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O ventrículo fetal: Importância na ultra-sonografia obstétrica de rotina

Recomenda-se que o examinador visualize os ventrículos cerebrais fetais em todas as ultra-sonografias realizadas durante o 2º e 3º semestres. Durante a gestação, o aspecto ultra-sonográfico dos ventrículos laterais é dominado pelo plexo coróide presente no seu interior. Praticamente todas as características do sistema ventricular lateral mudam durante o período de crescimento cerebral. Felizmente, entretanto, o diâmetro do átrio ventricular permanece inalterado durante esse processo.

Geralmente deve-se valorizar mais o diâmetro axial transverso do átrio do ventrículo. O átrio do ventrículo permanece estável durante o 2º e 3º semestres. Medidas que independem da idade gestacional são pouco comuns na ultra-sonografia obstétrica, sendo muito bem aceitas pelos especialistas. O átrio ventricular pode ser identificado em praticamente todos os fetos durante o 2º e 3º semestres da gestação. A avaliação subjetiva está relacionada ao glomus do plexo coróide, que preenche todo ou quase completamente o átrio.O átrio ventricular normal apresenta um diâmetro médio de 6,5 mm e um desvio padrão (D.P.) de 1,3 mm. Portanto, 2 D.P. correspondem a 9,1 mm e 3 D.P. a 10,4 mm.

A identificação de ventriculomegalia fetal é uma ótima oportunidade para o diagnóstico de malformações do SNC, e o átrio ventricular é a região onde é mais fácil observar alterações ventriculares. A ventriculomegalia é a “ponta do iceberg” (do desenvolvimento anômalo do SNC).

Existem três processos patológicos que podem resultar em aumento das dimensões do ventrículo:

- hidrocefalia obstrutiva,
- desenvolvimento anômalo do ventrículo ou do parênquima cerebral adjacente,
- e destruição do tecido cerebral adjacente (ventriculomegalia ex vacuum).

Só é possível determinar a história natural de um processo patológico na ausência de intervenções com o objetivo de modificar a sua evolução. Tendo em vista que um grande número de casos nos quais a ventriculomegalia fetal é registrada evolui para interrupção da gestação, não é possível documentar a evolução natural dessa condição. De modo geral, no entanto, as mães que optam pela interrupção da gestação tendem a escolher essa alternativa quando existem malformações graves associadas. Portanto, a literatura provavelmente descreve um melhor prognóstico para as gestações levadas a termo do que seria esperado se todas as gestações fossem levadas em consideração. Entre os fetos com ventriculomegalia, observa-se sobrevida de aproximadamente 30%, malformações associadas em 80% dos casos, e desempenho intelectual normal ou próximo do normal em apenas metade das crianças. O prognóstico é muito pior na presença de outras malformações.

Cerca de 15 a 20 % dos fetos com ventriculomegalia manifestam apenas dilatação ventricular leve (DVL). Levando-se em consideração a DVL, pode-se sugerir uma tentativa de aumentar a sensibilidade do exame, resultando em um maior número de falsos positivos, com a interrupção de gestações normais e a conseqüente ansiedade de médicos e familiares. Os achados do estudo indicam que a DVL pode ser tão relevante quanto a ventriculomegalia acentuada. A DVL está relacionada com uma prevalência semelhante de malformações associadas (78%). A mortalidade de fetos com DVL é elevada (75%) e comparável com aquela observada em fetos com graus avançados de ventriculomegalia.

De forma surpreendente, esse prognóstico reservado foi observado mesmo na ausência de malformações graves do SNC, como a holoprosencefalia ou a hidroanencefalia. Finalmente, o prognóstico dos fetos com DVL que sobrevivem é ruim. Pelo menos 25% dos recém-nascidos apresentam limitações graves.

Entre as gestações com DVL isolada levadas a termo, no grupo analisado por Goldstein e colaboradores, observou-se mortalidade de 11% em comparação com um índice de 56% no grupo com outras malformações. Entre as crianças com DVL isolada que sobrevivem, 86% apresentam desenvolvimento normal; as exceções incluem os fetos que não apresentam apenas DVL, e que as malformações associadas não são diagnosticadas durante o pré-natal (34). Esses dados fundamentam a idéia de que não é a intensidade da ventriculomegalia que indica a morbimortalidade fetal, mas sim a existência de malformações associadas.

As anomalias do cariótipo são bastante prevalentes em fetos com ventriculomegalia (>25%). Dessa forma, deve-se recomendar a realização do cariótipo e do ecocardiograma em todos os fetos com ventriculomegalia, principalmente quando a alteração é um achado isolado e um cariótipo alterado ou uma malformação cardíaca grave pode influenciar a vontade dos pais de manter a gestação em curso.

A caracterização de ventriculomegalia deve resultar no início de uma série de eventos que inclui (mas não necessariamente está limitado a) o seguinte:

1. ultra-sonografia dirigida (nível 2)
2. determinação do cariótipo fetal
3. ecocardiograma fetal
4. aconselhamento por um especialista no acompanhamento de gestações com anomalias fetais (geralmente por um geneticista obstetra ou especialista em medicina fetal).

Referências
Siedler DE, Filly RA. Relative growth of higher fetal brain structures. J Ultrasound Med 1987; 6:573-576
Cardoza JD, Goldstein RB, Filly RA. Exclusion of fetal ventriculomegaly with a single measurement: the width of the lateral ventricular atrium.


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