é capaz de descartar uropatias
obstrutivas, além de lesões renais grosseiras
ou dimensões anormais em pacientes com refluxo vesicoureteral.
A cintilografia renal com DMSA é o melhor exame para
identificar lesões renais.
A cistografia pode ser realizada por dois métodos:
a uretrocistografia miccional (UCM) e a cintilografia. A
UCM é realizada após a infusão de um
material radiopaco para contraste no interior da bexiga,
obtendo-se imagens da bexiga e das lojas renais durante
a fase de enchimento e a micção. A intensidade
do refluxo vesicoureteral pode ser classificada em uma escala
de 1 a 5, dependendo do grau de dilatação
do sistema coletor.
O exame de medicina nuclear é realizado através
de imagens do trato urinário após a infusão
do radiofármaco na bexiga. É um exame que
utiliza menos radiação e que tem sensibilidade
pelo menos igual à UCM. Entretanto, é menos
preciso para determinar o grau de refluxo e não é
capaz de identificar alterações vesicais associadas.
A UCM, portanto, é o método de escolha para
a avaliação inicial de crianças com
infecção urinária. A cintilografia
é utilizada no acompanhamento de pacientes com refluxo
vesicoureteral em observação. Tendo em vista
que o refluxo vesicoureteral é observado em um terço
dos irmãos de pacientes com refluxo, bem como em
dois terços dos filhos de pacientes com refluxo,
a cintilografia também pode ser utilizada no rastreamento
dessas crianças.
Referência: American
Family Physician. March, 1999.
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