Câncer no final do século
Introdução
É
uma tarefa praticamente impossível tentar resumir os avanços no estudo do câncer
no último século. A oncologia não existia antes e o câncer era uma condição
muito menos freqüente. A única terapêutica disponível - se é que existia alguma
- era a cirurgia. O tratamento do câncer dependeu profundamente dos avanços
da cirurgia, anestesia, radiologia, patologia e radioterapia. A rápida evolução
da medicina interna também facilitou o progresso da oncologia. Sem o advento
das modernas técnicas de hemoterapia e os progressos da infectologia, a prática
atual da cancerologia seria impensável.
As pesquisas
em câncer são um marco no avanço da moderna ciência biomédica. Na busca da compreensão
da biologia do câncer, os pesquisadores provocaram uma revolução na imunologia,
biologia celular, genética e biologia molecular, gerando, em pouco tempo, a
maior quantidade de conhecimento biológico de toda a história da humanidade.
O impacto
social do câncer não foi menor que seu impacto no progresso da ciência médica.
O câncer tornou-se uma doença comum, a segunda causa de morte nas sociedades
industrializadas, a terceira causa de morte no Brasil (depois das cardiovasculares
e causas externas). São raras as famílias em que não há um caso de câncer. Os
fatores biológicos e comportamentais que contribuem para o câncer - envelhecimento,
fatores ambientais, tabagismo, estilo de vida - estão no centro da discussão
das prioridades sociais, usos e costumes. O câncer deixou de ser uma doença
terrível - freqüentemente mal compreendida e raramente discutida - para ser
um tópico usual nos telejornais.
O aparecimento
da oncologia como especialidade médica, o surgimento de institutos de pesquisa
sobre o câncer, o aumento do número de organizações de pacientes e os investimentos
governamentais no financiamento de pesquisas e na manutenção de serviços assistenciais
tiveram enorme impacto na prática atual da medicina contra o câncer.
Situação atual
Tratamento
Existem, hoje,
tratamentos médicos para todos os tipos de câncer. Para alguns tipos, o progresso
tem sido extraordinário. Leucemias na infância e tumores testiculares avançados
eram, quase sempre, doenças fatais. Hoje, a maioria destes pacientes é curada.
Em outros casos, porém, os avanços têm sido tímidos e pouco se faz além da excisão
cirúrgica.
Para os tumores
não-sólidos - linfomas e leucemias - e para alguns tumores pouco freqüentes,
como os tumores de células germinativas e sarcomas na infância, o tratamento
de escolha é a quimioterapia com múltiplos agentes. Em uma grande porcentagem
destes casos, o tratamento é curativo. Para uma fração ainda significativa,
porém, o tratamento será, apenas, paliativo. Pacientes que recaem após a terapia
inicial têm um prognóstico muito pior.
Para tumores
sólidos, como os tumores de mama, cólon, pulmões e próstata, a terapia multimodal
é a melhor. O tratamento para eliminar a lesão primária - geralmente a retirada
cirúrgica do tumor - permanece como um passo essencial da terapêutica. Devido
ao refinamento da técnica, a cirurgia oncológica, é hoje, muito menos traumática
que no passado.
A sobrevida
de longo prazo é, geralmente, aumentada mediante tratamento subseqüente com
radioterapia, quimioterapia ou terapia hormonal. Muitos pacientes, principalmente
aqueles em que a doença é detectada em estágios iniciais, serão curados com
essas intervenções.
Para aqueles
com diagnóstico mais tardio, em que a terapia inicial não resultar em cura,
a químio e a radioterapia podem oferecer melhora paliativa, mas raramente serão
curativas. Embora muitas drogas tenham sido introduzidas nas últimas décadas,
pouco se avançou com o advento destes novos fármacos. O desafio fundamental
ainda é a resistência de muitos tipos de câncer às drogas mais freqüentemente
usadas em quimioterapia.
Detecção
Programas
efetivos de detecção existem para vários tipos de câncer. O seu objetivo é perceber
o câncer em seus estágios iniciais, quando os tratamentos podem ser curativos.
A adoção disseminada de programas de detecção pode alterar o quadro de morbi-mortalidade
das neoplasias de colo de útero, mama, cólon e reto. Há grande interesse e investimento
em programas de detecção precoce de câncer de pulmão, ovário e próstata, embora
ainda não se tenha chegado a resultados definitivos.
Epidemiologia
e etiologia
Uma enorme
investida da ciência terminou por identificar alguns dos fatores genéticos e
biológicos que estão envolvidos no surgimento do câncer. A maioria das células
cancerosas, hoje sabemos, tem anormalidades genéticas, além de uma infinidade
de anormalidades fisiológicas. Entretanto, apenas algumas neoplasias são realmente
hereditárias. A contribuição de fatores genéticos para o risco da maioria dos
tipos de câncer é pequena, embora, para alguns tipos mais raros de neoplasias
e para uma pequena porcentagem dos tipos mais comuns, a análise dos fatores
genéticos se tenha tornado muito útil. Conquanto a ciência tenha criado uma
teoria conceitual para a compreensão de como o câncer surge, a oncologia clínica
é fundamentalmente guiada pela observação empírica e o ensaio clínico (e o erro).
Fatores epidemiológicos
importantes foram identificados como envolvidos na gênese de certos tipos de
câncer. O mais importante foi o tabagismo, que contribui para o surgimento do
câncer de pulmão, esôfago, cabeça e pescoço, bexiga, pâncreas, rim e outros.
Outros fatores que contribuem para o aumento do risco de câncer são: o envelhecimento
(câncer de próstata, de trato gastrointestinal e outros); exposição ao sol (melanoma,
câncer de pele); práticas sexuais (colo de útero, câncer anal); infecções virais
(colo de útero, hepatocarcinoma, talvez Doença de Hodgkin) e talvez, de forma
ainda não bem definida, dieta e obesidade. Resta, ainda, verificar quão rápido
a alteração de hábitos sociais pode influenciar o risco de desenvolver câncer.
O
novo século
É tentador
acreditar que a oncologia está pronta para mudar de curso em um futuro próximo.
Embora a prática clínica e o conhecimento científico tenham, em geral, cursado
trilhas diferentes por muitos anos, existe uma evidência crescente de que esses
dois corpos de conhecimento vão estar mais intimamente ligados. O melhor conhecimento
dos fatores envolvidos na biologia dos tumores está começando a modificar práticas
clínicas. A saúde pública começa a passar da detecção precoce de alguns tipos
de câncer para a real prevenção de neoplasias. Esse movimento tenderá a diminuir
o peso do câncer sobre a sociedade, ainda que a população continue seu processo
de envelhecimento.
Tratamentos
racionais
Durante a maior
parte do século, todos os tipos de câncer eram tratados da mesma forma. Ou seja,
todas as leucemias eram tratadas como leucemia, todos os cânceres de mama eram
tratados da mesma maneira. Essa prática não levava em conta a extraordinária
heterogeneidade das neoplasias, já observada pelos clínicos que notavam que
alguns tipos de câncer iam bem com a terapia enquanto outros, não.
Essa heterogeneidade
só foi bem compreendida e bem descrita, com o avanço da moderna biologia. À
medida que marcadores genéticos tumorais moleculares foram ficando mais sofisticados,
os médicos foram capazes de selecionar melhor o tratamento para um dado subtipo
específico de tumor. As terapias gênicas, com drogas que atuam em nível de pequenas
moléculas, ou terapias imunogênicas vão avançar em importância.
Aqui estão
alguns exemplos de terapias atuais que caminham na direção dos tratamentos futuros:
Leucemia
promielocítica aguda
A Leucemia Promielocítica
Aguda (LPMA) é uma forma pouco comum de leucemia caracterizada por uma translocação
gênica específica. O agente de diferenciação tumoral ácido all-trans retinóico
liga-se a um receptor especificamente afetado por essa translocação genética
e tem-se tornado parte da terapia para LPMA, sendo efetivo unicamente nessa
forma de leucemia.
Câncer
de mama
Embora a maioria
dos cânceres de mama pareçam similares à microscopia, apenas cerca de dois
terços deles apresentam receptores estrogênicos quando testados molecularmente.
Para esses casos, terapia antiestrogênica com citrato de tamoxifeno é muito
útil, tanto os estágios precoces quanto nos mais avançados. Por outro lado,
a terapia com tamoxifeno não surte efeito nos tumores negativos para receptores
estrogênicos.
Linfoma
e câncer de mama
Alguns linfomas de baixo grau expressam a proteína de superfície
CD20. O quimioterápico rituximab é um anticorpo anti-CD20 e consegue uma regressão
significativa dos tumores que têm essa proteína. Uma situação similar envolve
o uso de trastuzumab, um anticorpo anti-HER2, uma proteína presente em alguns
cânceres de mama. Para pacientes com esses subtipos de tumor a terapia especificamente
direcionada tem tido bons efeitos clínicos.
Terapia
gênica
A capacidade de caracterizar defeitos moleculares em células cancerosas
vai aumentar muito nos próximos anos. Em pouco tempo, a disponibilidade de
uma vasta quantidade de informação vai superar nossa capacidade de interpretar
todo esse conhecimento e de aplicá-lo à clínica. Com o tempo, porém, uma caracterização
detalhada em nível molecular dos eventos genéticos envolvidos na transformação
cancerosa vai permitir uma melhora na classificação, prognóstico e tratamento
dos tumores.
Prevenção
de câncer e educação em saúde
Estamos no limiar do surgimento
disseminado de programas de prevenção de câncer. Além de programas de detecção
precoce, têm havido estudos que buscam a possibilidade de real prevenção de
certos tipos. O uso do tamoxifeno na prevenção do câncer de mama e os estudos
que investigam a possibilidade de certos antiinflamatórios não-esteroidais poderem
evitar o câncer de cólon são bons exemplos. Embora a escala desses estudos indiquem
que os trabalhos serão longos, tudo indica que vão surgir várias intervenções
médicas possíveis para diminuir o risco de um determinado indivíduo desenvolver
um câncer.
Outra linha de pesquisa
é a de vacinas contra o câncer. É muito provável que programas de vacinação
em massa contra vírus que estão diretamente relacionados a certos tipos de câncer
consigam diminuir a ocorrência destes últimos, como é o caso do vírus da hepatite
B e o hepatocarcinoma ou do papilomavirus e o câncer de colo uterino.
A batalha contra as indústrias
do tabaco também deve ter um enorme impacto nas estatísticas de câncer. Se a
sociedade conseguir modificar seus hábitos em relação ao tabagismo por meio
da educação sanitária e legislação reguladora, milhares de casos de câncer serão
evitados.
Políticas
públicas
A prática da oncologia é
grandemente afetada por lobbyes políticos, questões jurídicas e educação. À
medida que pacientes com câncer foram tendo maior interesse na sua saúde, passaram
a pressionar os médicos a se preocuparem com a qualidade de vida, com a diminuição
dos efeitos colaterais dos tratamentos e a melhorarem o conhecimento de tipos
específicos da doença. Todas essas formas de pressão vão facilitar o acesso
à informação para a população em geral.
Todos nós estaremos nos
confrontando com a questão do aumento dos custos no tratamento e na prevenção
do câncer. Parece que o custo de tratamentos mais seguros, novas drogas e novos
métodos de detecção precoce vão aumentar continuamente. Se ninguém estiver disposto
a pagar por qualidade de saúde e se não houver fundos suficientes para bancar
a pesquisa acadêmica, o progresso da luta contra o câncer vai ser lento.
Em um grau surpreendente,
o rápido avanço na oncologia vai depender da vontade política dos cidadãos e
dos líderes políticos em custear a pesquisa acadêmica e a excelência clínica.
Resta saber se o apoio do público à pesquisa em saúde, que trouxe tantos avanços
neste século, vai persistir no próximo.
Leitura
Recomendada:
KELOFF GJ. Perspectives on cancer chemoprevention research and drug development.
Adv Cancer Res. 2000;78:199-334.
KLAUSNER RD. Cancer,
genomics, and the National Cancer Institute. J Clin Invest. 1999;104(suppl):S15-S7.
WEINER LM. Monoclonal antibody therapy of cancer. Semin Oncol. 1999;26(suppl
14):43-51.
MANDELBLATT JS, GANZ PA, KAHN KL. Proposed agenda for the measurement of quality-of-care
outcomes in oncology practice. J Clin Oncol. 1999;17:2614
Editora responsável: Dra. Elisabete Almeida - drabetty@lincx.com.br
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