Doenças ósteo-musculares relacionadas ao trabalho (D.O.R.T.)
Bases conceituais ( Parte 1)
As afecções
de origem ocupacional que acometem músculos, tendões, fáscias, sinóvias, ligamentos
e nervos, de forma isolada ou associada, com ou sem degeneração de tecidos,
atingem principalmente os membros superiores, região escapular e pescoço. São
decorrentes do uso repetitivo de grupos musculares, manutenção de posturas estáticas,
traumas crônicos, do uso forçado de grupos musculares, do uso de ferramentas
manuais, dentre outros fatores que ocorrem de forma isolada ou combinada.
O termo Lesões
por Esforços Repetitivos (L.E.R.) adotado no Brasil, que equivale a Repetition
Strain Injuries (RSI), praticamente não é mais utilizado e foi substituído pela
nomenclatura Doenças ou Distúrbios Ósteo-musculares Relacionadas ao Trabalho
(D.O.R.T.), que corresponde ao termo Work-Related Musculaskeletal Disorders
(WRMD). Essa nova denominação toma-se mais adequada, pois destaca a existência
de distúrbios ao invés de lesões. De fato, na prática observa-se que numa fase
inicial da doença, aparecem distúrbios como dor, fadiga, peso nos membros, formigamento,
enquanto que as lesões, propriamente ditas ocorrem mais tardiamente.
Dentre as doenças
que compõem as D.O.R.T., destacam-se as tendinites, as bursites, as epicondilites,
as tenossinovites, as miosites, a síndrome do túnel do carpo, o dedo em gatilho,
a enfermidade de De Quervain, a contratura de Dupuytren, a síndrome do canal
de Guyon, a síndrome do pronador redondo, os cistos sinoviais, a síndrome do
ombro doloroso, a compressão do nervo ulnar, a compressão do nervo mediano,
a síndrome do desfiladeiro torácico, a sindrome cervicobraquial, a sindrome
da tensão do pescoço. Tais doenças são diagnosticadas em trabalhadores das mais
diversas categorias profissionais, alcançando tamanha magnitude que podem ser
consideradas na atualidade como um problema de saúde pública. Nesse contexto
abordaremos nessa revisão sobre D.O.R.T. alguns aspectos médicos pertinentes,
no que se refere às bases conceituais (parte 1), diagnóstico (parte 2) e medidas
preventivas (parte 3).
A problemática das D.O.R.T.
Os trabalhadores
acometidos pelas D.O.R.T. constituem uma população mundial entre 25 e 40 anos
em plena fase produtiva, economicamente ativas, o que agrava a repercussão econômica
e social dessa patologia. O principal fenômeno social apontado como causa do
aumento dessas disfunções é a modernização do trabalho. Essa se caracteriza
pela racionalização, mecanização, fragmentação, especialização e automação das
tarefas industriais e a informatização nas diferentes áreas de serviço. A constante
busca do aumento na produtividade poderia estar ocorrendo em detrimento das
condições humanas envolvidas neste processo. Contudo, as D.O.R.T. não se restringem
a trabalhadores da indústria e/ou do comércio afetando também outros grupos,
tais como atletas e músicos.
Epidemiologia das D.O.R.T.
O que se denomina
D.O.R.T. é, na realidade, a constatação contemporânea de um fenômeno antigo.
Historicamente, essa entidade já fora documentada desde 1700 pelo médico italiano
Bernardini Ramazzini como a "doença dos escribas e notários", relacionada às
atividades que exigem esforços dos membros superiores, como as executadas pelos
escriturários e taquígrafos; em associação à longa permanência na posição sentada,
à exigência de movimentos repetitivos dos membros superiores, e ao sofrimento
psíquico causado pela rapidez, atenção e responsabilidade exigidas por essas
funções.
Na Suíça, desde
1918, afecções ósteo-musculares dos membros superiores eram diagnosticadas entre
mecanógrafos e telefonistas. O Japão foi o primeiro país a entender a gravidade
da questão, na década de 50, por ser este o país que mais precoce e velozmente
avançou na automação e racionalização da organização do trabalho. Consequentemente,
também foi o primeiro país a reconhecer as D.O.R.T. como um conjunto de afecções
músculo-esqueléticas de origem multicausal e relacionadas ao trabalho. Na década
de 70, um quinto dos trabalhadores em linhas de montagem nesse país apresentavam
cérvico-braquialgia ocupacional, o que correspondia a um aumento em 607% na
prevalência desse comprometimento no ambiente de trabalho. Constatou-se, na
ocasião, que tal aumento na prevalência das D.O.R.T. ocorreu como conseqüência
de fatores relacionados às condições físicas do posto de trabalho; de fatores
organizacionais, como o conteúdo e a organização temporal do trabalho (períodos
de trabalho e de pausa); da produtividade realizada e de aspectos psicossociais
importantes, como o grau de responsabilidade e pressão para o aumento da produção.
O principal fenômeno social apontado como causa do aumento dessas disfunções
é a modernização do trabalho, caracterizada pela mecanização, fragmentação,
especialização e automação das tarefas industriais e a informatização nas áreas
de serviço, planejando o desenvolvimento do trabalho à partir de tarefas padrão.
Dados mais
confiáveis oriundos dos EUA, onde o diagnóstico das D.O.R.T. aumentou 144% entre
1988 e 1992, estima-se que o número de acometimentos é cerca de 3,2 a 3,5 trabalhadores
por contingente de 100 e o número médio de dias de afastamento, quando esse
ocorre, é de 20 dias. Pesquisas recentes apontam o aumento da incidência das
D.O.R.T., principalmente nos membros superiores, em todo o mundo. Na França,
essas afecções já são o maior motivo de afastamento do trabalho, comprometendo
a produtividade (BARBOSA et al, 1997). Os trabalhadores acometidos pelas D.O.R.T.
constituem uma população mundial em plena fase produtiva, pessoas entre 25 e
40 anos, com uma expectativa de vida e um período economicamente ativo muito
elevados, o que agrava a repercussão econômica e social dessa patologia.
Apesar de serem
escassos os estudos epidemiológicos, a prevalência das D.O.R.T. no Brasil vem
aumentando muito, denotando um maior reconhecimento das patologias musculoesqueléticas
vinculadas ao trabalho e à crescente implantação de programas preventivos nas
empresas. por outro lado, o reconhecimento formal das D.O.R.T. como doenças
profissionais é extremamente falho, uma vez que persistem as resistências e
as dificuldades em se estabelecer o nexo causal da doença com o trabalho.
O Ministério
da Previdência Social, por meio da Portaria MPAS/GM n°4.062, de 06/08/1987 passou
a reconhecer como L.E.R a um conjunto de patologias de origem ocupacional. A
partir daí, as D.O.R.T. passaram a ser as patologias mais freqüentes, representando
mais de 40% das afecções ocupacionais diagnosticadas a partir de então. Sabe-se,
no entanto, que a prevalência das D.O.R.T. é muito superior ao que apontam as
estatísticas oficiais, pois além da dificuldade de diagnóstico, muitos casos
não são incorporados ao quadro de estatísticas como os indivíduos portadores
da lesão que são trabalhadores autônomos, e portanto não subordinados às legislações
específicas, os trabalhadores acometidos que, em sua maioria, abandonam o emprego
ou trocam de função onde o esforço exigido é menor; os trabalhadores que não
comunicam seu diagnóstico à empresa e os que se auto-medicam sem procurar tratamento,
tão logo comecem a reduzir sua produtividade em virtude do aparecimento dos
primeiros sintomas.
Antes de 1987,
a maior prevalência de casos de D.O.R.T. ocorria entre os metalúrgicos e os
bancários, respectivamente, 20% e 30% dos casos. Entretanto, esse quadro tem
se modificado. Na cidade de São Paulo, no período de novembro de 1886 a dezembro
de 1987, dos 284 casos de tenossinovite registrados nas agências do INSS, 88,3%
eram digitadores. As estatísticas de 1987 e 1988, apontam que dentre os portadores
de D.O.R.T., os digitadores representavam 81 %. Já em 1989, dos 125 casos de
D.O.R.T. registrados, os digitadores representavam 60% e as outras profissões
40%.
Em Londrina,
no período de setembro à novembro de 1995, foram estudados 40 digitadores,.
Os dados foram coletados mediante a utilização de um questionário e a observação
do posto de trabalho. Verificou-se que dentre os digitadores que apresentaram
D.O.R.T., 44% necessitaram de acompanhamento médico e, de acordo com este, 16,7%
dos digitadores foram afastados por um período de 110 dias, em média, um dos
indivíduos foi afastado por 7 anos e 41,7% foram afastados por tempo indeterminado.
Dos indivíduos afastados, 76,5% voltaram à sua função, dos quais 68,8% apresentaram
recidiva dos problemas. Constatou-se também que 46,7% dos digitadores não tinham
conhecimento sobre a atuação da fisioterapia nas D.O.R.T., mas 64,5% mostraram-se
interessados em participar de um programa preventivo nessa área.
Em em Belo
Horizonte, no período entre 1987 e 1988, 80% dos pacientes acometidos por D.O.R.T.
já apresentavam história pregressa de acometimento musculoesquelético relacionado
ao trabalho e haviam procurado alguma forma de tratamento anterior. Diversos
estudos epidemiológicos evidenciam que nas D.O.R.T. o diagnóstico precoce é
imprescindível para a cura do distúrbio, e se os sintomas não forem tratados
no início, tendem a tornar-se crônicos ou irreversíveis. O reconhecimento tardio
da doença pode acarretar incapacidade parcial, temporária e até permanente na
realização da atividade profissional e o afastamento do mercado de trabalho,
levando a uma problemática não só de saúde, mas também social.
A parte 2
desse programa de Revisão em Doenças ou Distúrbios Ósteo-Musculares Relacionadas
ao Trabalho abordará a questão do diagnóstico das D.O.R.T.
Dra. Suely
Roizenblatt
Reumatologia, Clínica Médica
Clínica de Fisioterapia
Av. Angélica 1045, 5o andar
cep:
01227 100 São Paulo, SP
 |
|