Incompetência cervical - Caso
de discussão em Obstetrícia
Mulher
nulípara reclama de corrimento, entre as 22ª,
23ª e 27ª semana de gestação. O
exame especular revela que cérvix com dilatação
de 2 cm e 80% diminuído. Ela não tem nenhum
fator de risco para insuficiência cervical.
1. Que considerações
se devem tomar na hora de fazer a cerclagem cervical?
2. Nesse momento, você percebe que as membranas
do feto estão se deslocando para a abertura cervical
externa. Deve-se abandonar o procedimento?
3. A cerclagem foi realizada sem nenhum imprevisto. Como
a paciente deve ser tratada durante o restante da gravidez?
4. A gravidez avança sem problemas até a
30ª-33ª semana de gestação, quando
a paciente apresenta ruptura prematura espontânea
das membranas, confirmada pelo exame especular. É
preciso remover a cerclagem agora?
Que considerações
devem-se tomar na hora de fazer a cerclagem cervical?
Antes do uso
da cerclagem, deve-se considerar exaustivamente os riscos
potenciais e os benefícios do procedimento, as alternativas
ao uso da cerclagem (também conhecida como repouso
em cama). As pacientes com contra-indicação
a cerclagem devem ser excluídas.
Deve-se realizar
um exame de ultra-som antes de fazer a cerclagem para excluir
anomalias estruturais (como, anencefalia) e/ou morte fetal.
Além disso, é preciso confirmar a viabilidade
fetal tanto antes como depois do procedimento, seja pela
ausculta ou por ultra-sonografia. É preferível
anestesia local à geral, já que as pacientes
que voltam da anestesia geral geralmente tossem e enjoam,
o que enfatiza o uso da cerclagem. Os antibióticos
profiláticos são recomendados em cerclagem
emergente, devido ao risco de corioamnionite; entretanto,
a uso contínuo de antibióticos para cerclagem
eletiva (profilática) é controverso. A tocólise
profilática pode ser utilizada para inibir as contrações
uterinas transientes associadas com a indução,
mas não há nenhuma evidência objetiva
que isso melhora os resultados. No âmbito da cerclagem
emergente, a indometacina (100mg no reto, antes do procedimento
seguido por 25-50mg via oral, por 24 horas) geralmente é
recomendado.
Nesse
momento, você percebe que as membranas do feto estão
se deslocando para a abertura cervical externa. É necessário
abandonar esse procedimento?
As membranas
deslocadas são uma contra-indicação
relativa ao uso de cerclagem cervical, primeiro porque o
risco de ruptura iatrogênica prematura das membranas
pode ser tão alto como 40-50%. Entretanto, a decisão
de abandonar ou não o procedimento neste momento
deve ser individual. Muitas técnicas pré e
pós-cirúrgicas foram descritas para reduzir
as membranas fetais antes do uso de cerclagem, inclusive
colocar o paciente na posição Trendelenburg,
preenchimento retrógrado da bexiga e/ou amniocêntese
terapêutica.
A cerclagem
foi realizada sem nenhum problema. Como se deve tratar a paciente
durante o restante da gravidez?
A paciente
pode voltar para casa em poucas horas depois do uso da cerclagem.
Ela pode ser monitorada como um paciente externo (semanalmente
ou a cada 2 semanas) para avaliação cervical.
Deve-se recomendar o descanso na cama e o “descanso
pélvico (nada de relação sexual, tampões
ou lavagens), até alcançar a idade gestacional
favorável (32-34 semanas), embora não haja
nenhuma evidência convincente que esses movimentos
melhorem os resultados perinatais. A cerclagem cervical
não é associada com a insuficiência
útero-placental e a restrição do crescimento
intra-uterino. Assim, não é necessário
fazer o teste fetal regular. É necessário
remover a cerclagem na 37ª ou 38ª semanas ou com
o início das contrações uterinas prematuras
constantes e trabalho de parto prematuro para evitar dilacerações
cervicais e rupturas uterinas.
A gravidez
avança sem problemas até a 30ª-33/37ª
semana de gestação, quando a paciente apresenta
ruptura prematura espontânea das membranas confirmadas
pelo exame de espéculo estéril. Deve-se remover
a cerclagem agora?
No âmbito
da ruptura prematura das membranas (PPROM), a evidência
de amnionite deve ser removida da cerclagem imediatamente.
Na falta de corioamnionite clínica, o risco de parto
prematuro com remoção de cerclagem deve ser
pesado contra o risco de infecção crescente,
se a cerclagem for mantida. Estudos iniciais sugeriram que
a retenção da cerclagem fosse associada com
o prolongamento do período de latência entre
PPROM e o parto, mas que esse benefício foi compensado
por uma taxa de mortalidade perinatal crescente, devido
à sepsia, principalmente. Entretanto, estudos mais
recentes falharam ao confirmar qualquer associação
entre retenção de cerclagem e morbidade infecciosa.
Caso
de discussão em Obstetrícia
Uma G7 P2234
de 33 anos apresenta, nas 16-3/17ª semanas de gestação,
infecção de herpes genital recorrente. Ela
está preocupada com os efeitos potenciais no feto.
1. É
comum a infecção por herpes neonatal? Como
se contrai?
2. O histórico
e o exame clínico, o isolamento do vírus
da lesão da vesícula e o teste sorológico
confirmam o diagnóstico da infecção
por HSV-2. Qual o risco para o feto?
3. A paciente deve se tratar?
É
comum a infecção por herpes neonatal? Como se
contrai?
Nos EUA, aproximadamente,
1500 a 2000 recém-nascidos contraem herpes a cada
ano. A maioria dessas infecções é devida
ao HSV-2. Primeiro, a infecção primária
apresenta o maior risco de transmissão vertical.
Essas infecções são associadas com
viremia HSV e, assim, pode resultar em uma transmissão
transplacental do vírus e na infecção
do útero, levando a uma variedade de anomalias estruturais
e também trabalho de parto prematuro. Porém,
se considera a infecção uterina como rara.
A maioria das infecções neonatais resulta
do contato do feto com secreções maternas
infectadas na hora do parto. A doença neonatal ocorre
em 30-60% das crianças expostas ao HSV na hora do
parto. Isso pode se manifestar como doença localizada
(geralmente afetando a pele, os olhos, a boca e/ou o sistema
central nervoso) ou doença disseminada. A mortalidade
neonatal relatada no âmbito de doença disseminada
varia de 15 a 57%.
O histórico
e o exame clínico, o isolamento do vírus da
lesão da vesícula e o teste sorológico
confirmam o diagnóstico da infecção por
HSV-2. Qual o risco para o feto?
O HSV recorrente
não está associado a viremia. Assim, o feto
não está sob um risco significativo de contrair
uma infecção de HSV já que as membranas
do feto estão intactas e não há evidência
de trabalho de parto.
A paciente
deve se tratar?
O tratamento
com a terapia antiviral geralmente é recomendado
para mulheres com infecção de HSV recorrente.
Acyclovir é considerado o remédio do momento,
embora valacyclovir e famciclovir melhoraram sua biodisponibilidade
e, assim, oferecem mais benefício. O Acyclovir atravessa
a placenta e se concentra no líquido amniótico
para atingir níveis terapêuticos no feto e
seu uso é considerado seguro durante a gravidez.
Ao contrário da infecção primária
por HSV, ainda não está claro se a terapia
antiviral com Acyclovir reduz a eliminação
do vírus, dor ou duração dos sintomas
em mulheres com infecção de HSV recorrente.
Para que a paciente tenha algum benefício da terapia,
o tratamento deve ser iniciado durante o prodrome clínico
ou em um dia do início das lesões genitais.
Na média, a terapia com Acyclovir iniciada depois
do aparecimento da lesão recorrente reduzirá
o episódio clínico em apenas 1 dia (de 10
dias a 9 dias). O Acyclovir tópico é menos
eficiente que o tratamento oral; seu uso não é
recomendado durante a gravidez. Se a terapia está
para ser iniciada, os remédios e a dosagem recomendados
para o tratamento da infecção de HSV recorrente
incluem um dos seguintes:
a. Acyclovir
400 mg po tid x 5 dias
b. Acyclovir 200 mg po 5x/dia x 5 dias
c. Acyclovir 800 mg po tid x 5 dias
d. Famciclovir 125 mg po bid x 5 dias
e. Valacyclovir 500 mg po bid x 5 dias
Referências:
1. MacDougall J, Siddle N. Emergency cervical
cerclage. Br J Obstet Gynaecol 1991; 98:1234-1238.
2. Aarts JM, Brons JTJ, Bruinse HW. Emergency
cerclage: a review. Obstet Gynecol Surv 1995; 50:459-469.
3. American College of Obstetricians and
Gynecologists. Cervical cerclage. ACOG Criteria Set 18.
Washington, DC: ACOG, 1996.
4. Norwitz ER, Greene MF, Repke JT. Cervical
Cerclage - Elective and Emergent. American College of Obstetricians
and Gynecologists: ACOG Update 1999; 11:1-10.
5. Ludmir J, Bader T, Chen L, Lindebaum
C, Wong G. Poor perinatal outcome associated with retained
cerclage in patients with premature rupture of the membranes.
Obstet Gynecol 1994; 84:823-826.
6. McElrath TF, Norwitz ER, Lieberman ES,
Heffner LJ. Management of cervical cerclage and preterm
premature rupture of the membranes: Should the stitch be
removed? Am J Obstet Gynecol 2000; 183:840-846.
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