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Os limites orgânicos para a formação da subjetividade. Fatores orgânicos determinantes do psiquismo infantil.

Da mesma forma que uma criança é um todo, que resulta do equilíbrio da integração corpo-mente-meio ambiente, também o desenvolvimento psicológico é o resultado de uma interação progressiva de vários fatores, perfeitamente integrados e necessários para a manutenção de seu estado normal e para o seu progresso até a idade adulta (1).

Assim, a capacidade intelectual da criança, por exemplo, depende de seu patrimônio genético e, ao mesmo tempo, de sua estrutura orgânica, além de seu bem-estar físico. Este último, por sua vez, depende do estado emocional e das adequações sociais, o0s quais podem alterar as funções, bloquear as reações de conduta e, até, incidir no próprio substrato orgânico. Dito de outra forma, o componente genético, tanto do desenvolvimento cognitivo, quanto de qualquer alteração psicológica, não costuma ser o único fator determinante. Quase sempre, o potencial hereditário que cada indivíduo recebe, no momento da concepção, pode sofrer os impactos do ambiente, seja intra-uterino, seja pós-natal. Pode-se, por exemplo, conceber um embrião dotado de um potencial para se tornar um adulto genial, mas que, vítima de alguma infecção congênita, ou de alguma doença pós-natal, como uma meningite, por exemplo, desenvolve-se num indivíduo deficiente mental (1).

Dessa maneira, a saúde da criança constitui um círculo contínuo de elementos interdependentes, girando em torno do desenvolvimento infantil, que torna qualquer classificação artificial. Entretanto, pode-se afirmar que o bom desenvolvimento psicológico da criança pode ser afetado por diversos fatores de risco.

O conceito de “alto risco” surgiu no século XIX, quando William Little enfatizou a relação existente entre partos anormais, freqüência de crianças prematuras e alterações neurológicas e mentais. Pode-se entender, então, como fatores de alto risco, todas as situações que condicionam o desenvolvimento psicológico infantil (2).

De maneira didática, pode-se classificar esses fatores em:

a. Fatores pré-natais
b. Fatores perinatais
c. Fatores pós-natais


a. Fatores pré-natais:
a.1. Fatores psicogenéticos do desenvolvimento infantil:

As influências do meio ambiente exercem um efeito variável, de acordo com o potencial genético de cada criança (1). Por outro lado, algumas síndromes, de causa reconhecidamente genética, possuem um padrão comportamental determinado. Portanto, pode-se definir como “fenótipo comportamental” o repertório comportamental característico exibido por pacientes com uma determinada doença genética, quer ela seja monogênica, cromossômica ou, mesmo, multifatorial (3,4). Esse repertório comportamental inclui uma série ampla de características comportamentais que incluem aspectos cognitivos, lingüísticos e sociais, assim como problemas comportamentais e psicopatológicos (5).

As síndromes genéticas podem ser de causa:

a.1.a. Cromossômica: quando ocorrem alterações no número total de cromossomos de cada célula (alterações numéricas ou aneuploidias), ou em sua estrutura (alterações estruturais). Os exemplos mais freqüentes são a Síndrome de Down (trissomia simples ou parcial do cromossomo 21), na qual podem ocorrer estados de ansiedade, depressão (nos indivíduos adultos), hiperatividade e agressão, e a Síndrome de Turner (monossomia simples ou parcial do cromossomo X), na qual também podem ocorrer estados de ansiedade, depressão ou hiperatividade, além de extrema labilidade emocional (6).

a.1.b. Gênicas: nas quais existem alterações num par de genes (monogênicas ou mendelianas), ou num grupo de genes situados uns muito próximos dos outros, numa mesma região cromossômica (síndromes de genes contíguos). O gene afetado pode estar nos cromossomos sexuais (ligados ao sexo), ou nos demais cromossomos (autossômicas). Podem, também, ser de herança dominante (quando basta estar presente em apenas um dos cromossomos do par autossômico para exercer seus efeitos), ou recessiva (quando precisa estar presente nos dois cromossomos autossômicos, para exercer seus efeitos, a não ser quando o cromossomo for o X, quando bastará estar presente em apenas um dos cromossomos do par sexual nos meninos (XY), mas em dose dupla nas meninas (XX)).

Como exemplo de doenças monogênicas, podemos citar as doenças metabólicas, ou erros inatos do metabolismo, que correspondem a cerca de 10% de todas as doenças genéticas (7), e, apesar de individualmente raros, no seu conjunto, têm uma incidência de 1:1000 recém-nascidos vivos (8,9). A maioria delas é herdada de forma autossômica recessiva, com 25% de risco de recorrência para os pais de uma criança afetada. Nesse conjunto de doenças, a falta de atividade de uma enzima (ou sua diminuição), leva a um bloqueio de uma via metabólica, cuja conseqüência é o acúmulo de um substrato que, nessa forma, pode ser lesivo ao sistema nervoso central, ou a diminuição de algum metabolito importante para o desenvolvimento cerebral adequado, ou, ainda, um desvio da rota metabólica, que leva à formação de produtos danosos ao cérebro. Os sinais e sintomas dos erros inatos do metabolismo podem se iniciar em qualquer faixa etária e podem levar a quadros de atraso ou regressão no desenvolvimento neuro-psico-motor, além de fenômenos psiquiátricos como quadros de transtorno pervasivo do desenvolvimento, psicoses agudas, alucinações visuais e/ou auditivas, depressão, quadros obsessivos-compulsivos e muitos outros (7).

Como exemplo de doenças de genes contíguos podemos citar a Síndrome de Williams, com seus quadros de ansiedade, depressão, hiperatividade e agressividade, a Síndrome de Pradder-Willi, na qual ocorrem, também, quadros ansiosos, obsessivos e depressivos, além da Síndrome Velo-Cardio-Facial, na qual ocorrem, com muita freqüência, a esquizofrenia, os transtornos bipolares do humor e quadros depressivos (10).

a.1.c. Multifatoriais: nas quais existe uma ação conjunta e aditiva de vários genes diferentes, nenhum deles com ação isolada, e que, juntos, acima de um certo limiar, permitem uma ação danosa do meio ambiente. Sendo causadas pela ação concomitante de vários fatores, ao mesmo tempo, o risco de recorrência, para novos filhos, de pais de um afetado, é muito baixo, geralmente abaixo de 5%.

A maior parte das alterações psíquicas, como reações neuróticas, esquizofrenia, transtorno bipolar do humor, assim como as variações da personalidade de cada indivíduo e os vários níveis de inteligência e de deficiência mental são condições multifatoriais (1).

a.1.d. Fatores ambientais. Os agentes teratogênicos: dá-se o nome de agentes teratogênicos a uma série de fatores extrínsecos, que podem levar a uma disrupção do desenvolvimento normal de uma parte do organismo (do grego: therathos – monstruosidade). Por causarem lesões que, muitas vezes, levam a quadros semelhantes a doenças genéticas (fenocópias), seu conhecimento é vital, pois, ao contrário das doenças de causa verdadeiramente genética, uma vez afastados esses fatores, o risco de recorrência, para novos filhos, dos pais de um afetado, é igual a zero. Como principais fatores de risco ambientais, para o psiquismo, são as doenças maternas durante a gravidez, como as infecções (rubéola, toxoplasmose, citomegalovírus, etc.), as idades maternas extremas (menos de vinte anos e mais de trinta e cinco), gestações múltiplas, paridade, etc. (2).


b. Fatores perinatais:

Os fatores perintais de alto risco para o psiquismo infantil estão ligados, não raro, a uma má assistência ao parto. Assim sendo, considera-se que uma gestante que realiza um bom acompanhamento pré-natal diminui bastante esses fatores de risco. Entre os principais fatores, pode-se destacar: as idades maternas extremas (abaixo de dezesseis anos ou primigestas acima dos trinta e cinco), baixa estatura (menos de 165cm), paridade, complicações obstétricas como toxemia materna, eclampsia, descolamento prematuro de placenta, placenta prévia, amniorrexis prematura, cardiopatia materna, etc., estado de desnutrição materna (peso pré-gestacional menor que 45Kg), uso de drogas e medicamentos, alterações endocrinológicas maternas e estado sócio-econômico e emocional maternos (2).

c. Fatores pós-natais:

Entre os principais, podemos citar o baixo peso ao nascimento, índices de Apgar abaixo de cinco no quinto e no décimo minuto, reanimação prolongada, apnéia ou hipóxia neonatais, hemorragia intracraniana, infecções neonatais e sepsis, transtornos metabólicos agudos como hipoglicemia e hipocalcemia, etc., hiperbilirrubinemia grave, etc. (2). A importância da maioria desses fatores pode ser modificada ou reduzida por uma boa assistência pré-natal, associada a uma boa assistência ao parto.


Bibliografia:

  1. Moncada GB. Factores psicogenéticos. In: Moncada GB. Psicopediatria – Problemas psicológicos del niño en la práctica diária. 1987; pp. 33-47. Salvat Editores AS. Barcelona. Espanha.
  2. Moncada GB. Factores prenatales y paranatales del psiquismo. In: Moncada GB. Psicopediatria – Problemas psicológicos del niño en la práctica diária. 1987; pp. 48-71. Salvat Editores AS. Barcelona. Espanha.
  3. Flint J. Behavioral phenotypes: conceptual and methodological issues. Am J Med Genet. 1998; 81:235-40.
  4. Flint J. Yule W. Behavioral phenotypes. In: Rutter M, Taylor E, Hersow L. (eds.) Child and adolescent psychiatry. 1994; pp. 666-87. Blackwell Scientific Publications. Oxford, England.
  5. Finegan JA. Study of behavioral phenotypes: goals and methodological considerations. Am J Med genet. 1998; 81: 148-55.
  6. Moldavsky M, Lev D, Lerman-Sagie T. Behavioral phenotypes of genetic syndromes: a reference guide for psychiatrists. J Am Acad Child Adol Psychiatry. 2001; 40(7): 749-61.
  7. Araújo APQC. Doenças metabólicas com manifestações psiquiátricas. Ver. Psiq. Clin. 2004; 31(6): 285-9.
  8. Tonati G, Delonay P, Barreiras C, Bandubay JM. Metabolic emergencies: late acute neurologic and psychiatric presentation. Arch Pediatr. 2003; Suppl1: 42s-6s.
  9. Trifiletti RR, Packard AM. Metabolic disorders presenting with behavioral symptoms in the school-aged child. Child Adolesc Psychiatr Clin N Am. 1999; 8(4): 791-806.
  10. Shprintzen RJ, Goldberg R, Golding-Kushner KJ, Marion RW. Late-onset psychosis in the velo-cardio-facial syndrome [letter] Am J Med Genet. 1992; 42:141-2.

Referência: Roberto Muller
Endereço: Clínica Dr. Roberto Muller - Pediatria - Genética Médica
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